Se, até poucos meses atrás, Renan Santos era tratado como um personagem de nicho da política brasileira, as pesquisas mais recentes mostram que isso mudou. E mudou rápido. Levantamento AtlasIntel/Bloomberg, divulgado na semana passada, aponta que o fundador do MBL foi o pré-candidato que mais cresceu desde abril – pouco antes de o Intercept Brasil começar a publicar a série de reportagens Vaza Flávio.
Ele saltou de 5% para 7,8% das intenções de voto no primeiro turno, um avanço numericamente superior ao crescimento registrado por qualquer outro nome testado pelo instituto. Com isso, aparece isolado na terceira colocação da disputa, atrás apenas de Lula (46,3%) e Flávio Bolsonaro (36,6%), superando políticos muito mais conhecidos e experientes, como Ronaldo Caiado e Romeu Zema.
Os números ficam ainda mais interessantes quando se observa de onde vem esse crescimento. Segundo análise da própria Atlas, 53,7% dos eleitores que votaram em branco ou anularam o voto no segundo turno de 2022 dizem que escolheriam Renan Santos em 2026, um desempenho muito acima dos demais candidatos nesse segmento. E tem mais: entre jovens de 16 a 24 anos, ele reúne 37,9% das intenções de voto, superando Lula e Flávio Bolsonaro.
O MBL se vende como uma novidade, mas são velhos conhecidos nossos. Muito antes de Renan Santos aparecer disputando espaço nas pesquisas presidenciais, nós já dedicávamos muitas horas de investigação para entender como o movimento funcionava por dentro.
Em vários momentos, fomos os primeiros a revelar seus bastidores. Em outros, fomos alvo de campanhas de ataque justamente por causa dessas reportagens. Todas elas continuam disponíveis — e talvez nunca tenham sido tão atuais quanto agora. Por isso, a edição de hoje de Cartas Marcadas traz algumas das matérias mais importantes que publicamos sobre Renan Santos e o MBL. Vamos aos fatos.
‘Impossível defender Flávio’
Uma das nossas primeiras grandes investigações sobre o MBL foi publicada em setembro de 2020. Com base em áudios inéditos da cúpula do movimento, mostramos que, enquanto o caso das rachadinhas de Flávio Bolsonaro explodia, os dirigentes do movimento reconheciam internamente que era “impossível defender o Flávio”. Ainda assim, discutiam como minimizar o escândalo para evitar uma ruptura imediata com o governo Bolsonaro.
A reportagem ganha um significado especial hoje porque Renan Santos construiu sua candidatura se apresentando como um dos principais adversários do bolsonarismo. Os áudios, porém, mostram que essa ruptura foi menos espontânea do que o discurso sugere: a preocupação do MBL não era denunciar Flávio, mas administrar o custo político de abandonar um governo que havia ajudado a eleger. Em resposta, o grupo afirmou que não comentaria “material especulativo e supostas conversas privadas entre seus integrantes”.
Confissões de uma mulher no MBL
Um ano e meio depois, em 24 de março de 2022, em meio à crise provocada pelos áudios em que Arthur do Val sexualizava mulheres ucranianas, nós publicamos uma reportagem baseada no relato de uma integrante do próprio MBL que decidiu denunciar o ambiente interno do movimento. Além do depoimento, ela entregou ao Intercept prints de grupos privados de WhatsApp e Telegram, descrevendo uma cultura de misoginia, silenciamento de mulheres e concentração de poder nas mãos de Renan Santos.
Segundo a fonte, o caso Arthur do Val não era um episódio isolado, mas apenas a manifestação pública de práticas toleradas havia anos. Ela relatou que mulheres que defenderam a expulsão do deputado foram pressionadas, ameaçadas e acusadas de trair o movimento. A reportagem também revelou mensagens misóginas trocadas em grupos internos. À época, procuramos Renan Santos antes da publicação, mas ele não respondeu.
As emendas de Rubinho Nunes
Ainda em 2022, também investigamos o uso de dinheiro público por parlamentares do MBL. A reportagem mostrou que o vereador paulistano Rubinho Nunes, então integrante do movimento, havia destinado cerca de R$ 1,5 milhão em emendas parlamentares para eventos culturais e organizações beneficiadas por um vereador acusado por um membro do próprio MBL de participar de um esquema de desvio de verbas.
A investigação encontrou uma série de inconsistências nos documentos das emendas, como justificativas idênticas para eventos diferentes e divergências de endereços entre os registros oficiais e os cadastros das empresas beneficiadas. À época, Rubinho Nunes disse que, quando enviou as emendas, não havia conhecimento de ilegalidades envolvendo as entidades beneficiadas. O MBL, por sua vez, respondeu que dá autonomia aos seus parlamentares para decidir como utilizar as emendas.
Campanhas de ataques
Em julho de 2023, nós mostramos como o MBL organizou uma campanha de ataques contra o Sleeping Giants Brasil, que fez campanha para que empresas deixassem de anunciar na Jovem Pan. A reportagem revelou que Renan Santos passou a associar, sem provas, a bandeira LGBTQIA+ usada no perfil do Sleeping Giants na época à “sexualização de crianças”, uma insinuação de pedofilia que rapidamente foi reproduzida por outros integrantes do MBL nas redes sociais.
