Cheguei à Venezuela esperando o caos. Após cobrir o país por mais de uma década, eu sabia que a resposta ao maior terremoto da história venezuelana desde 1900 seria difícil para um Estado depauperado, afundado em uma crise estrutural. Mas confesso que não esperava encontrar o que vi nas ruas de La Guaira, cidade no entorno de Caracas que foi a mais afetada pelos sismos de 7,2 e 7,5 de magnitude que devastaram a costa venezuelana no final de junho. Em vez do simples caos, encontrei o horror absoluto.
Cheguei a La Guaira pouco mais de 48 horas após os abalos, no dia 27. Encontrei corpos empilhados em uma esquina. Eram 12 pessoas, cobertas com lençóis, edredons, mantas. Uma mão insistia em escapar da coberta: só de perto era possível compreender que eram pessoas.
Naquela esquina, volta e meia alguém caminhava buscando por alguém amado. Era como uma estranha procissão silenciosa, todos com lenços sobre as bocas, levantando lentamente os tecidos que cobriam os rostos. Quase sempre, em vão. “É difícil demais reconhecer alguém nesse estado”, me dizia um homem que acabara de fazer sua peregrinação, sob o sol quente do fim da manhã daquele sábado triste.
A cena era apenas o prenúncio do horror. O sistema funerário venezuelano simplesmente colapsou diante da enormidade de mortos. No necrotério de La Guaira, os corpos recolhidos pelas ruas eram despejados sobre o cimento quente do que outrora fora um estacionamento, sem nenhum tipo de tratamento que lhes concedesse um mínimo de dignidade. Mãos enegrecidas pelos edemas se estendiam aos céus, como se a pedir ajuda até após a morte.

Dezenas de pessoas caminhavam em meio a esse cenário de puro horror na tentativa de identificar um pai, um irmão, um filho, um amor. Nos cantos do estacionamento, havia quem simplesmente não suportasse tudo aquilo. Vomitavam como se pudessem expelir da memória as cenas bárbaras a que estavam expostos. Impossível. Cenas como essas não se vão.
Todos os corpos haviam sido retirados dos escombros por vizinhos, parentes e amigos. Até aquele momento, nenhuma ajuda oficial havia chegado, nem as equipes de resgatistas internacionais.
Naquele sábado de céu claro, a poucos quilômetros dali, milhares de venezuelanos abriam buracos no concreto para tentar encontrar seus mortos ou, com muita sorte, seus vivos. Eram os civis, sem experiência, sem maquinário, apenas com a dor a lhes mover, que faziam as buscas em meio às toneladas de escombros.

Desciam de Caracas com pás recém-compradas, imaginando ser capazes de vencer as montanhas de concreto e aço em que se transformaram edifícios de 10, 15 andares que vieram ao chão como se fossem castelos de cartas de baralho. Uma laje sobre a outra, empilhadas com quase perfeição. “Estamos sós, incrivelmente sós, nenhum policial, nenhum soldado, ninguém desse governo veio nos apoiar”, me contava Juan Rodriguez, 24, um jovem rapaz que buscava a mãe e duas irmãs.
Sorte tinha quem conseguia reunir amigos dispostos a se tornarem socorristas de última hora. Em muitos dos escombros, não havia ninguém. Simplesmente ninguém. Algumas pessoas se reuniam em frente a edifícios à espera da ajuda que nunca chegou. Volta e meia, relatavam ter feito contato com alguém sob os escombros, mas não sabiam como resgatar. Logo, a voz sumia, e as chances de encontrar alguém com vida se transformava na esperança de dar um fim digno aos mortos.
O caos, a falta de organização e a inoperância do governo em dar uma resposta mínima aos terremotos eram um retrato do que se transformou a Venezuela desde que o ciclo de alta das commodities se encerrou em 2014, e o país – hiperdependente do petróleo – iniciou sua angustiante jornada em direção ao abismo. “Entre 2014 e 2020, estima-se que o PIB venezuelano tenha caído 75% – não há dados oficiais para calcular.” O país entrou em um processo de empobrecimento raramente visto na história recente. Desde 2015, quase 30% da população venezuelana deixou o país, um dos maiores êxodos do mundo nos últimos anos.

