Olá, aqui é o repórter Thalys Alcântara, assumindo a newsletter Cartas Marcadas desta semana no lugar do meu colega Paulo Motoryn, que volta na edição da semana que vem.
Vamos mostrar a relação de um ex-ministro do governo Bolsonaro com o Banco Master, sua ligação com o sistema bancário e como tudo isso foi ignorado em comissões de investigação do Congresso Nacional por parlamentares de direita e esquerda.
Logo após comandar o Ministério da Cidadania, pasta que beneficiou o mercado do crédito consignado, Ronaldo Vieira Bento migrou para a iniciativa privada para atuar em empresas que atuam exatamente nessa modalidade de empréstimo. Entre elas, uma firma licenciada pelo Banco Master que tinha contratos públicos para emprestar dinheiro para servidores públicos, aposentados e pensionistas.
Nesta edição, eu e o editor sênior de investigações, Eduardo Goulart, contamos as conexões entre Bento e o banco de Daniel Vorcaro. Pois bem, vamos aos fatos.
Ao analisar a declaração de Imposto de Renda do Banco Master enviada pela Receita Federal para a Comissão Parlamentar de Inquérito, a CPI, do Crime Organizado do Senado, descobrimos que as conexões da instituição financeira de Daniel Vorcaro com a extrema direita vão muito além do filme “Dark Horse”. O ex-ministro da Cidadania do governo Bolsonaro Ronaldo Vieira Bento e empresas ligadas a ele receberam R$ 11 milhões diretamente do Banco Master nos últimos dois anos.
Advogado, ex-agente da Polícia Federal e filiado ao Republicanos desde 2023, Bento atuou em 2022 na autorização de empréstimo consignado – concessão de crédito com desconto direto das parcelas na folha de pagamento – para os beneficiários do Auxílio Brasil, que, na época, substituiu o Bolsa Família. Logo depois de sair do governo, ele foi trabalhar na iniciativa privada em diferentes empresas, e uma delas, licenciada pelo Master, atua com empréstimos desse tipo.
Após chefiar o Ministério da Cidadania – atual Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome – entre março e dezembro de 2022, o ex-ministro assumiu os cargos de diretor-presidente do Banco Pleno e de administrador da Mettacard Administradora de Cartões, empresas ligadas ao conglomerado do Banco Master, investigado na Operação Compliance Zero da Polícia Federal por suspeita de fraudes financeiras.
O Pleno era o antigo Banco Voiter, comprado pelo Master em fevereiro de 2024 e depois vendido em julho de 2025 para o empresário Augusto Ferreira Lima, ex-sócio de Daniel Vorcaro, o dono do Master. Bento assumiu o cargo de diretor-presidente do Pleno nesse período.
Já a Mettacard era uma empresa licenciada pelo Banco Master que oferecia um cartão de benefícios consignado voltado para servidores públicos, aposentados e pensionistas. Essa modalidade funciona de modo similar a um cartão de crédito, por permitir compras de produtos e saques, mas costuma cobrar juros menores, e a parcela mínima do saldo devedor é debitada automaticamente na folha de pagamento.
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A liquidação extrajudicial – uma intervenção emergencial de órgãos do governo quando alguns tipos de empresas, como instituições financeiras e planos de saúde, entram em colapso e há risco para os seus clientes – do Banco Pleno foi determinada pelo Banco Central, o BC, em fevereiro deste ano por comprometimento financeiro, deterioração de liquidez, quebra de normas e descumprimento de decisões. Entre as medidas adotadas, foi determinada a indisponibilidade dos bens de Ronaldo Vieira Bento, além de controladores e outros ex-administradores do Pleno
Do total de R$ 11 milhões repassados diretamente pelo Master para Bento e empresas ligadas a ele, R$ 773,3 mil foram pagos diretamente para o ex-ministro como pessoa física. O restante foi direcionado para empresas em que ele era administrador ou com as quais mantinha ligação societária.
A maior parte dos valores repassados pelo Master foi para a Meta Consultoria, que recebeu R$ 6,2 milhões em 2025. O ex-ministro é sócio dessa empresa, criada em junho de 2023, que funciona em um edifício na Asa Sul em Brasília. A Meta Consultoria declara realizar atividades de consultoria em gestão empresarial, preparação de documentos e outros serviços especializados de apoio administrativo.
