Site com "esquerdômetro" expõe até posts de Facebook de membros das chapas que concorrem à diretoria do Cremesp. O órgão é responsável por fiscalizar a conduta dos médicos em São Paulo.

‘Esquerdômetro’ dos médicos: site faz caça às bruxas com candidatos ao Conselho Regional de SP

'Esquerdômetro' tacha de esquerdistas apoiadores do programa Mais Médicos. Site viola as regras da campanha eleitoral do Cremesp.

Site com "esquerdômetro" expõe até posts de Facebook de membros das chapas que concorrem à diretoria do Cremesp. O órgão é responsável por fiscalizar a conduta dos médicos em São Paulo.

“Estar ligado a ideologias consideradas de “esquerda” é sabidamente negativo para médicos”. É o que diz o texto na página inicial de um site com um “esquerdômetro” que expõe candidatos ao Conselho Regional de Medicina de São Paulo, o Cremesp.

Não precisa de muita coisa para receber tal carimbo. Membros do PT e PC do B, claro, tiveram suas fichas de filiação divulgadas. Quem é ou, em algum momento da vida foi, filiado ao PSB, PV e até ao partido de centro Cidadania, também. O candidato apertou a mão do Ciro Gomes em algum momento na campanha para presidente? A médica coordena o programa Mais Médicos em algum município? O “esquerdômetro” aponta: esquerdistas os dois!

As eleições para os Conselhos Regionais de Medicina, os CRMs, acontecem em todos os estados nos dias 14 e 15 de agosto, com voto exclusivamente pela internet. No Cremesp, cinco chapas estão concorrendo.

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Segundo o texto conspiracionista, a pretensão dos candidatos apontados no site é implementar “sorrateiramente” no conselho as pautas ligada à ideologia de esquerda, que seriam: “apoio aos Mais Médicos sem revalida, abertura indiscriminada de escolas médicas, destruição do ato médico, culpabilização dos médicos pelos problemas da sociedade, além da promoção da luta de classes com vilanização da imagem do médico como um profissional elitizado que é contra as necessidades dos pobres”.

Não há informações sobre quem criou ou financiou o site, mas somente a chapa 1 saiu ilesa, porque nenhum dos seus membros seria de esquerda. Outras três chapas têm de dois a quatro integrantes denunciados pelo “esquerdômetro” e a quarta não aparece porque estava com a campanha impugnada até o dia 18 de julho. Ao todo, as chapas são compostas por 20 titulares e 20 suplentes. 

Segundo Paulo Bernardo Lindoso, membro da Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político, se essa fosse uma eleição político-partidária, o site possivelmente seria considerado propaganda eleitoral irregular, “não tanto pelo conteúdo”, mas porque não se sabe quem o fez, quem o patrocina e não há indicação de nenhum CNPJ ligado a ele. 

De acordo com o artigo 56 da resolução do Conselho Federal de Medicina, o CFM, que regulamenta as eleições para conselheiros dos CRMs, é proibido o anonimato durante a campanha por meio da internet. O texto estabelece ainda, no artigo 59, que a reclamação sobre propaganda irregular deve ser apresentada à comissão eleitoral “com prova da autoria ou do prévio conhecimento do [candidato] beneficiário, caso este não seja por ela responsável”.

Em princípio, disse Lindoso, as chapas que se sentirem prejudicadas devem provocar a comissão eleitoral, que poderá intimar as outras chapas a se manifestarem. “Se for demonstrado vínculo entre a publicação e uma chapa beneficiada, ela pode, em tese e eventualmente, ser punida”, concluiu. 

De acordo com o regulamento eleitoral do Cremesp, depois de intimada, a chapa beneficiada por uma propaganda irregular tem um dia para retirá-la do ar ou provar “a impossibilidade ou a inexistência de benefício”. Caso não faça nada disso, a chapa pode ser excluída do processo eleitoral.

Além da página apócrifa, quem está firme na luta contra os conselheiros de esquerda é o infectologista Francisco Cardoso, de São Paulo. Ele já foi condenado em 2022, em primeira instância, a três meses de prisão em regime aberto, por propagar informações falsas e injúrias contra o médico César Eduardo Fernandes na eleição para a Diretoria da Associação Médica Brasileira, em 2020. 

