Fabiana Moraes

Discurso da extrema direita não protege crianças das próprias famílias

Enquanto cuidado infantil é confundido com pânico moral contra escolas e populações LGBT, os dados dizem o óbvio: a violência contra as crianças mora, na maioria das vezes, dentro de casa.

Discurso da extrema direita não protege crianças das próprias famílias

Nos últimos anos, o discurso da direita e da extrema direita é o mesmo principalmente quando chegam as eleições: “Precisamos proteger as nossas crianças”. Usualmente, esses grupos acionam uma obviedade, quase sempre com um propósito específico: vilanizar minorias como populações LGBTQIAP+, escolas, professoras e professores e grupos religiosos não cristãos.

E dá-lhe grupos conservadores invadindo exposições de arte.

E dá-lhe parlamentar e pastores gritando nos púlpitos que banheiro unissex é coisa do demônio.

E dá-lhe até tenente da Polícia Militar coagindo diretora de colégio simplesmente porque a filha teve contato, de forma pedagógica, com a orixá Iansã.

Tudo em nome das “nossas crianças”.

Lembrei bastante desses casos quando vi uma imagem que não me sai da cabeça. Um menino de 10 anos, em Goiânia, havia subido na única fresta de mundo que lhe restava, a janela do quarto onde estava trancado, e conversava com quem passava lá embaixo. Ele contava que tinha comido “umas bolachinhas” e que fazia xixi numa garrafa.

Os conselheiros tutelares precisaram improvisar um sistema de sacola plástica amarrada a lençóis para içar uma garrafa de água até ele. O menino tem diabetes e foi encontrado com a glicemia gravemente alterada, porque passara tempo demais sem comer. Foi parar na UTI. A mãe, presa, alegou que o trancava justamente por causa da doença, para que ele não comesse à vontade enquanto ela trabalhava. Do pai, igualmente responsável, não se tinha notícia naquele momento. Uma vizinha já havia acionado o Conselho Tutelar antes, porque ouvia, repetidas vezes, a criança gritando por socorro sozinha.

Discurso da extrema direita não protege crianças das próprias famílias

Guardem a cena da janela. Ela é uma boa metáfora para o que quero discutir aqui, que é a distância enorme entre onde a sociedade brasileira diz que mora o perigo para as crianças e onde ele de fato reside. 

Porque o menino não estava sendo ameaçado por um estranho na rua, por uma professora, por uma pessoa transgênero numa biblioteca, por um livro sobre diversidade. Ele pedia socorro de dentro de casa. Da própria casa

A esse caso, soma-se outra notícia cuja imagem fere profundamente nossos olhos e corações: a menina de 3 anos sendo chutada no rosto, no meio da rua, pelo próprio pai. O irmão dela carregava marcas de violência deixada pelo mesmo, de quem é enteado.

É dentro do lar, também, que acontecem quase 66% dos estupros e estupros de vulneráveis no país, de acordo com o 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública em julho de 2025. O documento registrou 87.545 vítimas desses tipos de violência em 2024, o maior número de toda a série histórica iniciada em 2011. É uma vítima a cada seis minutos. Desse total, 76,8% dos casos foram classificados como estupro de vulnerável, ou seja, praticados contra menores de 14 anos ou pessoas maiores de idade incapazes de consentir. Crianças e adolescentes de até 17anos representam a esmagadora maioria das vítimas. 

E a maior parte desses crimes não ocorre na escola, na rua ou na biblioteca, mas dentro de casa.

Resta a pergunta: quem protege as nossas crianças da própria família?

Enquanto políticos e grupos diversos espalham o pânico moral, os dados de violência, como vemos, só aumentam e, vale sublinhar, protegem agressores – é o caso da decisão que atrapalha meninas, adolescentes e mulheres de recorrerem ao aborto legal. Muitas delas engravidam justamente dos seus estupradores.

