EUA, Irã e Israel em busca de um acordo

EUA e Irã negociam acordo de paz, mas Israel quer guerra

EUA, Irã e Israel em busca de um acordo

A Casa Branca está desesperada para encontrar uma saída do atoleiro em que se enfiou no Irã, o que levou à assinatura, em 15 de junho, de um memorando de entendimento que promete concessões excepcionais à República Islâmica. Deliberações que antes era consideradas “um pesadelo para Israel” pelos políticos estadunidenses, e consideradas “inaceitáveis” pelo presidente, Donald Trump – como o afrouxamento total das sanções e o desbloqueio de bilhões de dólares em recursos mantidos no exterior – se tornaram realidade. Apesar das tentativas do governo Trump de divulgar isso como a conquista de todos os objetivos dos EUA e uma “rendição incondicional” do Irã, o acordo foi recebido com descrença, irritação e zombaria pelos democratas, e até por alguns republicanos, levando até aliados próximos do presidente, como o apresentador Mark Levin, da Fox News, e o senador do Texas Ted Cruz, a repreendê-lo por fazer o “impensável” e capitular ao Irã.

Em Israel, o acordo foi visto de maneira bem mais uniforme, em todo o espectro político: uma enorme e quase incompreensível traição pelos Estados Unidos, uma crueldade imprevisível de Trump, e um fracasso incalculável do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Apenas 11% dos israelenses consideram que o país venceu a guerra contra o Irã, e 71% não esperam que Trump se preocupe com os interesses israelenses em negociações futuras. Um integrante do Knesset, o parlamento israelense, pertence ao partido Likud, manifestou sua frustração com um vídeo em que tirava seu boné vermelho “Make America Great Again”, em apoio a Trump, e trocava por um boné azul com “Vitória Total“, uma expressão invocada por Netanyahu para justificar a destruição completa na Faixa de Gaza.

No Irã, o clima ainda não é completamente de comemoração. Grande parte da imprensa iraniana e muitas autoridades já adotaram uma postura triunfante: a primeira página do Javan, um jornal alinhado à Guarda Revolucionária Islâmica, mostrava uma multidão de iranianos rompendo um muro de ameaças construído pelo governo Trump, e Mohammad Bagher Ghalibaf, principal negociador do Irã, afirmou que “tudo o que queríamos conseguir por meio de ação militar, conseguimos várias vezes mais na negociação”. Mas, afinal, as traições passadas são recentes demais para serem esquecidas

Em abril, por exemplo, Israel insistiu unilateralmente que não fazia parte do cessar-fogo no Líbano, e continuou com a guerra. As negociações anteriores com os EUA só serviram para camuflar os preparativos de guerra em junho de 2025 e fevereiro de 2026. Isso tornou o país muito mais cauteloso, em comparação com a euforia que muitos sentiram em 2015, quando o acordo nuclear negociado durante o governo de Barack Obama nos EUA, e assinado no governo de Rouhani no Irã, foi adotado.

Embora a esmagadora maioria da população tenha apoiado a via diplomática, críticas ao trabalho da equipe liderada por Ghalifab e pelo ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, vêm se avolumando em segundo plano desde o começo de abril. Apoiadores da coligação conhecida como Frente de Estabilidade da Revolução Islâmica, que representa a maior ala dos conservadores no Parlamento iraniano, começaram a expressar suas objeções, contrariando as tentativas anteriores das autoridades no poder de demonstrar uma aparência de união e afastar a discussão política entre linha dura e reformistas em meio à guerra.

No final de maio, as críticas às atuais tratativas diplomáticas em um programa chamado “Soraya”, na rede de televisão estatal iraniana, levaram à suspensão do programa dias depois. Em resposta, o apresentador, Mohsen Maqsoodi, fez debates ao vivo na Praça Valiasr, em Teerã, em que o comentarista político Ali Abdi criticava o governo por não atacar Israel enquanto seu exército continuava a destruir o Líbano, o que também levou ao cancelamento da série.Circularam rumores pela internet de que o cancelamento teria ocorrido por intervenção de um assessor de Ghalibaf.

Depois que Araghchi deu uma entrevista à TV estatal em 12 de junho, dizendo que o Irã precisaria fazer concessões nas negociações, manifestantes furiosos que participavam de eventos noturnos patrocinados pelo governo exigiram que o corpo diplomático lembrasse do “sangue do Líder [[Khamenei]”, e um dos oradores na Praça Enghelab, em Teerã, conduziu os manifestantes aos gritos de “Morte ao conciliador”, contra aqueles que consideram que “os Estados Unidos têm algo a oferecer [ao Irã]”.

