Cecília Olliveira

Rei Midas reverso: Tudo que Flávio Bolsonaro toca vira inquérito

Como o ecossistema de corrupção está implodindo a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República antes mesmo do primeiro comício, com prisões, bilhões bloqueados e operações da PF em série

Rei Midas reverso: Tudo que Flávio Bolsonaro toca vira inquérito

Há um recorde curioso em curso na política brasileira, e ele pertence a Flávio Bolsonaro. O senador do PL do Rio de Janeiro e pré-candidato à Presidência da República conseguiu uma proeza: articulou em seu próprio estado uma chapa ao Senado que desmoronou inteira antes mesmo do primeiro comício. O cabeça de chapa, o ex-governador fluminense Cláudio Castro, tornou-se alvo da Polícia Federal em maio, foi declarado inelegível e desistiu da candidatura. Já o seu suplente Márcio Canella terminou preso em flagrante na quarta-feira passada, depois que a Polícia Federal encontrou um fuzil calibre .556 no porta-malas de seu carro.

A rigor, Canella seria apenas alvo de busca e apreensão na sexta fase da Operação Unha e Carne – uma investigação sobre uma rede de postos de combustíveis suspeita de lavar R$ 7,6 bilhões nos últimos seis anos, segundo o Conselho de Controle de Atividades Financeiras, o Coaf. O que transformou a batida policial em prisão em flagrante foi o fuzil no porta-malas. A defesa apresentou uma versão no mínimo criativa: um policial militar da escolta teria deixado o armamento restrito, de propriedade do Estado, dentro do veículo do ex-prefeito de Belford Roxo antes de ir embora de moto. A cena, garantem os advogados, teria sido registrada pelas câmeras da residência de Canella. 

Na última sexta-feira, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, o STF, determinou a soltura de Canella. O ex-prefeito está de tornozeleira eletrônica e responderá o processo em liberdade. A ver se a tese do fuzil esquecido pelo PM no porta-malas colará em seu julgamento. 

De qualquer forma, o episódio do fuzil está longe de ser o mais importante. É apenas o mais recente de uma longa sequência.

Em novembro de 2025, a Polícia Federal prendeu Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, no epicentro do maior esquema de fraude financeira revelado no Brasil nos últimos anos. Vorcaro não é um banqueiro qualquer. Ele é o “irmão” a quem Flávio Bolsonaro enviava mensagens em áudio por WhatsApp, conforme mensagens reveladas de forma exclusiva pelo Intercept Brasil, cobrando dinheiro para bancar o filme “Dark Horse”, sobre o pai, Jair Bolsonaro. Foram enviados R$ 61 milhões para um fundo nos Estados Unidos administrado pelo advogado de imigração de Eduardo Bolsonaro — um fundo que prometia empreendimento imobiliário no Texas que nunca existiu juridicamente. Detalhe menor.

Já em maio, foi a vez de Cláudio Castro, que teve sua casa vasculhada em uma operação autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes. A Operação Sem Refino investiga sonegação, ocultação patrimonial e evasão de divisas ligadas à refinaria Refit. O STF bloqueou R$ 52 bilhões em ativos. Àquela altura, Castro já era inelegível desde o começo do ano — cassado por abuso de poder econômico nas eleições de 2022, no escândalo do Ceperj, que também envolve o ex-deputado estadual Rodrigo Bacellar.

No início de julho, foi a vez do próprio Bacellar. Ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio, aliado de Castro, ele acabou preso na quinta fase da Operação Unha e Carne, que investiga um esquema de lavagem de dinheiro ligado à nova cúpula do jogo do bicho. Bacellar chegou a ser vislumbrado como governador tampão do Rio depois da saída de Castro — um delírio que durou exatamente o tempo entre a possível promoção e a prisão. Isso sem falar que já o conhecemos bem por suas ligações com o Comando Vermelho.

E, há uma semana, a conta chegou para Canella.

Vorcaro, Castro, Bacellar, Canella. Quatro nomes ligados diretamente a Flávio Bolsonaro. Quatro alvos da Polícia Federal em um intervalo de apenas oito meses. E o pior: a lista não se restringe ao Rio de Janeiro.

Entre 9 de junho de 2025 e 9 de julho de 2026, o Rio de Janeiro foi alvo de 22 operações para investigar suspeitas de corrupção. Estão na mira R$ 71,8 bilhões em contratos e recursos públicos. O valor supera metade de todo o orçamento estadual previsto para 2026.