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Se a casa é o cenário, quem é o agressor? Também sabemos. O levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública aponta que 45,5% dos autores de estupros e estupros de vulnerável eram familiares da vítima. Quando se olha especificamente para as crianças menores de 14 anos, o quadro fica ainda mais nítido: 59% dos estupros contra elas foram cometidos por familiares. E essa informação aparece em apenas 18% dos boletins de ocorrência, o que significa que o parentesco do agressor é sistematicamente subnotificado, escondido, engolido pela própria dinâmica de silêncio que protege quem agride. A Agência de Notícias dos Direitos da Infância, a Andi, e o Instituto Patrícia Galvão sistematizaram esses recortes. Some-se a isso o dado do Disque 100 (presente neste relatório do Conselho Nacional do Ministério Público), segundo o qual 84% das situações de violência sexual, física e psicológica contra crianças e adolescentes têm como agressores membros da própria família. 

Não há como ler esses percentuais e continuar sustentando, com honestidade intelectual, que o perigo mora do lado de fora.

O tal pânico moral insiste em informar que as ameaças à infância seriam sempre externas e, convenientemente, associadas a inimigos políticos. A extrema direita brasileira transformou a proteção infantil numa arma retórica e apontou o cano para populações LGBT, para professoras e professores, para o material didático que fala de gênero, de raça, de religiões de matriz africana. 

Criou a figura fantasmagórica do predador ideológico que espreita escolas, materiais didáticos, exposições de arte. Vendeu a ideia de que o lar é o único território seguro e de que a ameaça vem de fora, do estado, da escola pública, do outro. 

É uma narrativa poderosa porque mexe com o medo mais legítimo que existe, o de ver uma criança sofrer. E é uma narrativa falsa, e os números provam que é falsa. A gente – sociedade, imprensa, comunicadoras, o bonde todo – precisa bater mais nessa tecla.

Precisamos falar da subnotificação com seriedade, porque ela é parte do crime. Os 87 mil casos do 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública são apenas os que chegaram à polícia. Estupro de criança dentro de casa é, por definição, o crime mais difícil de denunciar, porque a vítima depende economicamente, afetivamente e fisicamente do agressor ou de quem o protege. A criança de 3, de 5, de 10 anos não tem para onde ir. Não tem como registrar um boletim de ocorrência. Não tem vocabulário, muitas vezes, para nomear o que sofre. 

Eu mesma já vivi isso.

O número real é uma sombra muito maior do que a estatística oficial, e todo mundo que estuda o tema sabe disso. Quando a gente lê “recorde histórico’, precisa entender que talvez não seja a violência que aumentou de uma hora para outra, mas a ponta do iceberg que ficou um pouco mais visível. O corpo do iceberg segue submerso, dentro das casas, atrás das portas que a retórica conservadora insiste em pintar como o único lugar seguro do mundo.

E a violência doméstica contra a criança não começa no estupro. Ela começa muito antes, no gesto que a sociedade brasileira ainda chama carinhosamente de educação. Foi exatamente isso que apareceu, de forma brutal, em Francisco Beltrão, cidade no sudoeste do Paraná, no caso do pai flagrado por câmeras de segurança chutando a própria filha, que caiu no chão. Preso dias depois, ele disse à polícia que agiu assim porque a menina estava chorando. A mãe só ficou sabendo da agressão ao ver as imagens circulando nas redes sociais.

LEIA TAMBÉM:

A doutora em estudos dacriança Juliana Prates, professora da Universidade Federal da Bahia, comentou o caso no G1 e disse algo que atravessa quase todos os outros episódios vistos nesta coluna. Ela observou que, em muitos casos, os agressores culpam as próprias vítimas pela violência que cometem, justificando que perderam a cabeça em função do comportamento da criança. 

A fala de Prates merece ser levada a sério em toda a sua extensão, porque ela desmonta a naturalização do castigo físico que ainda estrutura boa parte da criação de crianças no Brasil. As violências, informa ela, são gradativas. Existe uma cultura que afirma que crianças podem e devem ser educadas por meio de castigos humilhantes, violentos. E, apesar de existir uma legislação que proíbe punições físicas, psicológicas e verbais (a Lei Menino Bernardo), seguimos convivendo com a ideia do “pequeno tapa”, do “beliscão”. Só que, como ela pontua, não existe pequeno tapa, não existe só um beliscão. É violência. E quando a criança apanha sob a justificativa de que aquilo é para o seu bem, ela aprende que a violência é uma forma aceitável de afeto, e as agressões tendem a escalar. 

