João Filho

Bolsonarismo atuou como braço político do ‘banco da máfia’ de Vorcaro

Até o momento, investigações da Polícia Federal apontam que a extrema direita, ao lado do Centrão, apoiou ativamente o Master – o que distancia o escândalo de ser suprapartidário, como defende a grande imprensa.

Bolsonarismo atuou como braço político do 'banco da máfia' de Vorcaro

“Esse negócio de banco, sempre falei, é igual máfia” — parece uma frase de senso comum dita por um tiozão do churrasco justamente incomodado com os bancos. Mas não. É de Daniel Vorcaro em conversa com sua namorada no WhatsApp. O  banqueiro não recorreu a uma hipérbole: estava sendo literal. 

Além de ter uma teia de relacionamentos extensa, que chega em todos os poderes da República, Vorcaro mantinha uma milícia particular para fazer serviço sujo, como, por exemplo, intimidar funcionários; monitorar autoridades e empresários concorrentes; invadir sistemas do Ministério Público Federal, o MPF, para obter dados sigilosos das investigações contra ele; organizar festas com prostitutas; comprar jornalistas; e bater em outros jornalistas. 

Em conversa com seus capangas, falou em forjar uma tentativa de assalto contra um jornalista para poder “quebrar todos os seus dentes”. Um dos integrantes dessa milícia tem um vasto currículo na bandidagem, tendo sido indiciado por roubo de veículos, estelionato, crimes cibernéticos e clonagem de cartões de crédito. É tudo tão mafioso que chega a ser caricato.

Falsa equivalência

A prisão do banqueiro e dos seus capangas, junto com o submundo do poder revelado pelas mensagens do seu celular, deixou muita gente preocupada em Brasília. É fato que Vorcaro buscava manter uma rede de relações com figurões de todos os poderes e de vários partidos. Mas, ao contrário da tese que tem se propagado na grande imprensa, o Banco Master está longe de ser um escândalo suprapartidário. 

Diante de tudo o que se sabe até agora sobre a investigação da Polícia Federal, a PF, dá para dizer com tranquilidade que o braço político de Vorcaro é o consórcio das direitas, leia-se bolsonarismo e Centrão. Isso não é uma novidade, mas é preciso relembrar, porque há muita gente interessada em inflar a ideia de que tanto a direita quanto a esquerda estão igualmente envolvidos nessa lama.

No final de 2024, antes de o escândalo estourar, Vorcaro conseguiu uma conversa com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que chamou dois ministros do governo e Gabriel Galípolo, que era diretor de política monetária do Banco Central à época. Em janeiro deste ano, vários veículos noticiaram que o banqueiro teria reclamado com o presidente sobre a concentração do mercado bancário no Brasil. Lula teria respondido que o tema não era da competência do governo e que deveria ser tratado de forma técnica pelo Banco Central. No celular de Vorcaro, a única menção ao encontro teria sido uma mensagem para a namorada em que ele fala que o encontro com o presidente “foi ótimo”. Isso foi o suficiente para o nome de Lula aparecer nas manchetes do escândalo do Banco Master, sugerindo uma relação espúria com o mafioso. Até o momento, absolutamente nada indica que o governo favoreceu Vorcaro. Menos de um ano depois da reunião com o presidente, o Banco Master foi liquidado pelo Banco Central e, agora, Vorcaro foi preso a pedido da Polícia Federal.

O berço do Master

Se o presidente do Banco Central indicado por Lula liquidou o banco da máfia, o presidente indicado por Bolsonaro estendeu o tapete vermelho. O Banco Master nasceu sob uma estranha benção do Banco Central durante o governo Bolsonaro. A autorização da compra do banco por Vorcaro foi assinada pelo então diretor de fiscalização do Banco Central, Paulo Sérgio Neves de Souza, que depois passou a trabalhar clandestinamente para o banqueiro dentro da autarquia. Segundo a PF, ele e outro funcionário do Banco Central trabalhavam para influenciar as decisões do órgão em favor do Master. Esse homem, que viraria “capanga” de Vorcaro dentro do Banco Central, foi nomeado ao cargo pelo então presidente Jair Bolsonaro. 

