Thalys Alcântara

O agente secreto de Hollywood que conversava com a ditadura no Brasil

Uma carta mostra representantes dos maiores estúdios americanos alimentando de informações um importante general brasileiro nos anos de chumbo

O agente secreto de Hollywood que conversava com a ditadura no Brasil

Apesar do recente sucesso internacional dos filmes “Ainda estou aqui” e “O agente secreto”, nem sempre o cinema brasileiro foi o queridinho de Hollywood. Uma correspondência, da mesma década de 1970 que esses dois longas-metragens brasileiros se passam, revela que um representante do cinema estadunidense repassava informações para o aparato repressivo da ditadura. 

Eu conversei com o professor da Universidade do Distrito Federal Marcelo Mello, que fez essa descoberta durante uma pesquisa no Arquivo Nacional em Brasília para o seu doutorado*. E ele me mostrou o documento.

É uma carta de 1972 enviada por Harry Stone, representante da Motion Picture no Brasil, para o general Nilo Caneppa Silva, então diretor-geral da Polícia Federal em Brasília. 

Basicamente,  Harry Stone “delata” a exibição em Nova York de um filme brasileiro que retratava tortura e estava sendo usado para denunciar o estado de exceção que acontecia no então governo Médici. 

A Motion Picture representava os interesses dos grandes estúdios de Hollywood no exterior, como Paramount, Universal e Warner Bros. Essa organização ainda existe e, hoje em dia, também representa serviços de streaming, como a Netflix. 

Associação Brasileira Cinematográfica era a fachada da Motion Picture no Brasil

Já o general Nilo Caneppa Silva é conhecido por seu papel direto na censura de obras de arte. Além disso, chegou a participar de uma detenção ilegal e tortura durante o regime militar, segundo relatório final da Comissão Nacional da Verdade

‘My friend the general’

Harry Stone menciona na carta uma correspondência anterior com o general, indicando a existência de outras comunicações entre ambos. E sugerindo que o oficial de altíssima patente teria requisitado informações sobre um filme brasileiro que falava sobre “Brazilian police brutality” (brutalidade da polícia brasileira, em portugês).

Na correspondência ao general, Harry Stone anexou  uma carta em inglês de um representante da Motion Picture nos Estados Unidos chamado J. William Piper, que entrega o local onde estaria sendo exibido o filme citado: o Carnegie Hall, tradicional conjunto de salas de espetáculo, localizado na esquina da 57th Street com a 7th Avenue, em Nova York. 

O filme em questão era “O caso dos irmãos Naves”, de Luiz Sergio Person, diretor mais conhecido por “São Paulo Sociedade Anônima”. A obra narra a brutal prisão e tortura de dois irmãos no interior de Minas Gerais durante a ditadura do Estado Novo, na década de 1930. 

Sob privação de liberdade e maus-tratos, eles foram obrigados a confessar o homicídio do primo, que jamais cometeram. O caso é considerado como um dos maiores erros do Judiciário, que só anulou a sentença 15 anos depois do crime. 

A obra escapou da censura, pois os militares não perceberam a crítica implícita. Só que o filme teve sucesso comercial e começou a ser usado para denunciar os casos de tortura da ditadura militar. 

Representante de Hollywood se refere a general como “seu amigo”

Me chamou atenção que nessa carta em inglês, que entrega o nome e local de exibição do filme, o J. William Piper se refere ao general Caneppa como “your friend the General” (seu amigo, o general, em português).

Amiguinho dos militares

Harry Stone era conhecido como “o embaixador de Hollywood” e promovia festas com sessões de filmes inéditos para um público seleto. Se na imprensa ele era descrito como “elegante”, “eficiente” e “carismático”, para o diretor brasileiro Glauber Rocha o executivo americano não passava de um “agente da CIA”, a Central Intelligence Agency, agência de inteligência dos Estados Unidos.

Vendo a carta descoberta pelo pesquisador Marcelo Mello é possível perceber que o apelido não era tão injustificado.

Fiquei curioso para entender melhor quem era Harry Stone, e Mello me indicou a dissertação da pesquisadora Bruna Carolina de Oliveira Rodrigues sobre ele.

