Bem-vindo ao campo de batalha: a Copa do Mundo de futebol masculino de 2026 começa como um cartão de visitas da intenção de submeter o planeta à pretensa grandiosidade dos Estados Unidos.
A realização do torneio durante o segundo mandato do presidente Donald Trump aponta para outra experiência autoritária, que invadiu o esporte e redefiniu a história dos Mundiais: sob o controle de Benito Mussolini, a Itália sediou o evento em 1934 e também se empenhou para propagandear um suposto esplendor perante as demais nações.

Projetos de poder e Copas do Mundo
Quando as atenções por todo o planeta se voltam para o futebol, os líderes autoritários procuram um passado mítico para legitimar seus próprios projetos de poder. Mussolini reivindicava as conquistas do Império Romano para justificar a violência generalizada que o regime italiano propunha à época do Mundial.
Em paralelo, Trump tem recorrido aos antecedentes expansionistas do próprio país nos séculos XX e XXI com o slogan “Make America Great Again” (Torne a América Grande Novamente, em português), que deu origem ao movimento conhecido como MAGA. O lema escancara quão autorreferente e ensimesmada é a política estadunidense atual.
A expansão no número de cidades-sede reflete essa retórica: no penúltimo torneio antes da destruição da Europa pela Segunda Guerra Mundial, o roteiro das disputas passou para oito destinos – algo bastante superior à única paisagem da competição anterior. Em 1930, somente Montevidéu havia servido de cenário para os jogos da Copa do Mundo do Uruguai.
Quase um século depois, a megalomania também se manifesta com o aumento no total de locais previstos para receber as partidas.

Seria possível alegar que a organização por três países exigiria, naturalmente, o aumento no número de cidades-sede. Afinal, México e Canadá também são responsáveis pelo calendário com jogos em 16 cidades. É um tamanho inédito para o torneio.
Os Estados Unidos, contudo, concentram 11 dos 16 estádios. Além disso, todos os olhares dos torcedores se voltarão para o MetLife Stadium, em Nova Jersey, no dia 19 de julho, quando os dois finalistas vão se enfrentar para definir quem fica com o troféu.
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Quantos jogos cada país vai sediar
Estados Unidos: 78 jogos (incluindo todas as fases eliminatórias a partir das quartas de final e a grande final).
México: 13 jogos (incluindo o jogo de abertura no Estádio Azteca).
Canadá: 13 jogos.
Os números dos torneios
O total de países também sinaliza a intenção de grandeza. Em 1934, saltou de 13 para 16 o número de seleções que participaram do torneio na Itália. No Mundial da América do Norte, pela primeira vez, 48 equipes serão distribuídas por 12 grupos.
Se as mudanças estão associadas a interesses da Fifa e de confederações espalhadas por diferentes continentes que se sentiam sub-representadas, é inegável que as alterações encontram correspondências em instabilidades políticas de abrangência global.

Na década de 1930, os reflexos da Primeira Guerra Mundial, a agressividade política encarnada pela Itália de Mussolini e por seus aliados colaboraram para as incertezas: isso se intensificou nos anos seguintes com as sucessivas invasões e violações que definiriam a jornada do nazifascismo.
Agora, quase todas as regiões do planeta convivem com conflitos armados, que incluem desde o rapto de um presidente, como vimos na Venezuela, ao bombardeio a usinas de enriquecimento de urânio – fronts em que os Estados Unidos exercem protagonismo.
A comunicação como estratégia
A tentativa de transparecer imponência se vale dos meios de comunicação. A voz de Mussolini permitiu que seu comportamento histriônico chegasse a milhões de ouvintes por aparelhos de rádio, no período em que se expandia a radiodifusão.
Depois de construir uma imagem pública na TV, Trump se utiliza das plataformas digitais para pulverizar perspectivas ambíguas, no limite, odientas, para atingir mais usuários pelos aplicativos.
A despeito dos vários esforços, é possível que todo esse poderio dos Estados Unidos seja redimensionado ainda ao longo do Mundial de 2026. A tentativa de apresentar uma união hemisférica nas Américas esbarra nos atritos com mexicanos e canadenses, já cansados das ameaças de anexações e do desrespeito às soberanias.
Por mobilizarem tamanha paixão, as multidões ao redor do futebol escapam das tentativas de controle e podem ajudar a fazer ruir tanta prepotência. Bola ao centro do gramado; que se iniciem as disputas.
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