Em novembro de 2024, ela se juntou com uma outra empresa chamada CLT Participações para criar uma terceira, a Beta Serviços Financeiros, fechada em março deste ano. No período em que essa sociedade esteve ativa, a CLT recebeu R$ 1,2 milhão do Master.
No período em que Ronaldo Vieira Bento administrava a Mettacard, a empresa recebeu R$ 2,98 milhões do Banco Master. O ex-ministro foi eleito para o cargo em agosto de 2024 e renunciou em 10 de dezembro do ano passado, menos de um mês depois da deflagração da primeira fase da operação, quando Vorcaro foi preso no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, na região metropolitana de São Paulo.
A Mettacard anunciava em seu site oficial possuir convênios com prefeituras de sete municípios brasileiros, além do Instituto de Previdência do Município de São Gonçalo, da Macapá Previdência, do Tribunal de Contas do Estado do Paraná e do governo do estado do Paraná.
Em 24 de novembro do ano passado, o governo do Paraná bloqueou o lançamento de novos descontos em folha de pagamento dos cartões da Mettacard e da Credcesta, outra empresa licenciada pelo Banco Master, com o objetivo de proteger servidores contra suspeitas de fraude e descontos indevidos, no rastro das investigações da Polícia Federal. Segundo o comunicado emitido na época, as duas empresas aguardavam um posicionamento do Banco Central e haviam suspendido as atividades.
O Sindicato Estadual dos Servidores Públicos da Agricultura, Meio Ambiente, Fundepar e Afins, o Sindiseab, denunciou, por exemplo, o caso de um servidor que fez um empréstimo de R$ 1,2 mil e ficou devendo cerca de R$ 8 mil. “Os cartões de benefícios foram oferecidos aos servidores, há um tempo atrás, e muitos aderiram, principalmente, os servidores que recebem os menores salários”, escreveu o Sindiseab em nota publicada em dezembro do ano passado.
Um ex-administrador da Mettacard explicou ao Intercept, na condição de anonimato, que a empresa teria baixa atividade se comparada à Credcesta, que teria mais clientes e capilaridade. Essa fonte avalia que o cartão da Mettacard seria uma espécie de “plano B” do Master, a depender da estratégia de mercado.
Blindado pelos parlamentares
Ronaldo Bento chegou a ser mencionado mais de uma vez na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito do Instituto Nacional do Seguro Social, a CPMI do INSS, e na CPI do Crime Organizado, mas os requerimentos para investigá-lo nunca foram para frente e ele acabou passando ileso pelo escrutínio dos parlamentares.
O deputado federal Rogério Correia, do Partido dos Trabalhadores, o PT, de Minas Gerais, chegou a apresentar um requerimento para a convocação de Ronaldo Vieira Bento para a CPMI do INSS. Embora a comissão fosse voltada inicialmente para investigar os descontos indevidos em aposentadorias e pensões de milhares de pessoas, na chamada farra do INSS, o foco da investigação acabou aumentando com a apuração de empréstimos consignados e fraudes do Banco Master.
O requerimento do petista foi apresentado em dezembro do ano passado, mas não foi apreciado. A mesa diretora sequer colocou o pedido na pauta para votação. A CPMI do INSS acabou em março deste ano sem aprovação do relatório final.
“Ronaldo Bento foi um ministro tampão. Foi escolhido a dedo para fazer um trabalho sujo na véspera das eleições, que foi colocar milhões [de reais] à disposição de quem era beneficiário do Bolsa Família para fazer empréstimo consignado, endividando essas famílias, e buscando com isso angariar votos para Jair Bolsonaro”, avaliou Rogério Correia ao Intercept.
Uma segunda chance de os parlamentares investigarem o ex-ministro de Bolsonaro e suas conexões com o Master aconteceu na CPI do Crime Organizado, que também teve seu foco desviado para o caso do banco de Vorcaro.
Um requerimento para convocação de Bento feito pelo senador Randolfe Rodrigues, do PT do Amapá, até foi aprovado, mas a comissão acabou em abril deste ano sem ouvi-lo – e também sem a aprovação do relatório final.
