Coronavírus: empresas criam mercado paralelo e irregular para lucrar com testes rápidos

Coronavírus: empresas criam mercado paralelo e irregular para lucrar com testes rápidos

Anvisa diz que vender para pessoas físicas é proibido. Chance de erro desse tipo de teste chega a 75%.

Coronavírus: empresas criam mercado paralelo e irregular para lucrar com testes rápidos

A crise do coronavírus

Parte 64


Donos de empresas que vendem produtos médicos e materiais para exames estão garantindo seus lucros com o comércio paralelo e até irregular de testes rápidos de coronavírus. Como se fossem lojas de departamento, a Ubuntu, de São Paulo, e a Biolar, de Rondônia, por exemplo, já anunciam ofertas e benefícios aos clientes, como entrega grátis e até cadastro de pré-venda. O problema é que a venda indiscriminada é proibida e, além disso, os testes rápidos têm 75% de chance de erro nos resultados negativos.

Por ter diagnóstico tão incerto e que exige interpretação médica dos sintomas clínicos, a venda de testes rápidos é permitida apenas para uso profissional. A Espanha chegou a devolver um carregamento de 9 mil testes à China por não funcionarem como o prometido. Por e-mail, a assessoria de imprensa da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a Anvisa, informou que o autoteste para covid-19 é proibido, “não havendo espaço para oferta de produtos que possam ser utilizados pelo público leigo”, conforme está previsto em uma resolução de 2015 da Agência.

No site da paulistana Ubuntu, um banner de meia página divulga a pré-venda de kits de testes rápidos para covid-19. “Entre em contato agora e receba sua proposta”, sugere o anúncio, com destaque para o preço – R$ 80 cada teste. O produto vendido pela Ubuntu vem em caixas com 25 unidades, no valor total de R$ 2 mil. Detalhe: os testes, comprados na China, ainda não receberam autorização da Anvisa para serem comercializados no Brasil.

Coronavírus: empresas criam mercado paralelo e irregular para lucrar com testes rápidos

Banner de propaganda dos testes rápidos de covid-19 no site da Ubuntu.

Interessada em agilizar as encomendas – mesmo sem poder fazer a entrega por enquanto –, a empresa pede pagamento antecipado. A Ubuntu promete que seu fornecedor, um fabricante chinês cujo nome não foi divulgado, produz testes suficientes para atender qualquer demanda dos clientes. Quem reservar mais de 60 mil testes – um total de R$ 4,8 milhões – ganha até desconto, conforme me informaram por telefone na sexta-feira ao prometer que a autorização da Anvisa “sairia ainda hoje”. Os pedidos só podem ser feitos por pessoas jurídicas, ou seja, quem tem CNPJ.

O mundo sofre uma escassez de testes e de outros equipamentos para o combate à epidemia, o que alimenta brigas comerciais entre países – o Brasil já foi prejudicado por isso na compra de respiradores, retidos nos Estados Unidos. Até agora, somente meio por cento dos testes prometidos pelo Ministério da Saúde do país chegaram aos pacientes. As declarações de Jair Bolsonaro desdenhando da epidemia já fizeram a China preferir comprar soja dos EUA em vez da brasileira. A promessa de uma empresa de que seria capaz de produzir testes suficientes para atender “qualquer demanda dos clientes” é, no mínimo, suspeita.

Erro de até 75%

Todas as marcas de teste para covid-19 vendidas no Brasil precisam de um registro da Anvisa. Atualmente, 24 produtos receberam autorização da agência para serem comercializados. Catorze deles são testes rápidos, como os oferecidos pela Ubuntu e pela Biolar. Eles detectam, a partir de uma pequena quantidade de sangue colhida com uma picada no dedo, os anticorpos produzidos pelo organismo infectado pelo novo coronavírus. Seu uso é parecido com o de testes de glicemia ou de HIV e o resultado sai em alguns minutos. A chance de erro no diagnóstico, porém, é muito alta.

Mesmo nos produtos autorizados pela Anvisa, o Ministério da Saúde detectou “limitações importantes” e uma chance de 75% de erro nos resultados negativos e 14% nos resultados positivos. Isso ocorre porque os testes rápidos só identificam a presença de anticorpos após três a sete dias do início da infecção.

