Bandeira em propriedade próxima ao muro que marca a fronteira entre os países Estados Unidos e México.

Guerra dos EUA ao México soa ridícula, mas governo Trump nos ensinou que o absurdo pode se tornar realidade

Para cientista política argentina, invasão ao México defendida por Trump e outros republicanos é ‘cara e perigosa’ — e só agravaria a crise migratória.

Bandeira em propriedade próxima ao muro que marca a fronteira entre os países Estados Unidos e México.

“Militarizar a fronteira sul”, aumentar as deportações e cortar o apoio financeiro para o México e a América Central. Essa é a estratégia defendida pelos pré-candidatos do Partido Republicano nas campanhas e debates rumo às eleições nos Estados Unidos em 2024. Mas tem quem vá além: o ex-presidente Donald Trump e o governador da Flórida, Ron DeSantis, defendem uma invasão militar ao território mexicano para “dizimar” os cartéis e combater o tráfico de fentanil.

A epidemia da droga, que já provoca cerca de 110 mil mortes ao ano nos Estados Unidos, virou um dos pontos centrais no debate político. Conforme a DEA, agência antidrogas dos EUA, a rota do opioide começa na Ásia – sobretudo na China – e segue de navio até o México. Lá, as substâncias químicas são transformadas em fentanil em laboratórios clandestinos e atravessam a fronteira em forma de pílulas — muitas vezes levadas de avião por cidadãos estadunidenses, que entram por pontos de entrada legal aos Estados Unidos.

Em abril, pressionado por congressistas dos Estados Unidos, o presidente mexicano, Andrés Manuel López Obrador, enviou uma carta ao mandatário chinês, Xi Jinping, pedindo a cooperação de Pequim para controlar a produção de fentanil. Em resposta, o Ministério de Relações Exteriores da China disse que o assunto era um problema “made in U.S.”, ou seja, fabricado nos EUA – o maior consumidor de drogas ilegais do mundo.

As tensões na fronteira mexicano-estadunidense aumentaram ainda mais em maio, com a aprovação de um pacote legislativo na Flórida para endurecer a fiscalização contra a migração indocumentada. Tentando emular a radicalização e xenofobia de Donald Trump nas últimas eleições, o governo de Ron DeSantis já chama os migrantes em situação não regularizada de “aliens ilegais”.

Para entender como as ameaças de invasão e o recrudescimento da política migratória impactam as relações entre México e Estados Unidos, o Intercept conversou com a cientista política Maria Paula Bertino. Ela é professora da Universidade de Buenos Aires, a principal universidade da Argentina, e nos foi indicada pela #NoSinMujeres, rede de cientistas políticas latinas. Também falamos sobre as eleições que se avizinham em ambos países e como os resultados nas urnas podem acalmar ou acirrar os ânimos na fronteira.

A cientista política Maria Paula Bertino conversou com o Intercept sobre uma possível ofensiva militar dos EUA contra o México.

Intercept – O México voltou a ser alvo de congressistas republicanos nos EUA. Mas, em vez de um muro, agora se fala em invasão ou intervenção no país vizinho. Por quê?

Maria Paula Bertino – Isso tem relação com a necessidade de marcar um discurso eleitoral de olho nas primárias dos Estados Unidos. O Partido Republicano tem assumido posições muito extremas, e o peso dos candidatos mais polarizantes tem surtido efeito eleitoralmente. 

Não é só a campanha de Donald Trump, mas também a de outras figuras republicanas, como Ron DeSantis [governador da Flórida], que condicionam o discurso do partido. Hoje, a chave para quem quer competir nas primárias republicanas é radicalizar os discursos. Trump é o primeiro que muda a posição em relação ao México: enquanto era presidente, chegou a consultar seus assessores com perguntas do tipo “isso aqui é um país — posso invadi-lo?”.

Agora, os candidatos republicanos encontram no combate ao narcotráfico uma justificativa para definir sua identidade. Defendem que isso seria uma necessidade estatal equivalente à guerra contra o terrorismo do Estado Islâmico. 

Mas há alguma chance concreta de que essa invasão ocorra? Ou de que essas ameaças se traduzam em políticas mais repressivas?

Isso vai depender das eleições de 2024. Um governo democrata não deve avançar nesse sentido, embora os democratas tenham historicamente posturas mais intervencionistas no cenário internacional do que os republicanos.

