João Filho

Nikolas Ferreira mentiu e ajudou o PCC

Não se sabe se ele teve intenção, mas é fato que sua cruzada desonesta sobre o Pix favoreceu o grupo que virou uma multinacional do crime.

Deputado federal Nikolas Ferreira, do PL de Minas Gerais (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

O deputado federal Nikolas Ferreira, do PL de Minas Gerais, ajudou o Primeiro Comando da Capital, o PCC. Não há exagero nessa afirmação. Trata-se da mera constatação de um fato. Não se sabe se ele teve essa intenção, mas não se pode negar que a sua cruzada desonesta e histriônica no início deste ano favoreceu o PCC.

Em janeiro, Nikolas ateou fogo nas redes sociais com um vídeo cheio de mentiras sobre uma medida da Receita Federal que visava ampliar a fiscalização sobre as fintechs, que hoje são um dos principais braços de atuação do PCC. 

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A instrução normativa passou a obrigar os bancos digitais e fintechs  a enviarem informações a respeito de operações acima de R$ 5 mil no Pix. Em tom de denúncia, o deputado inventou que o governo queria fiscalizar e tributar todas as operações pelo sistema de pagamento. 

Deputado federal Nikolas Ferreira, do PL de Minas Gerais (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
Deputado federal Nikolas Ferreira, do PL de Minas Gerais (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

Criou-se, então, uma narrativa de que o governo estaria desenvolvendo um sistema de vigilância para perseguir e tributar trabalhadores informais que operam com Pix. O bolsonarismo impulsionou o vídeo e ajudou a criar uma onda popular contra o governo, que acabou cedendo à pressão e revogou a instrução normativa. 

Foi graças ao Nikolas e à corja golpista, portanto, que a instrução normativa que poderia detectar movimentações financeiras do PCC durou apenas 15 dias.

À época, políticos bolsonaristas trataram a revogação da regra como uma grande vitória e exaltaram a atuação de Nikolas. “Parece que o governo voltará atrás sobre a fiscalização do Pix. Parabéns a todos brasileiros que se manifestaram, em especial ao grande Nikolas Ferreira”, disse André Fernandes, do PL do Ceará. 

Já Gustavo Gayer, do PL de Goiás,  escreveu: “O governo arregou por causa de vocês que usaram as redes sociais para verbalizar suas opiniões sobre essa tentativa desse governo de arrancar nosso dinheiro”. Todos sabiam perfeitamente que Nikolas estava mentindo, mas não deixaram de embarcar no trenzinho da canalhice. O recuo do governo representou uma vitória para o bolsonarismo e para o PCC. 

‘O bolsonarismo, através do seu menino de recados Nikolas, deu alguns meses para o crime organizado faturar’.

Na última quinta-feira, 28, durante coletiva sobre a operação Carbono Oculto — a megaoperação que escancarou a ligação da Faria Lima com o PCC –, o  secretário especial da Receita Federal, Robinson Barreirinhas, deixou claro que a onda de mentiras do início do ano foi determinante. 

“Essas fake news foram tão fortes que, apesar de todo o esforço da Receita Federal, não conseguimos rebater essas mentiras, por conta da força de quem as impulsionava, o que já estava, inclusive, prejudicando o uso dos meios de pagamento instantâneo. Nós tivemos que dar um passo atrás e revogar essa instrução normativa. E as operações de hoje mostram quem ganhou com essas mentiras”, afirmou o secretário.

Poderão dizer que a fala do secretário está politizada, já que ele é um integrante do governo. Bom, muito provavelmente esse componente existe, mas há alguma distorção ou incorreção na afirmação do secretário? Não há. Ela é precisa e absolutamente fiel aos fatos. 

O bolsonarismo, através do seu menino de recados Nikolas, deu alguns meses para o crime organizado faturar sem ser fiscalizado pelas autoridades brasileiras.

Apesar de o bolsonarismo jogar contra, o país conseguiu desarticular parte relevante do esquema de financiamento do PCC. Uma investigação de dois anos revelou a maneira como a facção se infiltrou na economia brasileira. Acreditava-se que o PCC faturava alto com os postos de combustível, mas isso era apenas a ponta do iceberg. 

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A investigação demonstrou que o grupo atuava em toda a cadeia produtiva do setor de combustíveis, inclusive comprando usinas de etanol e obrigando fazendeiros a vender suas propriedades sob intimidação. O nível de sofisticação está tão alto que a facção já opera com desenvoltura em todos os setores da economia: agricultura, indústria, comércio e até no mercado financeiro.

O PCC hoje transaciona imóveis e aplica em fundos de investimento de fintechs próprias. Segundo os investigadores, a organização criminosa possui uma estrutura altamente profissional, com empresas legítimas espalhadas por vários estados do país. O tráfico de drogas já está virando um negócio secundário do grupo. É a economia formal brasileira financiando diretamente o crime organizado. 

O PCC se tornou uma multinacional do crime, está incrustado na economia formal do país e certamente tem poder de influência sobre políticos brasileiros. Já se sabe que há representantes da facção em prefeituras e assembleias legislativas do país. 

A influência política tem possibilitado que empresas ligadas à facção faturem alto com licitações fraudulentas. Alguém duvida que o PCC, com esse nível de sofisticação, não tem uma bancada representativa no Congresso Nacional? Bom, indícios e suspeitos não faltam, não é mesmo? 

‘Graças ao bolsonarismo no poder, o custo logístico da facção caiu absurdamente’.

Não é de hoje que o bolsonarismo dá sua contribuição para o crime organizado. Além do próprio núcleo golpista atuar como uma quadrilha criminosa, suas ações políticas enquanto esteve no poder ajudaram muito o PCC. E, mais uma vez, não há exagero nessa afirmação. 

O “liberou geral” das armas durante o governo Bolsonaro ajudou o PCC a se armar ainda mais. A facção passou a utilizar metralhadoras e fuzis legalizados em seu arsenal. Com o afrouxamento na fiscalização no registro de Caçadores, Atiradores e Colecionadores, os CACs, o PCC passou a comprar armas e munições legalizadas através de laranjas. 

A espécie de “cesta básica do crime”, composta por fuzis, carabinas e pistolas, ficou até 65% mais barata depois dos decretos de Bolsonaro. Graças ao bolsonarismo no poder, o custo logístico da facção caiu absurdamente. O PCC deixou de gastar dinheiro traficando armas do Paraguai e passou a comprar em lojas de armas da esquina mais próxima. 

Segundo o promotor de justiça Lincoln Gakiya, o PCC “pagava de R$ 35 mil até R$ 59 mil num fuzil no mercado paralelo e agora paga de R$ 12 mil a R$ 15 mil um (fuzil calibre) 556 com nota fiscal”. O que será que o PCC fez com o dinheiro que economizou graças ao governo Bolsonaro? Talvez tenha investido em suas empresas no mercado financeiro.

É possível afirmar que o bolsonarismo ajuda diretamente o PCC? Não. Até aqui, pelo que se sabe, o favorecimento é indireto. Mas as coincidências gritam, e o caminho das pedras está dado. Torçamos para que o próximo passo das investigações seja o desmantelamento do braço político da facção em nível nacional.

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