A empresa Biolar ignora a proibição da Anvisa. Durante a apuração desta reportagem, como potencial compradora, entrei em contato para saber como funcionava a venda de testes rápidos. Já com o registro da Anvisa em mãos, a empresa fornece o produto importado da China até para quem quiser comprar apenas uma caixa com 25 unidades, como me explicou por telefone o diretor Antônio Ivo Pontes. Cada teste sai por R$ 146. Para os pedidos feitos até dia 3 de abril, em quantidades menores, a entrega estava garantida para o dia 17. Depois disso, ou se a encomenda fosse maior, o prazo aumentaria, já que, segundo eles, a demanda pelo produto tem crescido bastante.

Quando falei novamente com Pontes, dessa vez me identificando como jornalista, o discurso mudou: ele alegou que não pode vender para pessoa física – o que é proibido –, apenas se fosse para doação. Questionado por e-mail sobre a venda dos testes, disse apenas que “nós vendemos para órgão público”.

Tanto a Ubuntu como a Biolar já fecharam contratos com órgãos públicos. Graças ao estado de emergência decorrente da pandemia do coronavírus, elas foram escolhidas sem que houvesse concorrência em licitação.

Apesar de não ter autorização da Anvisa, a Ubuntu foi a escolhida pela prefeitura de Caraguatatuba, em São Paulo, para fornecer 5 mil testes rápidos no valor de R$ 400 mil, mas ainda espera o pagamento da quantia antes de confirmar o pedido.

Por e-mail, a CEO da empresa, Ludmila Dias, justificou que a pré-venda é o “processo de levantamento de demanda de possíveis clientes e a preparação de toda a análise documental e burocrática”, o que pode ser feito sem o registro da Anvisa para “agir mais rápido devido à velocidade epidemiológica do coronavírus”. A empresa também diz que não assinou contrato de fornecimento com Caraguatatuba ou qualquer outra empresa ou cliente, mas no Diário Oficial da União do dia 3 de abril consta o extrato da dispensa da licitação para a contratação da empresa pela prefeitura da cidade.

Já a Biolar fechou contrato de R$ 51,5 mil com a Polícia Rodoviária Federal de Rondônia no dia 2 de abril. A empresa vai fornecer 350 testes para policiais rodoviários federais de Rondônia, Roraima, Acre, Amazonas, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.

De acordo com o médico epidemiologista Antonio Silva Lima Neto, membro do Comitê Científico do Consórcio Nordeste para enfrentamento da pandemia, os testes rápidos são mais eficazes quando usados de forma planejada e massiva pelo poder público – como o que vem sendo feito pela Coreia do Sul, que está testando o máximo de pessoas para isolar os casos assintomáticos, evitando a propagação do vírus. Os testes desse tipo, diz Neto, fazem sentido como parte de uma estratégia de vigilância para monitorar infecção entre profissionais de saúde, contribuir para o isolamento dos doentes e identificar a circulação do vírus em áreas sem registro de infectados.

Só pra quem tem dinheiro

A venda indiscriminada de testes pode fazer com que população mais rica tenha acesso facilitado a esses produtos, em detrimento de quem de fato precisa. Se isso ocorrer, explica Neto, haverá uma falsa amostra do número de infectados, o que dificulta a definição de políticas públicas que beneficiem toda a população.

Além de prejudicar as medidas de controle da pandemia, o epidemiologista afirma que os testes aplicados e avaliados pelos próprios pacientes podem contribuir para colapsar ainda mais o sistema de saúde. “As pessoas irão ao hospital sem necessidade, motivadas pelo desespero de um teste positivo que pode simplesmente estar sendo mal interpretado, ou estar entre aqueles em que o exame falha”, alerta.

Os efeitos negativos da compra descontrolada de um produto de saúde já foram experimentados com a cloroquina, remédio falsamente anunciados como solução para a covid-19 pelo presidente do Brasil Jair Bolsonaro e pelo presidente dos Estados Unidos Donald Trump. Pessoas morreram ao se medicar indevidamente, enquanto faltou para quem a vida depende do remédio. Ainda em testes, a cloroquina é um dos possíveis remédios para o surto, mas está longe de ter sua eficiência comprovada. Na Suécia, seu uso foi suspenso temporariamente por causar efeitos colaterais como problemas de visão. Na China, em um teste preliminar, dos 15 pacientes que receberam a cloroquina, 13 apresentaram resultado negativo para o coronavírus após uma semana. Dos 15 pacientes que não tomaram, 14 apresentaram resultado negativo. “No caso dos testes rápidos, há também o risco das pessoas utilizarem um produto de baixa qualidade, não validado pelas agências oficiais de controle”, alertou o especialista.

Para alguns empresários, porém, nem a escassez de testes de coronavírus no mundo todo e nem a falta de autorização da Anvisa serão um problema. Aumentar o faturamento em tempos de pandemia é a única coisa que importa.

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