O bate-boca público entre Romeu Zema, do Partido Novo de Minas Gerais, e o ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes tem sido ridículo. O ex-governador tem se chafurdado cada vez mais na lama do golpismo, enquanto o ministro responde apelando para homofobia e preconceito social.
De um bolsonarista convicto não se deve esperar nada além disso, mas, de um ministro do Supremo, espera-se ao menos alguma compostura e respeito à liturgia do cargo.
Desde que renunciou à cadeira de governador para poder iniciar sua campanha presidencial, Romeu Zema decidiu se empenhar com força no discurso anti-STF para atrair o eleitorado bolsonarista.

Diante de um Flávio Bolsonaro que tenta se vender como moderado, Zema tomou-lhe a bandeira do golpismo e passou a confrontar os ministros do tribunal.
O mineiro compartilhou um vídeo mostrando fantoches de Gilmar e do ministro Dias Toffoli discutindo sobre o escândalo do Banco Master. Nele, o fantoche de Toffoli pede para que o de Gilmar anule as quebras de sigilo de suas empresas, aprovadas pela CPI do Crime Organizado. Em troca, o fantoche de Gilmar pede cortesias no Tayayá — o resort que foi alvo de investigações no escândalo do Banco Master e do qual Toffoli era acionista.
O vídeo cruza a linha da crítica e imputa um crime grave a Gilmar Mendes. O decano reagiu e enviou ao seu colega Alexandre de Moraes, que é relator do inquérito das Fake News, uma notícia-crime contra o ex-governador. Até aí tudo certo.
Os ataques de Zema aos ministros do Supremo têm se avolumado desde que ele se tornou pré-candidato e ultrapassaram os limites da razoabilidade. Em outra ocasião recente, o mineiro chegou a defender a prisão de ministros do STF. O ataque ao STF será a tônica da sua campanha presidencial. Trata-se de golpismo claro e cristalino. É, portanto, natural que Gilmar se defenda.

Vale-tudo
Mas o decano não ficou satisfeito em reagir institucionalmente e decidiu tirar a toga para se atracar na lama do vale-tudo com Zema. Com a arrogância e a soberba próprias das elites que historicamente compõem o STF, Gilmar perdeu a linha e passou a caçoar do jeito de falar do governador.
“Ele fala um dialeto próximo do português. Muitas vezes, a gente não o entende. Eu estava imaginando que ele fala uma língua lá do Timor-Leste, um tétum ou coisa assim. De qualquer forma, naquilo que for inteligível, é importante que a Procuradoria, a PF e o próprio ministro Alexandre apreciem”, disse o decano do alto da sua nobreza. Na forma, a fala veste toga, mas o seu conteúdo é de briga de boteco.
Essa ridicularização do modo de falar do governador não é compatível com o que se espera de um ministro da mais alta corte do país. Com isso, Gilmar Mendes forneceu o palco e os holofotes para Zema fazer o que mais gosta: performar o homem simplão.
“Sabe por que você não entende o que eu falo, Gilmar Mendes? É que o linguajar de brasileiros simples como eu é diferente do português esnobe dos intocáveis de Brasília. O problema não é você não entender as minhas palavras. O problema é os brasileiros não entenderem os seus atos”, lacrou o ex-governador em sua conta no Twitter.
Zema já nasceu milionário
É claro que o mineiro não é nada disso. Essa caricatura que ele faz do povão, como se o brasileiro comum fosse um idiota, um caricato Nerso da Capitinga, não condiz com sua realidade social. Zema nasceu milionário e herdou as empresas da família.
De qualquer forma, é inegável que o ministro perdeu a razão ao destilar preconceito social, ainda que seja contra um personagem. Gilmar deu de bandeja ao ex-governador a oportunidade de se colocar como vítima de preconceito de um ministro elitista que vive encastelado no STF.
Mas o ministro parecia estar disposto a colocar para fora todos os seus preconceitos. Ainda furioso com o vídeo dos bonecos de Zema, disparou em entrevista: “Se começamos a fazer piadas com coisas sérias, com as instituições, imagine que comecemos a fazer bonecos do Zema como homossexual. Será que não é ofensivo? Se fizermos ele roubando dinheiro no estado, será que não é ofensivo? É correto brincar com isso? Homens públicos podem fazer isso? Só essa questão, é só isso, é isso que precisa ser avaliado”.
É chocante que um ministro apele à homofobia contra o ex-governador. Ele equiparou a ofensa de ser chamado de corrupto com a de ser chamado de homossexual. Tratou a sexualidade como uma questão de ordem moral. Em um momento em que o STF enfrenta o golpismo da extrema direita, é inadmissível que um ministro lance mão do mesmo baixo nível retórico dos reacionários. Gilmar se deu conta do absurdo proferido e pediu desculpas.
Porém, o estrago já estava feito e o Zema, mais uma vez, surfou bem a onda: “Ô Gilmar, tô achando isso uma vergonha! Você pode mandar fazer boneco meu de homossexual, de ladrão, do que você bem entender. Pode me satirizar à vontade. O que você não pode fazer é comparar homossexual com ladrão”.
Foi uma paulada justa e bem dada. Desse jeito, nem parece que Zema é o homem que disse que “homens brancos, heterossexuais e bem-sucedidos” são perseguidos e rotulados como “carrascos” no Brasil.
Esse barraco público protagonizado por esses dois importantes personagens revela o derretimento moral do debate público no Brasil. Gilmar Mendes desceu tão ao fundo do poço que se comportou igualzinho a um parlamentar bolsonarista dos mais rasteiros. A escrotidão das falas do ministro, ainda que motivada por uma indignação justa, colocou o Zema no papel que ele queria para a campanha eleitoral.
O mineiro hoje tem antagonizado mais com o STF do que Flávio Bolsonaro. Em um ambiente em que a população anda desconfiada do Supremo e o ataque ao tribunal rende dividendos eleitorais junto ao eleitorado de direita, Zema aproveita para faturar. Como se já não bastassem os problemas que o STF enfrenta, Gilmar conseguiu mais um de graça. Já Zema ganhou um presentão: vai reforçar a falsa imagem de homem do povo que está sendo perseguido pelos “poderosos de Brasília”.
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