A agente da Polícia Federal Letícia da Cunha Padilha admitiu ter espionado o delegado da PF Fábio Shor, responsável por investigações sobre a tentativa de golpe bolsonarista. A confissão foi feita logo que ela veio a público, em dezembro do ano passado, e passou a se apresentar como “descartada pelo sistema” em uma página no Instagram.
Letícia Padilha e o marido, o também agente da PF André de Oliveira Valdez, se mudaram para os Estados Unidos no final de 2024 e, no primeiro semestre de 2025, conseguiram licença não-remunerada de três anos para tratar assuntos pessoais em Arlington, no Texas. A cidade é a mesma em que está morando o deputado federal Eduardo Bolsonaro, do PL de São Paulo, durante seu auto-exílio estadunidense.
O caso foi revelado pelo Intercept Brasil em julho do ano passado. Àquela altura, o casal guardava certa discrição nas redes sociais. Agora, além de Padilha ter iniciado suas atividades como influencer bolsonarista, seu marido também já admite publicamente o alinhamento com a extrema direita brasileira.
Um novo documento obtido pela reportagem revela que Valdez alega ter deixado o país com a esposa por sofrer risco de “retaliação política” e que ambos estariam buscando asilo político nos EUA.
O auto-exílio do casal no exterior chama a atenção porque nenhum dos dois era investigado nos inquéritos sobre a tentativa de golpe de estado liderada por Bolsonaro ou sobre o esquema de espionagem da Abin paralela. Eles, inclusive, permaneceram por quase dois anos trabalhando na PF já no governo Lula.
O casal atuava na Diretoria de Inteligência Policial, a DIP, departamento da Polícia Federal conhecido por ter informações sensíveis. Valdez, por exemplo, chegou a fazer uma varredura no gabinete de Alexandre de Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal, em 2022. A busca no gabinete tinha o objetivo de checar a presença de escutas ilegais.
No último dia 12 de dezembro, nove dias antes de Padilha ir a público nas redes sociais, a Corregedoria da Polícia Federal abriu um Processo Administrativo Disciplinar, PAD, contra ela. Padilha foi afastada preliminarmente da corporação enquanto tramita a investigação interna.

No mês anterior, a licença não-remunerada da policial já havia sido suspensa. Ela deveria ter voltado ao trabalho a partir de 17 de novembro de 2025, mas permaneceu fora do país. O processo disciplinar contra a agente é sigiloso e a PF disse, em nota oficial, que não irá se manifestar.
O Intercept também procurou Letícia em 19 de dezembro. Padilha não respondeu aos questionamentos. Mas, dois dias depois, criou o perfil no Instagram em que já publicou quatro vídeos e promete revelar “a verdade” sobre a Polícia Federal.
O perfil ganhou 20 mil seguidores na primeira semana, e conta com o apoio de influenciadores de extrema direita, como o blogueiro Allan dos Santos, foragido da Justiça e que também vive nos Estados Unidos.
Uso de sistema da PF
No último dia 26 de dezembro, Padilha publicou um vídeo em que admite ter consultado o nome do delegado Fábio Shor em um sistema interno da Polícia Federal. Ela diz que pesquisou o nome “Fábio Shor” e em seguida apenas o sobrenome “Shor”. A agente alega, na gravação, que fez isso por medo, após ver um carro parado na porta da escola do filho, com pessoas dentro e os vidros fechados.
“Eu consultei o nome do delegado Fábio Shor. Eu queria saber se ele estava nos Estados Unidos. Porque quem é da área sabe que, em uma missão internacional, dificilmente vem a equipe sem o delegado responsável junto”, declarou Padilha.