A obra da pesquisadora ajuda a inverter o olhar sobre a infância, e essa inversão é, para mim, o coração desta coluna. Em seus trabalhos sobre pesquisas participativas com crianças, Juliana Prates parte de um princípio que deveria ser óbvio e que a nossa cultura teima em negar, o de que a criança é sujeito, e não objeto. É alguém que pensa, que sente, que sabe narrar a própria vida, que tem ponto de vista sobre o mundo em que vive. Quando a gente trata a criança como propriedade, como extensão da vontade adulta, como massa a ser moldada a tapas até virar “gente de bem”, criamos exatamente as condições para que a violência doméstica aconteça e seja tolerada. Escutar a criança não é concessão sentimental, mas a primeira e mais concreta medida de proteção que existe.

E é aqui que precisamos falar do desvio de finalidade, do modo como o aparato de proteção à infância é sequestrado para servir a outra agenda. Porque, enquanto milhões de crianças sofrem abusos dentro de casa, o que mobilizou parte robusta do país nas redes sociais nos últimos dias foi, como dito, um desenho de Iansã. Gente aplaudindo policiais militares – já inocentados – constrangendo professoras porque elas estavam promovendo o ensino da cultura afro-brasileira, algo que é obrigatório por lei federal (a 10.639, de 2003).

Nos últimos anos, o discurso da direita e da extrema direita é o mesmo principalmente quando chegam as eleições: “Precisamos proteger as nossas crianças”. Usualmente, esses grupos acionam uma obviedade, quase sempre com um propósito específico: vilanizar minorias como populações LGBTQIAP+, escolas, professoras e professores e grupos religiosos não cristãos.

E dá-lhe grupos conservadores invadindo exposições de arte.

E dá-lhe parlamentar e pastores gritando nos púlpitos que banheiro unissex é coisa do demônio.

E dá-lhe até tenente da Polícia Militar coagindo diretora de colégio simplesmente porque a filha teve contato, de forma pedagógica, com a orixá Iansã.

Tudo em nome das “nossas crianças”.

Lembrei bastante desses casos quando vi uma imagem que não me sai da cabeça. Um menino de 10 anos, em Goiânia, havia subido na única fresta de mundo que lhe restava, a janela do quarto onde estava trancado, e conversava com quem passava lá embaixo. Ele contava que tinha comido “umas bolachinhas” e que fazia xixi numa garrafa. 

Os conselheiros tutelares precisaram improvisar um sistema de sacola plástica amarrada a lençóis para içar uma garrafa de água até ele. O menino tem diabetes e foi encontrado com a glicemia gravemente alterada, porque passara tempo demais sem comer. Foi parar na UTI. A mãe, presa, alegou que o trancava justamente por causa da doença, para que ele não comesse à vontade enquanto ela trabalhava. Do pai, igualmente responsável, não se tinha notícia naquele momento. Uma vizinha já havia acionado o Conselho Tutelar antes, porque ouvia, repetidas vezes, a criança gritando por socorro sozinha. 

Guardem a cena da janela. Ela é uma boa metáfora para o que quero discutir aqui, que é a distância enorme entre onde a sociedade brasileira diz que mora o perigo para as crianças e onde ele de fato reside. 

Porque o menino não estava sendo ameaçado por um estranho na rua, por uma professora, por uma pessoa transgênero numa biblioteca, por um livro sobre diversidade. Ele pedia socorro de dentro de casa. Da própria casa

A esse caso, soma-se outra notícia cuja imagem fere profundamente nossos olhos e corações: a menina de 3 anos sendo chutada no rosto, no meio da rua, pelo próprio pai. O irmão dela carregava marcas de violência deixada pelo mesmo, de quem é enteado.

É dentro do lar, também, que acontecem quase 66% dos estupros e estupros de vulneráveis no país, de acordo com o 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública em julho de 2025. O documento registrou 87.545 vítimas desses tipos de violência em 2024, o maior número de toda a série histórica iniciada em 2011. É uma vítima a cada seis minutos. Desse total, 76,8% dos casos foram classificados como estupro de vulnerável, ou seja, praticados contra menores de 14 anos ou pessoas maiores de idade incapazes de consentir. Crianças e adolescentes de até 17anos representam a esmagadora maioria das vítimas. 

