Juliane Furno

Juliane Furno

A IA não vai acabar com o trabalho – vai piorar os empregos

Mudanças provocadas pela tecnologia não são uma novidade da nossa época, mas uma regra que sustenta o capitalismo desde o seu início.

A IA não vai acabar com o trabalho – vai piorar os empregos

O tema do fim do trabalho ou da sua plena substituição pelo avanço do progresso técnico, em especial pela inteligência artificial, parece ter se tornado corriqueiro. Por onde eu passo, a tese do fim do trabalho ecoa quase com naturalidade.

Minha intenção aqui é problematizá-la à luz da história e da economia política. Ao longo do tempo, a tese do fim do trabalho tem produzido especulações que não encontram respaldo na realidade. As visões vão das mais otimistas, como a de Hannah Arendt – para quem a automação poderia libertar a humanidade do labor – às mais pessimistas, como a de Martin Ford, que trata do crescimento do desemprego tecnológico e da ameaça aos empregos industriais e típicos de classe média.

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Essa não é uma nova discussão. Desde os anos 1980 discute-se sobre o famoso livro de André Gorz, “Adeus ao proletariado”. Vocalizando um conjunto de vozes da esquerda “pós-trabalho”, Gorz defende a possibilidade de surgimento de uma sociedade com redução do trabalho heterônomo – ou seja, com regras definidas por terceiros e subordinado a eles – e organizada com sentidos principais que vão além do trabalho. 

A utopia do tempo livre

Todas essas teses relacionam-se a um mesmo ponto: o avanço das forças produtivas capitalistas teria elevado a tal ponto a produtividade que serão possíveis reduções expressivas da jornada de trabalho, demandando menos tempo socialmente necessário para a produção de bens e serviços. Essas teses vêm acompanhadas da ideia de fim da centralidade do trabalho como categoria organizadora da sociedade no capitalismo.

No entanto, a história insiste em contrariar as previsões de futuro. A sensação coletiva é de que cada vez trabalhamos mais, não a despeito, mas em função do progresso técnico, especialmente em tempos de smartphones e home office, nos quais fica cada vez mais turva a noção de tempo de trabalho e de não trabalho. A Argentina acabou de aprovar uma reforma trabalhista em que, justamente, a jornada de trabalho é alargada, em uma clara tendência de ampliação do lucro por mais-valia absoluta.

Mais-valia é um conceito marxista que significa a diferença entre as horas de trabalho destinadas à reprodução social, ou seja, o trabalho necessário, e as horas de trabalho em que o trabalhador produz valor por ele não apropriado na forma de salário, o trabalho excedente. A mais-valia pode ser ampliada por aumento da jornada de trabalho, mas, conforme se desenvolve o capitalismo, a mais-valia absoluta vai dando lugar à mais-valia relativa, em que o aumento da exploração do trabalho não ocorre exatamente por aumento das horas trabalhadas, mas pelo aumento da produtividade.

Força de trabalho e capitalismo

Quero dialogar a partir de três hipóteses sobre por que acredito que o trabalho não vai acabar, nem mesmo perder centralidade. A primeira envolve a constatação das características principais de funcionamento do capitalismo. Karl Marx e Friedrich Engels, no “Manifesto comunista”, já viam o capitalismo como um modo de produção altamente dinâmico, e o expressaram na seguinte afirmação: “A burguesia não pode existir sem revolucionar incessantemente os instrumentos de produção”. Ou seja, no capitalismo, as transformações de ordem técnica e produtiva são uma regra e operam desde o seu nascedouro.

Ainda que com o avanço das forças produtivas aumente proporcionalmente o emprego de tecnologia e maquinaria em relação ao trabalho, em termos absolutos, quanto mais avança o capitalismo, mais ele precisa da sua principal mercadoria: a força de trabalho. O trabalhador é a única mercadoria do capitalismo que consegue gerar mais valor do que ele vale. Não é possível haver capitalismo sem exploração do trabalho, que é a sua única fonte de lucro. O capitalismo não pode, portanto, prescindir do trabalho humano vivo. Mesmo que se amplie a maquinaria, a máquina ainda é resultado do trabalho humano vivo, e sua operação e manutenção também não podem prescindir dos trabalhadores.

A segunda hipótese é de que não há correlação estatística entre o progresso tecnológico e o desemprego. Aliás, a noção de que vivemos em uma era de revoluções técnicas também precisa ser problematizada. Antes mesmo do capitalismo, a construção do barco a vela já foi, para a época, uma revolução técnica de grandes proporções, capaz de encurtar o tempo de viagens e poupar trabalho. Portanto, o progresso das tecnologias poupadoras de força de trabalho não é exclusividade da nossa geração. 

Ainda assim, a taxa de desemprego não se comporta de forma correlacionada com os níveis de revoluções tecnológicas. Pensem numa simples comparação: se a tecnologia e a automação gerassem desemprego, o Japão teria uma taxa de desemprego superior à de países com mercados de trabalho intensivo em mão de obra, como Bangladesh, por exemplo. E ocorre o contrário. 

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Assim também podemos pensar para o Brasil. Nenhuma das flutuações recentes na taxa de desemprego se relaciona a rupturas tecnológicas. O emprego e o desemprego são resultados das decisões de investimentos. Portanto, ainda que poupando proporcionalmente mão de obra, o capitalismo segue sob a lógica da reprodução ampliada do capital, em que cada vez mais capital é empregado no processo de produção.

Por fim, as terceira e última hipótese é que a tese do fim do trabalho ou do desemprego estrutural por acumulação de progresso técnico é ainda mais irrealista se pensarmos que estamos no Brasil, ou seja, em um país que tem uma quantidade substancial de trabalhadores boias-frias, que fazem o trabalho que uma simples colheitadeira poderia fazer. Segundo a Organização Internacional do Trabalho, a OIT, o Brasil é um dos países com mais trabalhadoras domésticas do mundo. Ou seja, ainda que haja elevada disponibilidade de recursos tecnológicos, o excedente estrutural de força de trabalho no Brasil torna o trabalho muito barato e, portanto, de farto uso. Nesse caso, eu apontaria que carecemos de desenvolvimento técnico e não o contrário, do ponto de vista do mercado de trabalho. 

O início de uma nova etapa

Em síntese, a era da inteligência artificial e do acelerado progresso das forças produtivas não parece resultar no fim do trabalho, ainda que anuncie uma nova etapa de sua reorganização sob o capitalismo. Como em outros momentos da história, o progresso técnico tende a transformar ocupações, deslocar trabalhadores, alterar qualificações exigidas e, atualmente, ampliar formas de controle sobre o tempo e o ritmo do trabalho, mas jamais eliminando a centralidade da força de trabalho na produção de valor. 

Então eu diria que a questão principal não está em uma suposta marcha inevitável rumo a uma sociedade sem trabalho, mas segue localizada na forma social em que a tecnologia é incorporada, subordinada à acumulação de capital. No caso brasileiro, que tem um mercado de trabalho marcado pela informalidade, baixos salários e ocupações extremamente precarizadas, falar em fim do trabalho soa como abstração deslocada da realidade. Portanto, a questão segue ressignificada, e me parece que não é sobre o fim ou não do emprego, nem mesmo do assalariado, mas sobre os tipos de emprego que já estão emergindo. Será a oportunidade de, de fato, dar “adeus ao proletariado” e ampliar o tempo de lazer e comunidade? Acredito que não.

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