Documentário mostra perseguição de Israel a ativistas pró-Palestina nos EUA – estratégia replicada agora no Brasil

'The Lobby — USA' expõe as atividades da Canary Mission, um grupo sigiloso pró-Israel que faz caça às bruxas contra simpatizantes da causa palestina.

Site que difama ativistas pró-Palestina é financiado por um dos homens mais ricos do lobby a favor de Israel.

“The Lobby”: censurado por Israel

Parte 3


“É uma guerra psicológica”. Foi assim que Jacob Baime, diretor executivo da Coalizão Israel no Campus, definiu a estratégia adotada pela organização para combater ativistas pela libertação da Palestina nos Estados Unidos. Ele não está exagerando. 

Diversos estudantes e professores ligados à causa tiveram seus rostos e nomes expostos pela Canary Mission, um site anônimo que os taxa de terroristas ligados ao Hamas. E, usando essa lista como argumento, membros do lobby pró-Israel chegaram a contatar empregadores dos ativistas pedindo sua demissão e a postar falsas alegações de assédio sexual e outras formas de difamação. 

Este mês, táticas semelhantes surgiram no Brasil. O movimento pró-Israel tem como alvo os críticos dos assassinatos em massa cometidos por Israel em Gaza.

“Isso me destroçou, porque eu tinha que procurar um emprego e começar minha vida. Mas esse site estava sujando meu nome antes mesmo de eu ter a chance de realmente fazer um nome para mim mesma”, desabafou Marcelle Obeid, estudante que milita no BDS, um movimento pacífico que pede, entre outras medidas, o boicote a produtos israelenses. 

“Alguém de fato entrou em contato com meu empregador e pediu que eu fosse demitida”, contou outra estudante.

“Isso os deixa loucos”, afirmou o diretor executivo da Coalizão Israel no Campus. “Eles ou param [seu ativismo] ou perdem tempo respondendo e investigando [as agressões], um tempo que eles não podem gastar atacando Israel. Isso é incrivelmente eficaz”. 
Baine e diversos outros membros do lobby israelense foram gravados em segredo por James Kleinfeld, repórter infiltrado da Al Jazeera. Suas investigações deram origem ao bombástico documentário “The Lobby – USA” – que acabou censurado por pressão de Israel e é, agora, exibido pelo primeira vez em português pelo Intercept Brasil.

Assista aqui ao episódio na íntegra:

O terceiro episódio da série mostra como se articula a rede de difamação de ativistas pacíficos em favor dos direitos dos palestinos – e revela quem está por trás da Canary Mission: o presidente do Conselho Americano-Israelita e magnata do ramo imobiliário Adam Milstein. Sua identidade havia escapado dos ativistas pró-Palestina por anos, apesar dos esforços constantes para revelá-la. 

Condenado por fraude fiscal em 2009, Milstein financia inúmeras organizações pró-Israel. Em uma conversa com o repórter infiltrado da Al Jazeera, ele também evidenciou a estratégia para minar o ativismo pró-Palestina: “Antes de mais nada, investigue quem são eles. Qual é a agenda deles? Eles estão se implicando com os judeus porque é fácil, porque é popular. Precisamos expor o que eles realmente são”, afirmou. “Precisamos botá-los para correr”.

Também sem saber que estava sendo gravado, o então diretor de desenvolvimento do The Israel Project Eric Gallagher revelou: “Adam Milstein, ele é o cara que financia [a Canary Mission]”. Segundo ele, o magnata trabalha com pessoas focadas em espionagem digital.

‘Eles param [seu ativismo] ou perdem tempo respondendo [as agressões] em vez de atacar Israel’.

“Há um grupo de pessoas anônimas que têm uma estratégia digital muito sofisticada para expor essas pessoas e garantir que as coisas colem nelas. Não há ninguém do lado deles fazendo isso, então você não tem que se preocupar com sua reputação”, confessou.

Apesar de ser a arma mais temida na guerra psicológica travada por grupos pró-Israel, a Canary Mission não está sozinha nessa estratégia suja de difamação e perseguição. 

A Fundação de Defesa das Democracias, grupo ligado ao Ministério de Assuntos Estratégicos de Israel, segue a mesma linha, forjando conexões infundadas entre o Hamas e os membros do BDS. O presidente da Organização Sionista da América, Morton Kelly, também reforçou: “Temos que deixar claro, de todas as maneiras possíveis, que eles estão sendo financiados e treinados por amantes perversos do Hamas”. O Hamas é oficialmente designado como uma organização terrorista pelos Estados Unidos, e o apoio material ao grupo é um crime.

O lobby de Israel também tem criminalizado o movimento não violento do BDS mais diretamente: dezenas de estados dos EUA aprovaram leis que proíbem e/ou penalizam o boicote a Israel. A Suprema Corte dos EUA, que atualmente é dominada por republicanos de direita, recusou-se este ano a ouvir uma contestação a uma dessas leis com base na liberdade de expressão. 

Canary Mission à brasileira

Aqui no Brasil, o Instituto Brasileiro pela Liberdade começou a imitar o modus operandi da Canary Mission. Enquanto Israel comete um genocídio em Gaza, matando milhares de civis após o ataque do Hamas a israelenses em 7 de outubro, a organização criou um formulário para “identificar os professores universitários que apoiam o grupo terrorista Hamas dentro das instituições de ensino”.

O instituto esconde seu viés de extrema direita ao se definir como um promotor “da liberdade, da vida, da justiça, dos direitos humanos, da paz”. Mas suas ações recentes, além da criação do formulário, incluem a criação do 1º Colóquio Olavo de Carvalho em Duque de Caxias, cidade da Baixada Fluminense. 

E a caça às bruxas não para por aí. Nesta semana, deputados bolsonaristas também começaram a divulgar em suas redes sociais nomes de brasileiros que seriam ligados ao Hamas. Uma das parlamentares chegou a pedir que seus seguidores enviem por e-mail provas de mais conexões de brasileiros com o Hamas. Segundo os deputados bolsonaristas, uma lista com os nomes foi enviada à embaixada americana com uma solicitação para que esses indivíduos tenham seus vistos dos EUA rejeitados ou revogados com base na acusação de serem apoiadores do terrorismo.

O deputado federal Ivan Valente, do Psol paulista, foi apontado como um dos defensores do grupo terrorista. Em suas redes, ele afirmou: “Vamos ao STF [Supremo Tribunal Federal] com queixa-crime por injúria e difamação, ação civil por danos morais e Conselho de Ética”.

Relembre o segundo episódio:

E, se quiser, volte também ao primeiro:

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