E a maior parte desses crimes não ocorre na escola, na rua ou na biblioteca, mas dentro de casa.

Resta a pergunta: quem protege as nossas crianças da própria família?

Enquanto políticos e grupos diversos espalham o pânico moral, os dados de violência, como vemos, só aumentam e, vale sublinhar, protegem agressores – é o caso da decisão que atrapalha meninas, adolescentes e mulheres de recorrerem ao aborto legal. Muitas delas engravidam justamente dos seus estupradores.

Se a casa é o cenário, quem é o agressor? Também sabemos. O levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública aponta que 45,5% dos autores de estupros e estupros de vulnerável eram familiares da vítima. Quando se olha especificamente para as crianças menores de 14 anos, o quadro fica ainda mais nítido: 59% dos estupros contra elas foram cometidos por familiares. E essa informação aparece em apenas 18% dos boletins de ocorrência, o que significa que o parentesco do agressor é sistematicamente subnotificado, escondido, engolido pela própria dinâmica de silêncio que protege quem agride. A Agência de Notícias dos Direitos da Infância, a Andi, e o Instituto Patrícia Galvão sistematizaram esses recortes. Some-se a isso o dado do Disque 100 (presente neste relatório do Conselho Nacional do Ministério Público), segundo o qual 84% das situações de violência sexual, física e psicológica contra crianças e adolescentes têm como agressores membros da própria família. 

Não há como ler esses percentuais e continuar sustentando, com honestidade intelectual, que o perigo mora do lado de fora.

O tal pânico moral insiste em informar que as ameaças à infância seriam sempre externas e, convenientemente, associadas a inimigos políticos. A extrema direita brasileira transformou a proteção infantil numa arma retórica e apontou o cano para populações LGBT, para professoras e professores, para o material didático que fala de gênero, de raça, de religiões de matriz africana. 

Criou a figura fantasmagórica do predador ideológico que espreita escolas, materiais didáticos, exposições de arte. Vendeu a ideia de que o lar é o único território seguro e de que a ameaça vem de fora, do estado, da escola pública, do outro. 

É uma narrativa poderosa porque mexe com o medo mais legítimo que existe, o de ver uma criança sofrer. E é uma narrativa falsa, e os números provam que é falsa. A gente – sociedade, imprensa, comunicadoras, o bonde todo – precisa bater mais nessa tecla.

Precisamos falar da subnotificação com seriedade, porque ela é parte do crime. Os 87 mil casos do 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública são apenas os que chegaram à polícia. Estupro de criança dentro de casa é, por definição, o crime mais difícil de denunciar, porque a vítima depende economicamente, afetivamente e fisicamente do agressor ou de quem o protege. A criança de 3, de 5, de 10 anos não tem para onde ir. Não tem como registrar um boletim de ocorrência. Não tem vocabulário, muitas vezes, para nomear o que sofre. 

Eu mesma já vivi isso.

O número real é uma sombra muito maior do que a estatística oficial, e todo mundo que estuda o tema sabe disso. Quando a gente lê “recorde histórico’, precisa entender que talvez não seja a violência que aumentou de uma hora para outra, mas a ponta do iceberg que ficou um pouco mais visível. O corpo do iceberg segue submerso, dentro das casas, atrás das portas que a retórica conservadora insiste em pintar como o único lugar seguro do mundo.

E a violência doméstica contra a criança não começa no estupro. Ela começa muito antes, no gesto que a sociedade brasileira ainda chama carinhosamente de educação. Foi exatamente isso que apareceu, de forma brutal, em Francisco Beltrão, cidade no sudoeste do Paraná, no caso do pai flagrado por câmeras de segurança chutando a própria filha, que caiu no chão. Preso dias depois, ele disse à polícia que agiu assim porque a menina estava chorando. A mãe só ficou sabendo da agressão ao ver as imagens circulando nas redes sociais.