Os aliados que também não escaparam

O senador Ciro Nogueira, presidente nacional do Partido Progressistas, o PP, e um dos principais articuladores da direita no Congresso, também virou alvo da PF nas investigações do caso Master. Ciro esperava alguma defesa pública de Flávio, um mínimo gesto de lealdade. O aceno, porém, nunca veio. O troco foi imediato: o PP passou a defender neutralidade total na disputa presidencial. 

O União Brasil seguiu a mesma cartilha. Após a prisão de Canella e diante do mesmíssimo silêncio de Flávio, o partido chegou à mesma conclusão. A federação PP-União Brasil — uma das maiores do Congresso, essencial para qualquer articulação viável em 2026 — deve consolidar a neutralidade antes do início das convenções partidárias, em 20 de julho.

Traduzindo o recado: os partidos que sustentariam a chapa presidencial estão pulando fora do barco antes mesmo de ele zarpar.

A fogo amigo da madrasta

Pouco antes dos ratos pularem fora, quem também abandonou o barco do Zero Um foi a própria madrasta. A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, figura central do bolsonarismo entre mulheres evangélicas, divulgou um vídeo acusando o enteado de tê-la apunhalado pelas costas e de fazer aliança com quem já chamou a família de ladra. Ela também deixou a presidência do PL Mulher e, segundo interlocutores, previu que a campanha do Flávio será nocauteada por novos escândalos.

É preciso muito talento político para conseguir ser abandonado, na mesma temporada, por dois grandes partidos, por aliados e pela própria madrasta, mas Flávio conseguiu a façanha.

No fundo do poço havia uma caixa de gordura

Enquanto eu escrevia este texto, a Polícia Civil e o Ministério Público do Rio prenderam o pai e a cunhada do deputado estadual Alexandre Knoploch, do PL — também aliados de Flávio Bolsonaro — em nova operação sobre desvio de recursos do Instituto Rio Metrópole. 

Segundo a denúncia, o esquema movimentou R$ 86 milhões entre 2022 e 2026. Maurício Knoploch, pai do deputado, é acusado de direcionar licitações no órgão, onde atuava como diretor de Planejamento e integrava a Comissão Técnica de Licitação. A nora dele, Amanda Paschoa, ocupava cargo comissionado no mesmo instituto desde 2020 — o que o MP classificou como violação expressa do decreto estadual que proíbe o nepotismo. Ao decretar as prisões, o juiz Marcello Rubioli escreveu que o Estado do Rio “chegou ao fundo do poço e descobriu que ainda havia uma caixa de gordura”. 

A frase resume melhor do que qualquer coluna o que continua acontecendo no estado enquanto o palanque de Flávio se desmorona em Brasília. Apesar de se mostrar adepto da teologia da prosperidade, o toque de Midas de Flávio Bolsonaro é reverso. Tudo o que ele toca, não vira ouro; vira inquérito.

E é uma coleção de investigados – e presos – que não para de crescer. Em maio, escrevi aqui no Intercept que todos os governadores eleitos no Rio de Janeiro nos últimos 30 anos foram presos, cassados ou renunciaram para escapar da cadeia. Sem exceção. 

Argumentei que isso não é crise: é o estado natural de um sistema político que nunca foi reformado, apenas remendado. De lá para cá, um ex-governador virou alvo da PF, um ex-presidente da Assembleia Legislativa foi preso e um pré-candidato ao Senado foi flagrado com fuzil.

O que muda em 2026? Fica a pergunta.

Se todos os governadores eleitos no Rio nas últimas três décadas terminaram na cadeia, cassados ou renunciaram; se os aliados que o pré-candidato à Presidência articulou no seu próprio estado estão hoje sob investigação da Polícia Federal; e se até a família prevê nocaute, o que exatamente os eleitores estão sendo chamados a validar nas urnas em outubro?

Não é pergunta retórica. É a constatação de quem assiste a uma campanha implodir por conta própria, sem que a oposição precise fazer muito além de esperar a próxima operação da PF.

O rei Midas reverso está fazendo sozinho o trabalho de demolição. Resta saber se os adversários terão competência para capitalizar em cima da ruína. 

P.S.: Este texto corre o risco de ficar desatualizado a qualquer momento, a depender de quantos aliados a mais do Zero Um serão presos nos próximos dias.

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