O inferno astral pelo qual passa a candidatura Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal do Rio de Janeiro, parece não ter hora para acabar. Desde que o Intercept revelou que o maior bandido do Brasil financiou o filme “Dark Horse” a pedido do primogênito de Jair, a coisa tem degringolado de uma maneira difícil de segurar. Se o bolsonarismo não fosse uma seita, a candidatura do filho de Jair Bolsonaro já teria naufragado.
Desta vez a pancada não veio do jornalismo, mas do seio da própria família. Depois de sofrer ataques públicos dos enteados e do núcleo americano do bolsonarismo, Michelle Bolsonaro se vingou de todos eles com um vídeo de 27 minutos, em que revela as entranhas da sua tradicional família brasileira.
Com um nível de elegância, clareza retórica e perspicácia política que os homens criados por Jair Bolsonaro jamais alcançarão, Michelle revidou os ataques que Flávio, Eduardo Bolsonaro, do PL de São Paulo, e os parajornalistas Allan dos Santos e Paulo Figueiredo têm feito publicamente contra ela. “Eles me tratam como se eu fosse idiota. Como se eu fosse alguém que chegou ontem, mas eu não sou. Eu sei mais do que eles pensam”, disparou Michelle, deixando claro que não aceitará o papel de coadjuvante e está disposta a brigar pelo espólio eleitoral de Jair Bolsonaro.

Sem indiretas
O vídeo gravado é uma peça de marketing político sofisticada para os padrões bolsonaristas. Não há palavras mal escolhidas ou improvisos. O cuidado na seleção dos objetos em cima da mesa, o vocabulário redondo, a dicção clara, a postura confiante — tudo foi calculado com um esmero que nunca se viu no bolsonarismo.
Diferente dos filhos de Jair, não houve indiretinhas, mensagens cifradas ou ameaças veladas. Michelle demonstra de maneira clara e direta os motivos pelos quais gravou o vídeo e a quem ele está endereçado. Marcou posição e se mostrou distante do destrambelhamento dos enteados.
Um post compartilhado por Michelle Bolsonaro (@michellebolsonaro)
A primeira-dama da prisão domiciliar deixou claro que não tem qualquer preocupação com o desgaste da candidatura de Flávio Bolsonaro. O timing do fogo-amigo é revelador. No momento em que o noticiário mirava as relações de Jaques Wagner, senador pelo PT da Bahia, com a turma do banco Master e dava um respiro para Flávio, Michele não pensou duas vezes ao acender o pavio de uma nova bomba e jogar no colo do enteado.
Além disso, o vídeo foi feito sob medida para dialogar com as mulheres e com os evangélicos, que são justamente as faixas do eleitorado em que Flávio tem perdido força nos últimos meses. Todo o esforço feito nos últimos dias para para suavizar sua imagem junto ao eleitorado feminino escorreu pelo ralo no momento em que a própria madrasta foi a público denunciar suas humilhações.
‘Vamos tratar de futebol’
A bordoada de Michelle deixou Flávio atônito, levando-o a uma primeira reação apressada e patética. Poucos minutos após a publicação do vídeo da madrasta, o senador apareceu em vídeo dizendo: “Hoje é dia de jogo, nada nem ninguém me aborrece. Vamos tratar de coisa boa, vamos tratar de futebol”.
É como a criança que, diante de uma bronca, tampa os ouvidos e canta um “lá lá lá” bem alto para não ter que lidar com a realidade. Lembrou muito a primeira reação do senador diante da primeira reportagem da Vaza Flávio, quando soltou uma gargalhada nervosa ao ser perguntado sobre a grana do Vorcaro.
‘A direita brasileira hoje anda a reboque de uma família em crise e cujo patriarca está preso’.
No dia seguinte ao vídeo de Michelle, o senador tentou mudar o tom e apareceu para se desculpar no estilo “peço desculpas se alguém se sentiu ofendido”. Apesar do pedido de desculpas, ele alegou que não havia feito nada errado e que sempre foi um anjo de candura com as mulheres.
Mas, logo em seguida, honrou o sobrenome e lançou mão de machismo: “Entendo a angústia da Michelle vendo meu pai, todos os dias, sofrendo com tamanha injustiça. Eu também sofro, mas sigo firme!”. Traduzindo para o bolsonarês: “Michelle está ficando louca, mas o primeiro filho homem de Jair segue defendendo-o com bravura e serenidade”.

Projetos pessoais de poder
A treta escancara o que é bolsonarismo: um grupo político que anda a reboque dos interesses de uma única família. As brigas pessoais entre os parentes se misturam com interesses políticos numa simbiose maluca que lembra as histórias dos tempos da monarquia. Não há um projeto para o país.
Michelle e Flávio não estão discutindo divergências programáticas ou estratégicas. O que estamos vendo é um conflito entre os projetos pessoais de cada integrante da família tendo como pano de fundo a disputa do espólio eleitoral de Jair Bolsonaro. A direita brasileira hoje anda a reboque de uma família em crise e cujo patriarca está preso.
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Nada disso é novidade. Há tempos que a briga pela herança política de Jair já estava anunciada. A novidade é o tamanho do apetite de Michelle e o quão preparada ela está para esse jogo.
As armas foram colocadas sobre a mesa e assustaram os filhos de Jair. Michelle não está mesmo para brincadeira. Agora o candidato Flávio tem duas grandes preocupações nessa campanha: o celular de Vorcaro e a disposição da madrasta em ser a principal protagonista do bolsonarismo.
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