As campanhas eleitorais de Bolsonaro e de Tarcísio de Freitas foram irrigadas com dinheiro proveniente da rede de contatos de Vorcaro. Seu cunhado, Fabiano Zettel, que também foi preso nesta semana, era o operador financeiro da quadrilha. Ele foi o maior doador individual das campanhas do governador paulista (R$ 3 milhões) e do ex-presidente e atual presidiário Jair Bolsonaro (R$ 2 milhões) em 2022. Além disso, o presidente do PL, Valdemar da Costa Neto, revelou no início de março que Vorcaro depositou outros R$ 3 milhões direto na conta particular de Bolsonaro, o que é um evidente crime eleitoral.

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Zettel é também pastor da Igreja Batista da Lagoinha, cuja cúpula é fervorosa apoiadora do bolsonarismo. O deputado Nikolas Ferreira é frequentador de uma igreja Lagoinha em Belo Horizonte, assim como a irmã de Daniel Vorcaro, que também é pastora da igreja na capital mineira. Durante a campanha presidencial de 2022, Nikolas e um pastor da Lagoinha percorreram 9 estados em 10 dias para promover a candidatura de Bolsonaro. Todo o trajeto foi feito graças a um avião pertencente a Vorcaro. O deputado, coitado, disse que não sabia quem era o dono da aeronave. Talvez ele tenha imaginado que o avião foi fruto de um milagre operado pelos pastores da Lagoinha. 

‘Grande amigo da vida’

A proximidade da máfia do banqueiro com parlamentares bolsonaristas é um dado inegável. Grandes figurões do bolsonarismo, como o presidente do PP, Ciro Nogueira, aparecem nas mensagens de celular de Vorcaro. Nogueira surge como um dos seus “grandes amigos de vida”. Não é crime ter amizade com um gângster, claro, mas fazer lobby dentro do Congresso para favorecê-lo com emendas parlamentares, é, no mínimo, suspeito. Quando Ciro Nogueira propôs uma emenda que favoreceria o Banco Master, a chamada “Emenda Master”, Vorcaro comemorou em mensagem de texto enviada à namorada. Ela pergunta: “Como está tudo?”. O mafioso responde emocionado com o trabalho que o seu “grande amigo da vida” fez no Congresso: “Demais! Emocionante! kkkk. Ciro soltou um projeto de lei agora que é uma bomba atômica no mercado financeiro! Ajuda os bancos médios e diminui o poder dos grandes! Está todo mundo louco!”. 

Além desses, há uma cacetada de outros nomes bolsonaristas que estão de alguma maneira na teia de relacionamentos. Tem Cláudio Castro, Ibaneis Rocha e mais um monte de bolsonaristas com relações suspeitas com a máfia de Vorcaro. 

E os políticos de esquerda? Bom, o que sabemos até aqui é a existência de uma reunião republicana de Vorcaro com o presidente da República. Depois do encontro, o banco foi liquidado pelo Banco Central e o banqueiro foi preso pela Polícia Federal. Outro ponto que pode gerar suspeita seria a proximidade de Vorcaro com o petista Jacques Wagner, que sugeriu a indicação de Ricardo Lewandowski, que tinha acabado de sair do Supremo Tribunal Federal, o STF, para prestar consultoria jurídica para o Banco Master. Não há crime nisso e, até o momento, nada sugere que isso tenha favorecido Vorcaro. 

Conectado à extrema direita

Diante desse quadro, como é possível decretar que este é um escândalo “suprapartidário”?  O Banco Master nasceu e cresceu no governo Bolsonaro. Seus sócios irrigaram a campanha eleitoral de Bolsonaro. Bolsonaristas trabalharam no Congresso para favorecer o banco.  

Se Bolsonaro tivesse sido reeleito em 2022, hoje teríamos o maior doador financeiro da campanha do presidente envolvido no maior escândalo da República. Ou, pior que isso, o escândalo talvez nem existiria, porque a Polícia Federal estaria impedida de investigar o caso. Essa falsa equivalência tem ficado popularizada na grande imprensa e será usada pelo bolsonarismo para blindar os verdadeiros operadores do lobby pró Banco Master. Parece inacreditável, mas o fato é que, apesar do DNA bolsonarista, o escândalo tem arranhado mais a imagem da candidatura do Lula do que a de Flávio Bolsonaro. Percebam que o filho de Bolsonaro está caladinho sobre o caso. Ele tem desfrutado dessa falsa equivalência, subindo nas pesquisas e sem precisar explicar o envolvimento pornográfico do seu grupo político com os gângsters do Master.

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