Você já ouviu falar na Lei de Godwin? Criada em 1990 pelo advogado Mike Godwin, ela é uma piada crítica contra a banalização das analogias com os nazistas. Segundo a lei, “conforme uma discussão online se prolonga, a probabilidade de surgir uma comparação envolvendo Adolf Hitler ou o nazismo aproxima-se de 100%”.
Apelar para comparações forçadas com Hitler sempre foi sinônimo de falta de boa argumentação. Mas o presidente dos EUA, Donald Trump, desmoralizou essa lei e fez com que até o seu autor considerasse legítimo traçar paralelos entre ele e o ditador alemão.
De fato, Trump é o grande líder do neofascismo no mundo. Não há exagero nessa afirmação. Pode-se debater se a democracia estadunidense está se transformando em uma autocracia de caráter fascista, mas não há — ou pelo menos não deveria haver — um debate sobre se o presidente dos EUA pode ser classificado como um autocrata neofascista.
Impressiona como boa parte da imprensa nacional e internacional se recusa a chamar o que ocorre pelo nome. Essa hesitação diante do fascismo escancarado é um convite para se dançar à beira do abismo. Está se esperando o que para dar nome aos bois? Trump ordenar assassinatos em massa de imigrantes em câmaras de gás?
Faz tempo que o presidente dos EUA preencheu a cartela do bingo do fascismo, mas, nos últimos meses, as coisas ficaram ainda mais escancaradas. Trump deixou claro que não é só mais um autocrata de extrema direita que está destruindo a democracia do seu país, mas um maluco totalitário que quer controlar o destino do mundo.
O estadunidense sequestrou o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e fez questão de deixar claro que o fez para controlar o petróleo daquele país. Invadiu, sequestrou e roubou riquezas naturais daquele país. É uma espécie de colonialismo do século 21.
Trump ainda ameaçou invadir a Groenlândia e provocou a Europa militarmente. Tudo isso na esteira de uma guerra comercial insana, em que ele coloca o revólver em cima da mesa para chantagear o mundo inteiro. Trump está determinado a reescrever uma nova ordem mundial, fazendo com que o mundo se submeta a ele nem que seja na base da porrada. Se fosse um líder de qualquer outro país, seria chamado pela imprensa mundial de ditador ou autocrata.

É claro que o imperialismo dos EUA não começou com Trump, não sejamos ingênuos. Mas agora a coisa escalou e está inegavelmente ganhando contornos expressamente fascistas. Trump espalha o terror externa e internamente. Compará-lo com Hitler não é exagero, mas uma obrigação de quem preza pela precisão dos fatos.
Ele não matou mais de um milhão de imigrantes nem implantou oficialmente um regime fascista, mas a essência do fascismo está vivíssima nele. Hitler não foi um ditador genocida desde o começo. Ele começou criminalizando seus adversários políticos, demonizando imigrantes e minorias, patrulhando universidades, atacando a imprensa e prometendo uma Alemanha grande e pura de novo.
O roteiro vem sendo cumprido à risca por Trump e não há porque imaginarmos que o final será diferente. Não se trata apenas de mais uma aberração autoritária da extrema direita que hoje infesta o mundo, mas de um líder fascista que comanda a maior potência bélica e econômica do planeta.
Depois que o ICE – polícia migratória – foi transformado numa Gestapo do século 21, com homens mascarados saindo às ruas para caçar imigrantes, não dá mais pra perdoar a ingenuidade de quem insiste em retratá-lo como um líder merecedor de respeito.
Trump destinou um orçamento de US$ 175 bilhões para o ICE até 2029, superando o gasto anual de todos os Exércitos do mundo, exceto o da China e dos EUA. É uma força paramilitar que age nas ruas atrás de imigrantes e passando por cima de qualquer um que se opor. Dois cidadãos estadunidenses já foram assassinados.
O ICE virou uma espécie de Ku Klux Klan a serviço de Trump. Também não há exagero nesta avaliação. O caráter supremacista é declarado pelos canais oficiais do governo. Dois dias após um dos assassinatos em Minneapolis, o Departamento de Segurança Interna, DHS, fez uma postagem de recrutamento de soldados para o ICE usando a frase de um hino neonazista: “We’ll have our home again” (Teremos nossa casa de volta, em tradução livre).
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Para não deixar dúvidas das suas intenções, a música do grupo Pine Tree Riots — um grupo declaradamente supremacista — foi anexada à publicação. Outras músicas de autoria do grupo referenciado pelo governo dos EUA incluem uma com a letra “Well, another Charlottesville wouldn’t do us any harm” (Bem, outro Charlottesville não nos faria mal, em tradução livre) – uma referência a ataques da Ku Klux Klan, neonazistas e outros supremacistas brancos contra manifestantes antirracistas em Charlottesville, em 2017.
Essa publicação do DHS não é um caso isolado. O governo Trump já publicou uma série de propagandas com slogans e símbolos neonazistas. Não há qualquer pudor em disfarçar o caráter supremacista em publicações oficiais do governo.
No Brasil, não é só o bolsonarismo que flerta com as ideologias nefastas propagadas por Trump. Há poucos meses, a extrema direita de sapatênis, o MBL, trouxe para palestrar em seu congresso o ideólogo de ultradireita Curtis Yarvin.
‘As conexões da extrema direita brasileira com o neonazismo não são muito diferentes das do trumpismo’.
Trata-se de um “intelectual” proeminente do trumpismo, que defende abertamente a substituição da democracia por governos autoritários de direita. Para ele, a democracia é uma experiência falha, e os programas de direitos civis dos EUA resultaram em “lixo humano absoluto”.
Yarvin já declarou não ter objeção à ideia do supremacismo branco: “embora eu não seja um nacionalista branco, não sou exatamente alérgico a essa questão”. É esse o tipo de canalha intelectual que faz a cabeça do MBL, que agora passará a atormentar a democracia com um partido só seu, o Missão.
Não nos esqueçamos que o deputado federal Kim Kataguiri, futuro líder do Missão, defendeu abertamente o direito dos neonazistas se organizarem em partidos políticos mesmo depois do Holocausto – depois, pediu desculpas e voltou atrás nas declarações. Apesar de todos os sinais emitidos pelo grupelho, a grande imprensa brasileira trata o novo partido como uma opção de direita moderada em relação ao bolsonarismo. Que ninguém finja surpresa no futuro.
As conexões da extrema direita brasileira com o neonazismo não são muito diferentes das do trumpismo. Ainda que aqui a coisa seja mais velada, os fatos mostram que a realidade dos EUA não está tão distante da brasileira.
Mesmo com Jair Bolsonaro e outros líderes extremistas na cadeia, a cadela do fascismo está sempre no cio. Há muita gente disposta a continuar a carregar essas bandeiras nefastas. Há, também, uma imprensa covarde, com medo de dar nome aos bois, apesar de até o criador da Lei de Godwin ter liberado chamar Bolsonaro de nazista.
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