Durante uma reunião da CPI do Crime Organizado em 18 de março deste ano, o senador Humberto Costa, do PT de Pernambuco, apresentou um requerimento com pedido de acesso aos sigilos bancário, fiscal, telefônico e telemático do ex-ministro da Cidadania. No entanto, o parlamentar acabou retirando o requerimento na mesma reunião.
A assessoria de imprensa do senador informou, por mensagem enviada pelo WhatsApp, que a retirada do requerimento foi “fruto de um acordo entre governo e oposição, com anuência do presidente e do relator”. “Vários requerimentos foram retirados da pauta nesse dia”, escreveu. Quando questionada sobre o que seria esse acordo, a assessoria afirmou que foi um “acordo verbal”. “Não tem acordo em relação a uns, não tem acordo em relação a outros, centra-se numa pauta comum e retiram-se as divergências para posterior discussão. Rotina nas Casas”, escreveu.
Farra dos consignados
A autorização para empréstimos consignados com desconto direto na folha de pagamento vinculados ao Auxílio Brasil foi autorizada por meio da medida provisória, a MP, nº 1.106/22, apresentada por Bolsonaro durante a gestão do antecessor de Bento, o então ministro da Cidadania João Roma, em março de 2022.
Mas a regulamentação e operação desse tipo de empréstimo foi realizada já na gestão de Ronaldo Vieira Bento, depois que a MP foi transformada na lei nº 14.431/22, sancionada por Bolsonaro em agosto daquele ano. Na época, o ex-ministro defendia a medida como uma maneira de ajudar os mais pobres a conseguir empréstimo, sem ficar na mão de agiotas.
“O empréstimo consignado chega para se somar às demais políticas sociais como mecanismo de superação da pobreza para população em situação de extrema pobreza ou de pobreza no nosso país”, defendeu Bento no programa A Voz do Brasil, em setembro de 2022.
Um relatório de avaliação da Controladoria-Geral da União, a CGU, de agosto de 2023, no entanto, identificou R$ 8,4 milhões de descontos indevidos do Auxílio Brasil ao verificar apenas os contratos firmados com a Caixa Econômica Federal entre novembro de 2022 e março de 2023. Ainda segundo o documento, 93% dos contratos de empréstimo consignado vinculados ao programa social foram firmados em outubro de 2022, durante a gestão de Ronaldo Vieira Bento e antes do segundo turno das eleições.
O então Ministério da Cidadania era responsável por habilitar os bancos que poderiam realizar esse tipo de empréstimo vinculado ao Auxílio Brasil. Na época, cerca de um terço das famílias brasileiras, mais de 21,6 milhões de pessoas, recebia o benefício que substituiu o Bolsa Família. A justificativa na época era que famílias já endividadas seriam auxiliadas por esse novo empréstimo com taxa de juros máxima de 3,5% ao mês. Segundo a CGU, 3,6 milhões de pessoas firmaram contrato para esse tipo de empréstimo.
Cerca de dois anos depois de dar a entrevista para A Voz do Brasil como ministro, o então empresário Ronaldo Vieira Bento foi eleito administrador da Mettacard, empresa licenciada pelo Master que oferecia cartões com empréstimo consignado para funcionários públicos.
O Intercept entrou em contato com Ronaldo Vieira Bento por ligação e mensagens de texto, mas inicialmente não houve resposta. Nove dias depois, após nova tentativa por ligação e mensagem, a assessoria de imprensa do ex-ministro enviou uma nota (leia aqui a íntegra) na qual Bento informa que os pagamentos mencionados pela reportagem se referem à remuneração do trabalho do ex-ministro na assessoria da instituição financeira.
“A remuneração, devidamente declarada ao fisco, é compatível com os valores do mercado. Não há qualquer irregularidade nas operações citadas”, informou a assessoria de Bento, na nota.
O Intercept também entrou em contato com a assessoria do ex-presidente Jair Bolsonaro, a Mettacard, a CLT Participações e a Meta Consultoria por e-mail e mensagens, mas não houve retorno até a publicação da reportagem. A assessoria de imprensa de Daniel Vorcaro informou que ele não irá se manifestar sobre o tema.
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