No Parlamento, os conservadores filiados ou aliados à Frente fizeram críticas ferrenhas, e alguns integrantes propuseram que o contato de Araghchi com o negociador do governo Trump, Steve Witkoff, fosse bloqueado, exigindo ainda que o Parlamento aprovasse o acordo antes da assinatura. Um representante descreveu o acordo como pior que “o JCPOA [o acordo nuclear celebrado no governo Obama] e [o Tratado de] Turkmenchay”, em referência ao tratado de 1828 que concedeu faixas do território iraniano ao Império Russo. 

Mahmoud Nabavian, representante de Teerã, é provavelmente o principal parlamentar a criticar os diplomatas do governo, repreendendo Araghchi por deixar brechas no memorando de entendimento que os EUA poderiam aproveitar, como a imediata reabertura do estreito de Ormuz, que eliminaria a vantagem econômica do Irã, e a falta de clareza do documento em relação aos prazos para retirada das sanções e saída das forças estadunidenses da região.

As críticas, porém, não demonstraram exatamente como o Irã poderia conseguir mais concessões. Mas parece que esse sentimento agora está sendo manifestado no mais alto nível do governo: o Líder Supremo Mojtaba Khamenei. Em um comunicado anunciando sua aprovação do acordo, Mojtaba deixou alguns analistas surpresos ao dizer que “tinha uma visão diferente” do que foi acordado por seus negociadores, mas mesmo assim concordou com os anseios do presidente Masoud Pezeshkian, sob a condição de que o Irã rejeite as “exigências excessivas” feitas pelos Estados Unidos, e observando que o país “aguarda o cuprimento das condições mencionadas”.

Esse tipo de descrença pública e imediata em relação a um acordo negociado pelo governo eleito contratas com a conduta que o pai de Mojtaba, Ali Khamenei, costumava adotar. Ele guardou suas críticas sobre os limites ultrapassados nas negociações do acordo nuclear anterior até ele ser dilacerado, anos depois, pelo governo Trump. A cobertura do site Axios, com um analista israelense, especula que Mojtaba tenha intenção de atribuir qualquer fracasso do acordo diretamente ao presidente iraniano.

Embora o acordo tenha rendido concessões excepcionais ao Irã, já se veem nuvens escuras no horizonte. Membros do Parlamento manifestaram preocupação com a exigência de cooperação com a Agência Internacional de Energia Atômica, que havia sido suspendida no ano passado pelo legislativo eleito. Mais importante ainda, a primeira cláusula do acordo – que exige o fim imediato e permanente da guerra no Líbano – já está sendo descumprida. 

Assim como fez no cessar-fogo que havia sido alcançado no começo de abril, Israel defende que precisa permanecer no sul do Líbano enquanto sua segurança nacional exigir. Um cessar-fogo aparentemente negociado entre o Hezbollah e Israel na semana passada foi rompido em poucos minutos, quando Israel continuou a bombardear o sul do Líbano. Aparentemente, uma ordem foi dada no sábado por Netanyahu e o ministro da Defesa, Israel Katz, para que os militares israelenses suspendessem fogo no Líbano, mas não deixassem nenhuma de suas posições, e respondessem a qualquer ataca do Hezbollah contra suas forças de ocupação. Isso deixa em aberto a questão do quanto a doutrina militar de Israel no sul do Líbano precisaria mudar.

Os Estados Unidos também já tomaram medidas ativas para obter mais concessões do Irã fora das diretrizes explícitas do acordo. O vice-presidente, JD Vance, disse que os 300 bilhões de dólares em recursos para reconstrução não seriam liberados para o Irã a menos que o país deixasse de financiar “organizações terroristas” como o Hezbollah. O memorando de entendimento não inclui nenhuma referência ao apoio do Irã a organizações aliadas no exterior, nem a seu programa de mísseis balísticos, sendo que as duas questões foram alvos primários da guerra dos EUA e de Israel.

O Irã, por sua vez, fechou o estreito de Ormuz no sábado, em resposta à recusa de Israel em encerrar a guerra. Embora o Irã ainda esteja participando das negociações na Suíça com Vance, aparentemente o objetivo não é negociar um acordo final ainda, mas exigir que os EUA cumpram os termos que já foram acordados. Ainda não há, até agora, muitos sinais de que os EUA concordaram com a exigência de uma retirada total das forças israelenses do Líbano, apesar das surpreendentes críticas que Trump e Vance fizeram recentemente à tática de terra arrasada que Israel vem usando no país. 

Por enquanto, as autoridades israelenses continuam a bater o pé e exigir cada vez mais ação, ao mesmo tempo em que provocam tensões em outras frentes, como a Cisjordânia, na tentativa de desviar a atenção e atenuar a percepção da maioria da sociedade israelense de que o país foi muito prejudicado. Para o ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, não há possibilidade de aceitar a via diplomática. Na semana passada, ele afirmou: “para cada lágrima de uma mãe israelense, mil mães libanesas devem chorar. O Líbano inteiro deve arder!”

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