João Filho

Globo, Estadão e Folha trataram como herói um dos maiores assassinos da história

A morte Henry Kissinger evidenciou como Globo, Estadão e Folha são submissos aos EUA. O ex-secretário foi o responsável pelo assassinato de inocentes em nome da política externa americana.

Dr. Henry Kissinger listens as Secretary of Defense Ash Carter delivers remarks at an award ceremony at the Pentagon in his honor for his years of distinguished public service May 9, 2016. Dr. Kissinger was presented with the  Department of Defense Medal for Distinguished Public Service.(DoD photo by Senior Master Sgt. Adrian Cadiz)(Released)

Morreu aos 100 anos aquele que talvez tenha sido um dos criminosos mais sanguinários do século XX. Henry Kissinger, ex-conselheiro de segurança nacional e ex-secretário de Estado dos EUA, foi um serial killer que, sentado em poltronas confortáveis em gabinetes acarpetados, comandou o assassinato de milhões de pessoas inocentes em favor da manutenção e ampliação da hegemonia do imperialismo americano. Estamos falando do homem mais influente da política externa dos EUA no auge da Guerra Fria. Suas digitais estão presentes em massacres, genocídios e golpes de estado que resultaram em ditaduras sanguinárias em vários cantos do planeta. 

Esta não é a opinião de um colunista de esquerda carregada de julgamentos de valor, mas apenas um relato fiel e resumido da sua biografia. Qualquer obituário que não esteja centrado nas atrocidades cometidas por ele deve ser classificado como um panfleto do imperialismo americano. E a panfletagem correu solta na imprensa do Brasil e do mundo. 

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As “qualidades” do serial killer alemão foram exaltadas nas manchetes que noticiaram sua morte. “Ganhador do prêmio Nobel“, “diplomata influente” e “estrategista americano” foram algumas das definições que o jornalismo capacho do imperialismo escolheu para enquadrar seus obituários. Mas, claro, houve algumas pinceladas críticas nos textos para conferir um verniz de isenção e equilíbrio. Muitas vezes, o contraponto veio através de eufemismos que são quase elogiosos para um defunto tão maligno: “polêmico“, “controverso” e “pragmático” — esses foram alguns dos termos utilizados para lembrar das suas atrocidades. De fato, o pragmatismo marcou a política externa comandada por Kissinger. Para minar avanços comunistas pelo mundo, ele não via problemas em lançar bombas sobre as cabeças de milhares de crianças inocentes. 

Para essa imprensa sabuja, portanto, a morte de inocentes em países pobres seria mero efeito colateral de uma guerra justa contra o comunismo. A abordagem benevolente que vemos agora no massacre comandado por Israel em Gaza não é mera coincidência. Em ambos os casos, o que motiva a relativização de mortes de inocentes é a defesa dos interesses do imperialismo americano. Em coluna no New York Times, Ben Rhodes, ex-conselheiro adjunto de segurança nacional dos EUA, definiu Kissinger com precisão: “ele foi o grande exemplo da distância entre a história que os EUA contam sobre si e a forma como atuam no mundo. Por vezes oportunista e reativa, sua política externa foi exemplo de quando o exercício de poder é esvaziado de preocupação com os seres humanos que cruzam seu caminho”. Esse é o tipo de “pragmatismo” que tem sido aclamado em boa parte da imprensa. 

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Na falsa isenção dos obituários, as ações sanguinárias de Kissinger são sempre ponderadas por atos que teriam contribuído para a paz mundial, como a distensão com a União Soviética, a aproximação com a China e o acordo de paz entre Israel e Egito. Todas essas ações não foram motivadas pelos nobres desejos de paz de Kissinger, mas pela defesa dos interesses do governo americano. Nem sempre se lucra com mortes. Às vezes, a paz é mais interessante do ponto de vista político e econômico. Tentar enxergar o lado bom de alguém que atravessou o século com sangue de milhões de inocentes escorrendo pelos dedos é de uma hipocrisia ultrajante. Trata-se do mesmo grau de hipocrisia daqueles que deram a Kissinger o prêmio Nobel da Paz pelo cessar-fogo na guerra do Vietnã depois dele ter comandado uma carnificina no país que resultou em 3 milhões de mortos vietnamitas, dentre eles 2 milhões de civis. 