A doutora em estudos dacriança Juliana Prates, professora da Universidade Federal da Bahia, comentou o caso no G1 e disse algo que atravessa quase todos os outros episódios vistos nesta coluna. Ela observou que, em muitos casos, os agressores culpam as próprias vítimas pela violência que cometem, justificando que perderam a cabeça em função do comportamento da criança. 

A fala de Prates merece ser levada a sério em toda a sua extensão, porque ela desmonta a naturalização do castigo físico que ainda estrutura boa parte da criação de crianças no Brasil. As violências, informa ela, são gradativas. Existe uma cultura que afirma que crianças podem e devem ser educadas por meio de castigos humilhantes, violentos. E, apesar de existir uma legislação que proíbe punições físicas, psicológicas e verbais (a Lei Menino Bernardo), seguimos convivendo com a ideia do “pequeno tapa”, do “beliscão”. Só que, como ela pontua, não existe pequeno tapa, não existe só um beliscão. É violência. E quando a criança apanha sob a justificativa de que aquilo é para o seu bem, ela aprende que a violência é uma forma aceitável de afeto, e as agressões tendem a escalar. 

A obra da pesquisadora ajuda a inverter o olhar sobre a infância, e essa inversão é, para mim, o coração desta coluna. Em seus trabalhos sobre pesquisas participativas com crianças, Juliana Prates parte de um princípio que deveria ser óbvio e que a nossa cultura teima em negar, o de que a criança é sujeito, e não objeto. É alguém que pensa, que sente, que sabe narrar a própria vida, que tem ponto de vista sobre o mundo em que vive. Quando a gente trata a criança como propriedade, como extensão da vontade adulta, como massa a ser moldada a tapas até virar “gente de bem”, criamos exatamente as condições para que a violência doméstica aconteça e seja tolerada. Escutar a criança não é concessão sentimental, mas a primeira e mais concreta medida de proteção que existe.

E é aqui que precisamos falar do desvio de finalidade, do modo como o aparato de proteção à infância é sequestrado para servir a outra agenda. Porque, enquanto milhões de crianças sofrem abusos dentro de casa, o que mobilizou parte robusta do país nas redes sociais nos últimos dias foi, como dito, um desenho de Iansã. Gente aplaudindo policiais militares – já inocentados – constrangendo professoras porque elas estavam promovendo o ensino da cultura afro-brasileira, algo que é obrigatório por lei federal (a 10.639, de 2003).

Desenho da orixã Iansã feita por aluna, que foi questionado por policiais militares (Reprodução).

Reparem na inversão perversa. O aparato do estado, farda e arma de fogo, foi mobilizado não para proteger uma criança de uma violência real, mas para chancelar a objeção religiosa de um adulto contra o conteúdo escolar laico e antirracista a que sua filha teve acesso. A criança, no caso, não foi protegida de nada. Foi usada como pretexto. O pânico moral tem orçamento, tem palanque, tem viatura. 

Não estou dizendo que a escola nunca falha, que a rua não oferece riscos, que nenhum estranho jamais fez mal a uma criança. Estou dizendo que a hierarquia dos perigos, tal como a extrema direita a desenhou, está de cabeça para baixo, e que essa inversão não é ingênua. Ela serve para desviar o olhar da instituição que mais precisaria ser vigiada, a família, e para blindar a autoridade adulta de qualquer escrutínio. 

Cartilha do trauma

A escritora Jarid Arraes é uma das vozes mais importantes do país na tarefa de explicitar a extrema violência familiar contra crianças. É dela a cartilha “Trauma infantojuvenil no Brasil”, que traz levantamentos importantes coletados de institutos citados nesta coluna, como o Disque 100 e o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. “A sociedade exige que tratemos a família como um santuário inabalável, sempre fonte de amor e segurança”, escreve.

Jarid, cujas decisões em relação aos pais é marcada por um posicionamento ético e corajoso, chama atenção para o impacto duradouro dessas violências, que não terminam quando a agressão cessa. Joga, assim, luz nas Experiências Adversas na Infância, as EAIs, termo introduzido por um estudo dos Estados Unidos que analisou o impacto do abuso e da negligência na saúde e bem-estar de pessoas já na vida adulta. As EAIs mais conhecidas são: abuso físico, sexual e emocional na infância; negligência física e negligência emocional; exposição à violência familiar; uso de substâncias pelos pais; doença mental dos pais; separação ou divórcio dos pais; e encarceramento dos pais. 