Harry Stone, conhecido como “o embaixador de Hollywood” no Brasil

Nessa pesquisa, Bruna Carolina mostra que Harry Stone era um fervoroso anticomunista alinhado ao Partido Republicano nos Estados Unidos. Ele organizava sessões de cinema privada com a cúpula militar, chegando a convidar Costa e Silva para assistir “OO7 contra a chantagem atômica” e, sabendo da paixão do general João Figueiredo por cavalos, enviou-lhe uma cópia do filme “O corcel negro”. 

Só é possível entender a gravidade dessa comunicação entre Hollywood e o regime militar quando se entende a importância de quem era o remetente e o destinatário. 

No mínimo, essa carta mostra o representante dos maiores estúdios de cinema dos Estados Unidos municiando o sistema de inteligência da ditadura militar no Brasil. Sistema esse que perseguia, torturava e matava dissidentes.

Quebra-cabeça do passado

Eu conheci o pesquisador Marcelo Mello através do documentário “Os ruminantes”, que ele dirige com a cineasta Tarsila Araújo, com estreia prevista para agosto deste ano. 

O documentário conta a tentativa frustrada de Luiz Sergio Person de encampar seu novo filme “A hora dos ruminantes”, que seria baseado no livro homônimo do escritor goiano José J. Veiga. A obra fala sobre uma pequena cidade invadida misteriosamente por forasteiros arrogantes, cachorros e bois – uma alegoria do regime autoritário.

A conexão entre o representante de Hollywood e o general é mostrada no documentário. Quando assisti ao filme – tive a oportunidade de vê-lo antes da estreia – pensei logo no Armando de “O agente secreto” e na Eunice Paiva de “Ainda estou aqui”. Ambos vítimas de um regime autoritário que, em algum momento e em alguma medida, foi aliado de Hollywood. Agora, as representações de ambos são aplaudidas por Hollywood. 

Para os diretores do filme, Marcelo Mello e Tarsila Araújo, essa conexão entre Hollywood e os militares pode ter ajudado a frustrar os planos de Person. Meses depois da carta de Harry Stone, ele viajou aos Estados Unidos para reuniões com executivos do cinema, com o objetivo de angariar fundos para seu novo projeto de filme, sem obter sucesso. 

Mello compara o seu trabalho e o de Tarsila com o de juntar peças de um quebra-cabeça que foi apagado. “A ditadura prejudicou muito o cinema brasileiro, e isso afetou também a carreira do Person. Se o Person soubesse dessas denúncias (contra o filme dele), talvez ele nem fosse para os Estados Unidos procurar financiamento”, me disse o pesquisador.

O pesquisador vai além e lembra que, se tivesse sido concluído, o filme não feito de Person teria antecipado a tradição latino-americana de obras que misturam elementos fantásticos com o cotidiano. “A gente tem plena convicção de que ‘A hora dos ruminantes’ teria revolucionado o cinema nacional e mundial”, diz Mello.

Eu também conversei com a Tarsila, que faz a leitura de que havia um interesse dos Estados Unidos em boicotar o cinema brasileiro. “É uma maneira de colonizar os outros países”. E, de fato, a fala da cineasta faz sentido.

É irônico, e dá até uma ponta de raiva, ler Harry Stone em uma entrevista para a Folha de S.Paulo em 1995 dizendo que o cinema brasileiro vivia o seu auge nos anos 1950, mas depois teria começado a “fazer os chamados ‘filmes de arte’, com histórias tristes e complicadas”. 

Se estivesse vivo (ele morreu em 2000 aos 74 anos), o que diria o representante de Hollywood, amigo dos militares, sobre dois filmes brasileiros “tristes e complicados” concorrendo e vencendo o maior prêmio da indústria cinematográfica. 

*A descoberta da carta por Marcelo Mello aconteceu durante a pesquisa de seu doutorado na Universidade Federal de Minas Gerais “Espetáculo e resistência no roteiro cinematográfico inédito de ‘A hora dos ruminantes’”, de 2019. O documento não havia sido revelado na imprensa até agora.

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