Em um vídeo publicado no Instagram em junho de 2023, Cardoso alertou os colegas para a formação de chapas que vão “tomar de assalto” o conselho e “impor goela abaixo dos médicos a sua nefasta ideologia socialista sobre a medicina”. Ao listar que ideologia seria essa, citou pontos em comum com os do site apócrifo, como a defesa do Mais Médicos e a abertura indiscriminada de faculdades de medicina. Já no Twitter, fixou uma postagem em que mostra quais são as chapas de direita que concorrem aos CRMs pelo Brasil. A primeira da lista é a chapa 1, de São Paulo.

Procurado, Cardoso disse por meio de nota que não tem conhecimento do site do “esquerdômetro” e que suas manifestações nas redes sociais “buscam garantir a transparência a respeito do processo eleitoral e dos candidatos nele envolvidos”, afirmou.

Em nota, o Cremesp alegou que não tinha conhecimento do site, nem sequer da sua autoria. “A instituição não possui responsabilidade ou qualquer gerência em relação à campanha feita pelas chapas e à criação de sites como o citado”, afirmou. Já a comissão eleitoral não respondeu se enxerga alguma irregularidade, nem se vai tomar medidas em relação à página, alegando que “se manifesta apenas em relação a dúvidas e solicitações das chapas inscritas e do Conselho Federal de Medicina”. 

Captura de tela do site Eleições Cremesp 2023.
Site com “esquerdômetro”, criado para dedurar candidatos nas eleições do Cremesp 2023. Página viola as regras da campanha eleitoral.

Ideologia conservadora na medicina 

Coordenador nacional da Secretaria Geral da Associação Brasileira de Médicas e Médicos pela Democracia, Arruda Bastos disse que as campanhas para os CRMs estão parecidas em todos os estados, por causa da disputa entre as chapas de perfil progressista e aquelas alinhadas ao Conselho Federal de Medicina, mais conservadoras. Mas não existem, segundo ele, chapas que sejam de fato de esquerda. Elas apenas seriam formadas por parte da categoria que ficou insatisfeita “com a politização à direita e extrema direita dos conselhos e do CFM, e com o engajamento político cego no governo Bolsonaro, sem questionar como a pandemia estava sendo conduzida”.

Um site com “esquerdômetro”, disse Bastos, revela uma atitude antiética e desesperada de quem o patrocina. “Apelar para essa coisa antiga de anticomunismo é a única forma de falar mal de uma chapa que defende a democracia como algo primordial, defende a vida, a ciência e a ética. E defende uma aproximação maior do conselho com a comunidade”, disse Bastos.

Para Gerson Salvador, candidato em uma chapa de esquerda na última eleição do Cremesp, há cinco anos, taxar concorrentes como esquerdistas repete uma estratégia de campanha que já deu certo antes. “Muitos dos apontados no site são de direita, mas – estão repetindo o discurso de esquerda, porque funciona. Não só em São Paulo, mas em outros estados, as chapas mais à direita ganharam a última eleição. Existe uma hegemonia conservadora dentro da medicina, inclusive com uma linha bolsonarista ou próxima ao bolsonarismo”, disse. ‌

Tal hegemonia, alertou Salvador, coloca uma barreira em discussões importantes para a sociedade, como as relacionadas às pessoas dependentes de álcool e outras drogas, às políticas voltadas para as mulheres que abortam, ou mesmo em relação ao sistema público de saúde e aos conflitos de interesse entre público e privado. “Várias pautas que são consideradas por esse grupo bolsonarista como ideologias de esquerda, que na verdade são pautas liberais, são absolutamente bloqueadas. Como autarquia, o conselho de medicina acaba interferindo nisso”. 

Perde a sociedade, mas perde também a própria categoria. “O conselho deve ser uma proteção para a sociedade contra a má prática médica. Quando ele não consegue garantir isso, como aconteceu na pandemia, com o CFM permitindo prescrição de medicamentos sem eficácia contra a covid-19, a sociedade desconfia dos médicos em geral”, disse Salvador.

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