Cecília Olliveira

Segurança pública dominará 2026 e fará eleição virar disputa de poder sobre quem mata e quem morre no Brasil

Ano eleitoral será menos uma escolha de projetos de país e mais uma competição sobre quem administra melhor o medo.

Segurança pública dominará 2026 e fará  eleição virar disputa de poder sobre quem mata e quem morre no Brasil

Não há mais dúvida: a segurança pública será o tema central das eleições de 2026. Não porque a violência tenha explodido de forma inédita, nem porque o país esteja diante de uma crise fora de controle, mas porque o medo se consolidou como o principal ativo político do Brasil contemporâneo. 

A segurança deixou de ser uma política pública entre outras para se tornar uma linguagem de poder, uma estratégia eleitoral e, cada vez mais, um modelo de governo. Prova disso são os posts e anúncios marqueteiros de compra de “armas pesadas”, descolados de planos de segurança, sem a possibilidade de mensurar real custo e impacto. Os candidatos já estão em campanha. E isso responde aos brasileiros, que elegeram a segurança como sua maior preocupação nas últimas pesquisas.

Nos últimos anos, falar de segurança pública passou a ser uma forma eficaz de disputar votos, justificar exceções legais, silenciar críticas e reorganizar alianças políticas. Não se trata mais de apresentar diagnósticos ou soluções estruturais para a violência, mas de oferecer respostas simples, duras e moralizantes para problemas complexos. 

Nesse cenário, a milícia deixa de ser apenas um fenômeno criminal localizado e passa a ocupar um lugar central na compreensão da política brasileira. Durante muito tempo, ela foi tratada como um desvio, uma anomalia restrita ao Rio de Janeiro, resultado da presença anômala do estado em determinados territórios – não da ausência. Essa leitura nunca se sustentou. 

A milícia não cresce onde o estado falta. Ela cresce onde o estado atua de forma seletiva, protege aliados, elimina concorrentes e transforma a violência em ativo econômico e político. Trata-se de uma rede criminosa formada majoritariamente por agentes públicos, que nasce dentro das instituições e se expande a partir delas.

Ratinho Junior, do Paraná, Ronaldo Caiado (ao centro), de Goiás, e Raquel Lyra, de Pernambuco, são alguns dos governadores que têm exaltado gastos com armas e ações de segurança pública (Arte: Rafaela Silva/Intercept)

Ao longo das últimas décadas, a milícia deixou de ser apenas um grupo armado que controla bairros e passou a operar como uma engrenagem sofisticada de poder. Domina territórios, regula mercados, interfere em eleições, controla serviços essenciais e constrói alianças políticas duradouras. Não atua à margem do estado, mas em simbiose com ele. 

O que começou como controle armado de áreas específicas se transformou em um modelo replicável, com lógica empresarial, discurso moralizante e vocação nacional. 

É nesse ponto que a milicianização da política se torna evidente. Ela não depende, necessariamente, de milicianos eleitos ou formalmente identificados como tais. A milicianização ocorre quando candidatos, partidos e governos passam a adotar o método miliciano de governar. Um método baseado no controle territorial pela força, na naturalização da violência como forma de mediação social, na criminalização de adversários políticos e na captura de estruturas do estado para fins privados.

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Essa estratégia se expressa em discursos que prometem mais polícia sem controle, mais armas em circulação, mais licença para matar e menos fiscalização. Em 2026, a disputa eleitoral tende a se organizar em torno de quem se mostra mais disposto a aprofundar esse caminho, apresentando a violência como solução e o endurecimento como virtude. Nada disso é improviso. Trata-se de um projeto político testado, que transforma o caos em plataforma e o medo em voto.

A segurança pública se consolidou como a linguagem eleitoral mais eficiente para justificar retrocessos democráticos. Em nome do combate ao crime, os eleitos flexibilizam garantias legais e enfraquecem-se mecanismos de controle – justamente o contrário do que deveriam fazer para atingir os objetivos que dizem ser a meta. 

Atacam a imprensa, pesquisadores e defensores de direitos humanos e blindam a atuação de agentes do estado. É uma linguagem emocional, simples e eficaz porque oferece culpados claros e soluções rápidas, ainda que ilusórias.

‘A milícia não quer destruir o estado. Quer operá-lo, moldá-lo aos seus interesses e utilizá-lo como ferramenta de poder’.

Nesse cenário, a milícia exerce um papel pedagógico. Ela demonstra, na prática, como é possível governar pela força, explorar economicamente o território, eliminar dissensos e manter apoio político. A expansão desse modelo não é apenas territorial, mas simbólica. Normaliza-se a ideia de que direitos são privilégios, de que a lei pode ser substituída pela força e de que a violência estatal é não apenas aceitável, mas desejável.

A ameaça que esse processo representa à democracia não se manifesta por meio de tanques nas ruas ou golpes clássicos. Ela se dá de forma mais silenciosa e eficaz, por dentro das instituições, com mandatos legítimos, discursos legais e eleições regulares. Tudo parece ok e democrático. A milícia não quer destruir o estado. Quer operá-lo, moldá-lo aos seus interesses e utilizá-lo como ferramenta de poder.

Se nada mudar – e eu duvido que mude –, 2026 será menos uma disputa de projetos de país e mais uma competição sobre quem administra melhor o medo. A segurança pública será o palco onde se decidirá quem pode matar, quem merece proteção e quem é considerado descartável – aprimorando cada vez mais a política em ação nos últimos 40 anos. 

Entender esse processo é fundamental, porque o problema não se resume a quem vencerá as eleições, mas ao modelo de poder que sairá fortalecido delas.

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