Fabio de Sa e Silva

Flávio Bolsonaro dá tiro no pé a ao tentar reverter ‘tarifaço’ de Trump

Estratégia do parlamentar para constranger o governo federal em audiência nos EUA expõe um dilema: ou ele assume que Donald Trump errou ou admite que o desmonte ambiental de Jair Bolsonaro causou o prejuízo comercial.

Flávio Bolsonaro dá tiro no pé a ao tentar reverter ‘tarifaço’ de Trump

Quando anunciou que iria a Washington tentar evitar as tarifas americanas contra o Brasil, o senador e pré-candidato à presidência da República pelo PL, Flávio Bolsonaro, imaginou que produziria uma notável demonstração de força política. A mensagem seria direta e incontestável: enquanto o governo Lula fracassa em sua interlocução com Donald Trump, a família Bolsonaro teria acesso privilegiado ao círculo do presidente americano e seria capaz de obter um resultado melhor para o Brasil.

A estratégia, porém, pode produzir o efeito oposto ao pretendido. Para justificar o pedido de recuo das tarifas, Flávio terá de recorrer a argumentos que tornam a posição de Trump mais difícil de sustentar — política, jurídica ou tecnicamente.

Donald Trump fez das tarifas um dos pilares de sua política econômica. Muitas delas, porém, foram impostas com base em poderes emergenciais do presidente. Acabaram barradas pelos tribunais americanos, inclusive a Suprema Corte.

A armadilha jurídica de Trump

Diante desse revés, a Casa Branca passou a recorrer a caminhos juridicamente mais sólidos, entre eles as investigações conduzidas pelo United States Trade Representative, o USTR, (Representante Comercial dos Estados Unidos, em português) com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974.

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Após investigação formal, o USTR concluiu que determinadas políticas brasileiras — envolvendo comércio digital, sistemas de pagamento eletrônico como o Pix, combate ao desmatamento, corrupção, acesso ao mercado de etanol e outros temas — seriam “desarrazoadas ou discriminatórias” e estariam prejudicando interesses comerciais americanos. Com base nisso, propôs novas tarifas, submetidas agora a consulta pública e audiência.

O palanque de Flávio em Washington 

O governo brasileiro apresentou sua defesa. Argumentou que os Estados Unidos mantêm superávit comercial com o Brasil, que o país vem reforçando o combate ao trabalho escravo e ao desmatamento, que o Pix não discrimina empresas americanas nem lhes retira mercado e que diversas das alegações não encontram respaldo nos fatos.

Flávio Bolsonaro resolveu entrar em cena. Anunciou que participará da audiência pública para pedir ao governo americano que não imponha as tarifas –– nas suas palavras, “fazer o trabalho do Lula”. A sessão, agendada para o dia 6 de julho, foi convocada para discutir a imposição de tarifas de 25% sobre produtos brasileiros pelo governo americano. Segundo noticiado, o principal argumento de Flávio será político: as tarifas fortaleceriam eleitoralmente o atual presidente.

É aí que começa o dilema.

Se o governo Trump acolher esse argumento e desistir das tarifas porque elas beneficiariam Lula, admitirá que uma medida apresentada como resposta a práticas comerciais desleais foi, na verdade, condicionada por conveniências políticas. Isso enfraquece a justificativa construída pela Casa Branca e fornece ao Brasil um argumento adicional para contestar as tarifas, caso venham a ser impostas.

O caminho oposto também é desconfortável.

Se Trump mantiver as tarifas, terá de sustentar que as conclusões técnicas do USTR estão corretas e que os problemas identificados efetivamente existem. Nesse caso, irá desmoralizar  o aliado brasileiro, demonstrando que sua presença em Washington pouco ou nada altera a política comercial americana em relação ao Brasil.

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Restaria uma terceira possibilidade: Flávio abandonar a justificativa eleitoral e fazer exatamente a mesma defesa apresentada pelo governo Lula — de que as acusações sobre Pix, desmatamento, trabalho escravo e demais temas não se sustentam.

Isso significaria dizer, em audiência oficial, que o governo Trump errou.

Parece improvável.

A conta do desmonte de Bolsonaro

E, ainda que o fizesse, haveria uma dificuldade adicional. Parte importante das críticas americanas diz respeito justamente a temas como desmatamento e fiscalização do trabalho escravo, áreas em que o governo Jair Bolsonaro promoveu desmontes institucionais amplamente documentados.

Em resumo, qualquer caminho que Flávio escolha produz um custo político –– para si ou para Trump, que ele quer ter como aliado.

Se convencer Trump a retirar as tarifas para não ajudar Lula, ele reforça a percepção de que as tarifas obedecem a cálculos políticos.

Se não convencer, evidencia os limites de sua influência em Washington.

Se repetir os argumentos do governo brasileiro, contradiz a própria administração Trump.

E, se defender as conclusões do USTR, acaba atingindo o legado do governo de seu pai.

A política está cheia de jogadas que parecem inteligentes no primeiro movimento, mas se revelam ruins quando se olha o tabuleiro inteiro. Esta parece ser uma delas.

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