O texto também contextualizava que essa estratégia não era inédita. Relembrava ataques semelhantes contra Caetano Veloso, Paula Lavigne, Felipe Neto e o padre Júlio Lancellotti, mostrando um padrão de acusações sem provas de pedofilia para deslegitimar adversários. Novamente, o Intercept procurou Renan Santos antes da publicação, mas ele não respondeu.
As assinaturas do Missão
Em novembro de 2024, voltamos a investigar o projeto mais ambicioso do MBL: a criação de seu próprio partido, o Missão. Em uma primeira reportagem, reunimos relatos de 13 pessoas que afirmavam ter sido enganadas por coletores de assinaturas. Segundo elas, o pedido era apresentado como um abaixo-assinado em defesa da saúde, da educação ou da segurança pública, sem que fosse informado claramente que a assinatura serviria para fundar um partido ligado ao MBL.
Para criar um partido político, a legislação brasileira exige a coleta de centenas de milhares de assinaturas de apoio de eleitores não filiados a outras legendas. O número mínimo de apoiadores deve corresponder a 0,5% dos votos válidos da última eleição para a Câmara dos Deputados. Caso essa exigência não seja cumprida, o registro da nova sigla não é aprovado pelo Tribunal Superior Eleitoral, o TSE.
O MBL negou qualquer irregularidade, afirmou que todo o processo seguia a legislação eleitoral e disse comunicar ao Ministério Público qualquer suspeita de fraude praticada por coletores.
No dia seguinte, publicamos uma segunda reportagem com uma prova concreta. Obtivemos um vídeo em que um coletor do Missão abordava pedestres dizendo estar criando “um partido para defender a Amazônia”, afirmando atuar com uma “agremiação estudantil” e omitindo completamente qualquer referência ao MBL. Depois da primeira reportagem, recebemos mais de 70 relatos semelhantes de leitores. Mesmo diante das imagens, o movimento manteve a versão de que a coleta de assinaturas era regular.
A resposta do MBL não veio apenas em notas. Veio também na forma de intimidação. Arthur do Val e Renan Santos dedicaram horas de transmissões ao vivo para atacar o repórter Giovanni Pannunzio, chamando-o de “merda”, “bosta”, “imbecil” e outros insultos. Arthur exibiu fotografias pessoais do jornalista, vasculhou seus perfis em redes sociais durante a live, fez comentários de teor homofóbico e incentivou seus seguidores a atacá-lo.
Tolerância ao neonazismo
Por fim, em dezembro de 2024, revelamos, com base em uma longa entrevista, centenas de prints, vídeos e documentos internos, as denúncias de Willian Tavares, ex-secretário de moderação dos grupos de Kim Kataguiri. Ao lado de outro moderador, um judeu ortodoxo, ele afirmava que deixou o movimento depois de concluir que havia tolerância da cúpula a membros associados ao neonazismo.
A investigação mostrou que as denúncias não se limitavam a mensagens isoladas. Encontramos registros de grupos paralelos frequentados por integrantes do MBL, como o “Cabaré de Fascistas”, onde circulavam mensagens antissemitas, racistas e com referências ao nazismo. Também obtivemos conversas internas e vídeos de reuniões que indicavam que assessores de Kim Kataguiri tinham conhecimento de parte dessas denúncias, mas optaram por medidas brandas em vez de afastamentos dos envolvidos.
Um dos trechos mais marcantes da reportagem foi o relato do moderador judeu, que escreveu à assessoria de Kim dizendo temer por sua vida e pela vida de sua família diante da permanência de pessoas ligadas a grupos neonazistas. Dias depois, ele deixou o movimento. Quando enviamos nossos questionamentos ao movimento, um dos integrantes apontados por participar do grupo “Cabaré de Fascistas” foi expulso da Academia MBL.
Após a publicação, Kim Kataguiri, seu chefe de gabinete Danilo Geber e o MBL enviaram um extenso pedido de direito de resposta. Eles negaram qualquer tolerância ao nazismo, afirmaram que os grupos mencionados não representavam oficialmente o MBL, disseram repudiar ideologias extremistas e atribuíram as denúncias do ex-moderador a motivações pessoais. Ainda assim, a quantidade de documentos reunidos e o nível de detalhamento das evidências tornam esta uma das investigações mais profundas do Intercept sobre o funcionamento interno do movimento.
Antes da publicação de todas as reportagens mencionadas nesta edição de Cartas Marcadas, nós procuramos, à época, o MBL e as pessoas envolvidas. Nós incluímos todas as respostas, ou a ausência delas, no texto. O espaço segue aberto para que os citados – incluindo o presidenciável Renan Santos – apresentem suas versões, que serão publicadas na íntegra.
A VERDADE CUSTA CARO. O SILÊNCIO CUSTA AINDA MAIS.
As informações que você acabou de ler incomodam muita gente poderosa. É por isso que tentam nos silenciar com processos, ameaças e difamação.
A única barreira entre a verdade e a impunidade é um jornalismo sem rabo preso. O Intercept Brasil não tem donos bilionários e não aceita um único centavo de bancos ou políticos.
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