A agente ainda justifica que pesquisou o nome de Shor por causa da relação dele com o ministro Alexandre de Moraes, do STF. “‘Por que, Letícia, consultar o Fábio Shor?’ Porque todo mundo sabe dentro da Polícia Federal: Alexandre de Moraes, Fábio Shor. Eu nem estou falando quem é cachorrinho de ninguém aqui, eu só falei da situação”.
Na ocasião da pesquisa no sistema, a agente estava afastada de suas funções e, segundo a própria PF, não deveria ter esse acesso. Em julho do ano passado, a PF disse ao Intercept que servidores licenciados por interesse particular não têm acesso aos sistemas de informação da corporação.
“Qual a lógica disso, deixar um acesso disponível e ativo, e depois usar isso contra o servidor? Eu não tinha nada para esconder”, defendeu a servidora afastada, que ainda diz entender que sua consulta foi legítima pela sua segurança e de sua família.
Eduardo Bolsonaro chegou a citar o delegado Fábio Shor em uma transmissão ao vivo no dia 20 de julho do ano passado. “Cachorrinho da Polícia Federal que tá me assistindo, deixa eu saber não. Se eu ficar sabendo sa quem é você… Ah, eu vou mexer aqui. Pergunta ao tal delegado Fábio Shor se ele conhece a gente”, disse o parlamentar na ocasião. Na época, o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, declarou que a intimidação seria investigada.
A reportagem pediu um posicionamento da PF, mas não obteve retorno até a publicação da matéria. O espaço segue aberto.
Da PF ao asilo nos EUA
As intenções declaradas do casal de policiais federais para deixar o país apareceram também em um documento que o Intercept teve acesso, que faz parte de um processo de revisão do valor de pensão alimentícia, no qual André Valdez é réu.
O advogado do agente declarou neste documento que ele e a esposa estão buscando asilo político nos Estados Unidos porque estariam sofrendo perseguição no Brasil.
“O réu reconvinte [André Valdez] e sua esposa foram obrigados a abrir mão de seus salários de policiais federais e deixar o país sob pena de sofrerem injusta e ilegal retaliação simplesmente por manifestarem publicamente sua posição política”, escreveu o advogado de Valdez.

Ainda no documento, a defesa de André Valdez alega que o casal de agentes busca asilo político nos Estados Unidos por meio de processo próprio. Atualmente, o visto de ambos seria de turistas, o que impediria trabalho regularizado no país.
“[Valdez] tem sobrevivido com o auxílio de membros de sua igreja, moradores dos Estados Unidos e das parcas reservas que havia acumulado”, disse a defesa do agente.
Esses detalhes não aparecem nos vídeos que Letícia Padilha publicou no Instagram no último mês. Ela afirma apenas que houve um planejamento familiar para ficar três anos fora do país, e que ela está com problemas de saúde.
Questionada, Padilha escreveu, em mensagem ao Intercept, que iria avaliar se se manifestaria, mas não houve retorno até o fechamento desta reportagem – apenas a criação da página do Instagram. Já Valdez alegou que o Intercept está sendo usado para tentar “esquentar uma acusação esdrúxula”.
O homem das escutas na PF
Antes de pedir asilo político nos Estados Unidos, André Valdez era lotado no setor da DIP dentro do prédio da PF no Setor Policial Sul, em Brasília. Padilha ficava na sede da PF, localizada na W3 Norte, também na capital federal.
O agente é especialista em instalar escutas ambientais e câmeras escondidas autorizadas pela justiça.
Uma de suas funções era realizar varreduras em órgãos públicos para checar a presença de escutas clandestinas. Na rotina de Brasília, é corriqueiro esse tipo de varredura para impedir espionagem ilegal.
Valdez conseguiu sua licença não-remunerada a partir de 16 de abril, menos de um mês após Eduardo Bolsonaro anunciar que se mudaria para os Estados Unidos.
Letícia Padilha é especialista em investigações de crimes cibernéticos. Durante o governo Lula, era substituta eventual do chefe da Divisão de Prospecção e Gerenciamento de Ferramentas de Inteligência.
O casal é natural do Rio Grande do Sul e, apesar da discrição, já dava indícios de ligação com o bolsonarismo. Padilha comemorou, em publicação nas redes sociais, a eleição de Donald Trump, e Valdez é amigo pessoal do deputado Ubiratan Sanderson, do PL gaúcho, que também é servidor da PF.
Conversei com o deputado Sanderson no dia 10 de setembro, e ele afirmou que não sabia que o amigo estava nos Estados Unidos e garantiu que eles não conversam desde 2022.
Para comprovar, o parlamentar mostrou seu WhatsApp no celular, em que a última mensagem de Valdez era um convite para um churrasco, em abril de 2022. “Eu não falo com ele o tempo todo”.
Além disso, Sanderson disse que é amigo de Eduardo Bolsonaro, e afirmou que não há relação entre o casal e o filho de Bolsonaro. “Por que vocês não fazem investigação sobre o Jean Willys e a facada?”, tergiversou.
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