Na América Latina, os obituários cheios de ponderação escancaram o chapabranquismo do jornalismo colonizado. Kissinger foi especialmente cruel com os países da região. Estamos falando do principal arquiteto da Operação Condor, que organizou e financiou golpes de estado que resultaram em ditaduras sanguinárias. 

No Brasil, Kissinger atuou em parceria com ditadores militares, mas isso não impediu a imprensa brasileira de tratá-lo com certa admiração. Os obituários dos principais veículos de imprensa brasileiros fizeram parecer que Kissinger foi um homem honrado que cometeu erros como qualquer outro ser humano. As monstruosidades que marcaram o século passado são tratadas quase que com irrelevância.

Para essa imprensa sabuja, portanto, a morte de inocentes em países pobres seria mero efeito colateral de uma guerra justa contra o comunismo.

Na Folha de São Paulo, a morte do serial killer alemão foi tratada assim: “Morre aos 100 Henry Kissinger, diplomata que moldou o século 20”. No O Globo, quem morreu foi um “estrategista americano” que fez coisas positivas e negativas: “Morre Henry Kissinger, estrategista americano que negociou reatamento com a China e apoiou ditaduras sul-americanas”. Já no Estadão, a manchete tratou Kissinger como um herói comprometido com a paz mundial: “Morre aos 100 anos Henry Kissinger, ex-secretário de Estado dos EUA e ganhador do Nobel da Paz — Kissinger foi um dos políticos e intelectuais mais importantes dos EUA”. Mas a sabujice do jornal da Família Mesquita foi além. No Twitter, o perfil do jornal chegou a ficar de luto pelo falecimento do seu herói. Pouco tempo depois, o jornal deletou o tweet, talvez por sentir alguma vergonha por ter se curvado tanto. 

A CNN Brasil também não poupou honrarias ao assassino em massa. Kissinger foi chamado de “nobel da Paz”, “potência diplomática dos EUA” e “personagem que desperta paixão e ódio”. Uma comentarista o chamou de “uma das figuras mais importantes da diplomacia americana, que tomou decisões e fechou acordos que moldaram a geopolítica do século XX”. 

Mas houve honrosas exceções no mundo. Alguns veículos americanos foram fiéis ao papel desempenhado por Kissinger na história. A revista Rolling Stone comemorou a morte do criminoso: “Henry Kissinger, criminoso de guerra adorado pela elite política dos EUA, finalmente morre”. Na submanchete, o chama de “um dos piores assassinos em massa da história” e afirma que é “uma vergonha profunda ao país que o celebra”. O Huff Post foi mais sóbrio, mas igualmente fiel aos fatos: “Henry Kissinger, o criminoso de guerra mais famoso dos EUA, morre aos 100  — O titã da política externa americana foi cúmplice de milhões de mortes e nunca demonstrou remorso pelas suas decisões”.

Para o historiador Greg Grandin, biógrafo de Kissinger, os obituários benevolentes e notas de condolências  “revelam uma falência moral do establishment político (…) e uma falta de vontade ou incapacidade de compreender o papel de Kissinger na crise em que nos encontramos. Eles são comemorativos. Eles são fúteis. Eles são vazios.” 

De fato, a cobertura quase simpática da morte de um homem responsável por assassinar milhões de pessoas revela a podridão moral da imprensa alinhada aos interesses do imperialismo americano. Qualquer outro assassino em massa não alinhado com esses interesses certamente seria tratado com o devido rigor. As mortes de uns valem menos que a de outros.

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