O colapso econômico veio acompanhado de um aprofundamento das sanções dos EUA, ao mesmo tempo em que o país se tornava mais e mais autoritário. Estive na Venezuela algumas vezes nesses anos duros, em que parte da população não tinha nada para comer. Eram períodos de quase desespero. Nos supermercados com os preços controlados, protegidos da hiperinflação que assolava o país, havia pouco para se comprar. Nos mercados onde os preços eram livres, fartura dolarizada. Para um estrangeiro como eu, era preciso trocar dólares escapando da cotação oficial, distante quase 1.000% do câmbio paralelo. Por muitas vezes, paguei contas pesando cédulas de 100 bolívares, as únicas disponíveis na época.
Ao longo dos anos, enquanto a crise se agravava, o Estado ampliava a concessão de subsídios na tentativa de controlar uma Venezuela empobrecida, quase miserável. Pouco antes da pandemia, um venezuelano médio recebia alimentos do governo, não pagava gasolina, tinha transporte público gratuito e não era cobrado pela energia elétrica. Incapaz de gerar moeda forte, sem uma capacidade industrial que lhe rendesse receita para além do petróleo, a Venezuela quebrou.
Luís Vicente León, economista e sociólogo que preside uma das principais consultorias de análise política da Venezuela – a Datanalisis – diz ser um erro criticar o governo por sua resposta lenta, desorganizada, caótica ao terremoto. “Esse país não tinha outra coisa a oferecer à sua população nesse momento, o que estamos vendo são as entranhas de um Estado destruído”, diz. Ele acredita que o sequestro de Nicolás Maduro e a consequente tutela americana não foram capazes de criar qualquer mudança visível na organização do Estado venezuelano. “O foco dos americanos, neste momento, é restabelecer a indústria do petróleo, não estão preocupados em reestruturar o Estado”.

Foi o Estado venezuelano, aliás, o construtor de parte importante dos maiores edifícios que vieram à baixo em La Guaira. Conjuntos habitacionais inteiros, de 8 torres com 13 andares cada, colapsaram por completo, matando centenas, talvez milhares de pessoas pobres, gente que conseguiu sua primeira moradia por meio dos programas sociais estabelecidos pelo governo de Hugo Chávez. Em La Guaira, dezenas de casas e prédios que vieram abaixo foram construídos pelo Gran Mission Vivenda, uma espécie de Minha Casa, Minha Vida venezuelano. “Nos diziam que era de concreto, mas agora a gente vê que eram de papel”, repetia Mariluz Perez, 59 anos, trabalhadora da economia informal, que perdeu três filhos em um desses edifícios.
No mesmo local, poucos anos antes, um deslizamento de terras colheu a vida de ao menos 15 mil pessoas. Foi sobre esse solo que estava boa parte dos edifícios que colapsaram, inclusive os construídos pelos programas populares de Chávez. “Era uma área sabidamente instável, em uma região onde sabidamente ocorrem terremotos”, dizia o chefe de uma agência de defesa civil de um país latino-americano que preferia não se identificar para não ter problemas com o governo venezuelano.
Profissionais como ele começaram a chegar no último domingo de junho, quatro dias após os terremotos. Vieram de mais de 30 países e conseguiram apresentar algum alento aos venezuelanos que, até então, buscavam pelos seus com pás, picaretas e com as próprias mãos.

Sem um atendimento emergencial nas horas subsequentes aos terremotos, as equipes internacionais não puderam fazer muito. Chegaram quando a janela de 72 horas para encontrar sobreviventes estava se fechando. Ao todo, conseguiram resgatar 14 pessoas com vida. É pouco se comparado, por exemplo, com as cerca de 300 que retiraram dos escombros no devastador terremoto turco de 2023.
Com a demora para a chegada da ajuda, boatos começaram a surgir nas redes sociais dando conta de que o governo venezuelano estava dificultando a entrada das equipes internacionais e de jornalistas. Era mentira. Nos mais de 10 anos que cubro o país, jamais tive tanta facilidade para trabalhar como agora.
O governo, dessa vez, não perseguiu, não impediu e não dificultou o trabalho de qualquer jornalista. Foi uma cobertura tranquila, dentro das possibilidades. Para os socorristas, houve confusão no início, mas muito mais fruto da desorganização e da incapacidade de coordenação do governo do que de má vontade.
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Foram os cidadãos venezuelanos, unidos, que conseguiram apresentar as melhores, mais eficientes e mais rápidas respostas aos terremotos. Horas depois dos sismos, milhares desceram a montanha que liga Caracas a La Guaira com tudo que tinham em mãos para auxiliar as vítimas dos resgates.
Motociclistas levavam um ou dois fardos de água, vizinhos se organizavam para recolher alimentos, roupas ou qualquer coisa que pudesse ajudar a quem havia perdido tudo. Outros tantos faziam filas em lojas de construção para comprar capacetes, pás, picaretas e o que mais fosse capaz de abrir um buraco numa laje de concreto. Logo uma multidão tomou conta de La Guaira. Tinham pouca experiência, mas muita vontade.
Ainda seguem por lá. Já não buscam mais os vivos. Agora, o grande trabalho da Venezuela será resgatar os mortos. Sem a ajuda externa, esse trabalho, em grande medida, caberá à população civil. Será um trabalho longo.
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