O Executivo estadunidense é bastante limitado nesse sentido. Diante desses discursos de invasão, diversos representantes democratas já reforçaram as bases legais para aumentar ainda mais a dependência do Congresso quando o presidente pedir aval para qualquer intervenção militar. É uma estratégia inteligente, porque expõe as contradições do Partido Republicano.

Gostaria de acreditar que [a ameaça de invasão ao México] seja apenas um discurso eleitoreiro. Em 2016, falava-se sobre o quão ridículo era o muro defendido por Trump. Depois, ele introduziu políticas migratórias bastante rígidas, que jogaram por terra uma tradição de aceitar a entrada de trabalhadores migrantes pela fronteira sul dos Estados Unidos.

O tráfico de fentanil já provoca até tensões diplomáticas envolvendo López Obrador e Xi Jinping. O território mexicano pode virar alvo de disputa entre China e Estados Unidos por causa disso?

Sim. Seria algo perigoso, mas pode ocorrer. O discurso que tem sido construído nos Estados Unidos coloca o México como um território de trânsito [da droga] que afeta a população estadunidense. Com base nisso, o que se propõe é restringir o acesso dos cartéis à fronteira, para evitar a entrada do fentanil aos EUA. São múltiplos discursos construídos ao redor de uma das principais epidemias do país, que é o consumo de opioides.

O fluxo migratório pode sofrer medidas mais restritivas em função do tráfico de fentanil?

Medidas restritivas que reduzem o acesso migratório tendem a ser mais eficazes onde as regras têm algum tipo de racionalidade. Pretender controlar a migração em fronteiras tão porosas tem um nível de complexidade que vai além das ações que estão sendo propostas. Neste momento, abordar a questão a partir da lógica do tráfico de drogas é mais prejudicial do que se espera, não resolve a questão da migração irregular.

O que as ameaças de Donald Trump e de figuras alinhadas a ele podem representar para a soberania do México e de outros países latino-americanos?

Nesse período de primárias, as declarações dos pré-candidatos de cada partido tendem a se radicalizar. Eles vão buscar os pontos de sensibilização de seus eleitores para depois moderar os discursos. Essa é a lógica eleitoral.

Republicanos já defendem que guerra às drogas é tão necessária quanto combate ao Estado Islâmico.

Toda intervenção militar dos Estados Unidos em qualquer território vai exigir a aprovação do Congresso. Se Donald Trump virar presidente, isso não supõe imediatamente uma invasão ao México, porque há essa limitação.

Na América Latina, uma ação dessas poderia gerar uma tensão nas relações. O México é o principal parceiro comercial dos Estados Unidos, e por isso soa ridículo avançar nesse sentido. Além disso, uma intervenção militar como essa demandaria muito gasto estatal — justamente o que o governo tenta evitar agora. Uma guerra – e aqui coloco muitas aspas – na fronteira sul seria cara e perigosa. E não conseguiria deter o avanço da migração irregular, pelo contrário: ampliaria esse movimento.

A vitória de Trump poderia criar uma crise diplomática nas relações mexicano-estadunidenses ou em outros países governados pela esquerda, como o Brasil?

A lógica do Partido Republicano é mais protecionista do que intervencionista. A preocupação não é com os efeitos do tráfico no México: na visão dos republicanos, é necessário controlar a entrada de fentanil na fronteira para proteger a própria população dos Estados Unidos. Se Trump vencer, a perspectiva é de que tenha uma postura internacional semelhante à que teve em seu primeiro governo: um isolamento em relação à China e um retorno à lógica bipolar de 1980 — o que é bastante ridículo, mas essa é a linha do discurso republicano. 

Em 2024, o México poderia eleger sua primeira presidenta na história — e quiçá com um perfil mais moderado e progressista. Essa mudança pode influenciar os discursos beligerantes que temos visto até agora?

Não sei. O fato de haver mulheres liderando o governo não condiciona o tipo de política adotada. A questão vai se concentrar no vínculo por parte da burocracia estatal, do corpo diplomático, e como essas relações irão se estreitando conforme as necessidades de ambos países. Hoje esse canal não tem funcionado para controlar o narcotráfico. 

Acredito que, com governos progressistas dos dois lados da fronteira, há mais chances de diálogo. Visões comuns permitem melhores convergências entre todos os governos — e isso não é exclusividade de México e Estados Unidos. Atualmente, há uma política de neutralidade. López Obrador tem feito muito barulho internamente, o que tira o peso de seus vínculos internacionais. Há uma prevalência da política doméstica.

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