São experiências traumáticas que se inscrevem no corpo, na forma de se relacionar, na percepção que a pessoa passa a ter de si e do mundo. Uma criança que aprende, dentro de casa, que amor e dor são a mesma coisa, carrega isso por décadas. 


Para não esquecer: crimes violentos contra os próprios filhos trazem os homens como protagonistas.

Falei aqui do pai que matou os filhos para atingir a mãe dos meninos.

No mês seguinte, o pai de uma menina de 2 anos a colocou no porta-malas do carro e ameaçou incendiar o veículo. A PM chegou antes e impediu o crime.

No Recife, uma mãe e quatro filhos morreram em um barraco incendiado pelo próprio pai.

Reparem na inversão perversa. O aparato do estado, farda e arma de fogo, foi mobilizado não para proteger uma criança de uma violência real, mas para chancelar a objeção religiosa de um adulto contra o conteúdo escolar laico e antirracista a que sua filha teve acesso. A criança, no caso, não foi protegida de nada. Foi usada como pretexto. O pânico moral tem orçamento, tem palanque, tem viatura. 

Não estou dizendo que a escola nunca falha, que a rua não oferece riscos, que nenhum estranho jamais fez mal a uma criança. Estou dizendo que a hierarquia dos perigos, tal como a extrema direita a desenhou, está de cabeça para baixo, e que essa inversão não é ingênua. Ela serve para desviar o olhar da instituição que mais precisaria ser vigiada, a família, e para blindar a autoridade adulta de qualquer escrutínio. 

Cartilha do trauma

A escritora Jarid Arraes é uma das vozes mais importantes do país na tarefa de explicitar a extrema violência familiar contra crianças. É dela a cartilha “Trauma infantojuvenil no Brasil”, que traz levantamentos importantes coletados de institutos citados nesta coluna, como o Disque 100 e o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. “A sociedade exige que tratemos a família como um santuário inabalável, sempre fonte de amor e segurança”, escreve.

Jarid, cujas decisões em relação aos pais é marcada por um posicionamento ético e corajoso, chama atenção para o impacto duradouro dessas violências, que não terminam quando a agressão cessa. Joga, assim, luz nas Experiências Adversas na Infância, as EAIs, termo introduzido por um estudo dos Estados Unidos que analisou o impacto do abuso e da negligência na saúde e bem-estar de pessoas já na vida adulta. As EAIs mais conhecidas são: abuso físico, sexual e emocional na infância; negligência física e negligência emocional; exposição à violência familiar; uso de substâncias pelos pais; doença mental dos pais; separação ou divórcio dos pais; e encarceramento dos pais. 

São experiências traumáticas que se inscrevem no corpo, na forma de se relacionar, na percepção que a pessoa passa a ter de si e do mundo. Uma criança que aprende, dentro de casa, que amor e dor são a mesma coisa, carrega isso por décadas. 


Para não esquecer: crimes violentos contra os próprios filhos trazem os homens como protagonistas.

Falei aqui do pai que matou os filhos para atingir a mãe dos meninos.

No mês seguinte, o pai de uma menina de 2 anos a colocou no porta-malas do carro e ameaçou incendiar o veículo. A PM chegou antes e impediu o crime.

No Recife, uma mãe e quatro filhos morreram em um barraco incendiado pelo próprio pai.

A VERDADE CUSTA CARO. O SILÊNCIO CUSTA AINDA MAIS.

As informações que você acabou de ler incomodam muita gente poderosa. É por isso que tentam nos silenciar com processos, ameaças e difamação.

A única barreira entre a verdade e a impunidade é um jornalismo sem rabo preso. O Intercept Brasil não tem donos bilionários e não aceita um único centavo de bancos ou políticos.

Nós acabamos de entregar os fatos. Agora, a bola está com você.  Se essa história te indignou, transforme isso em ação. Mostre a eles que não estamos sozinhos e garanta que ninguém nos cale.

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