Estamos prestes a conhecer uma “internet pós-EUA”, porque estamos entrando em uma era pós-EUA e um mundo pós-EUA. Parte disso é obra do Trump, e parte é responsabilidade de seus antecessores.
Quando pensamos no “século americano”, nos concentramos justamente no hard power dos EUA: as invasões, bases militares, exportações de armas e golpes da CIA. Mas foi o soft power que estabeleceu e manteve a verdadeira dominância dos EUA, a “interdependência instrumentalizada” que Henry Farrell e Abraham Newman descrevem em seu livro de 2023, The Underground Empire.
Como Farrell e Newman expõem, os EUA se estabeleceram como mais do que uma potência global – eles são uma plataforma global. Se você quer comprar coisas de outro país, usa dólares, que são mantidos em uma conta do banco central dos EUA, o Federal Reserve, que você envia por meio do sistema SWIFT, controlado pelos EUA. Se você quer transmitir dados através das fronteiras, é bem provável que use um link de fibra que faz o primeiro contato nos EUA, o centro global do sistema de telecomunicações mundial.
Ninguém sério realmente acreditava que esses sistemas dos EUA fossem completamente confiáveis, mas havia sempre uma suposição de que, se os EUA fossem instrumentalizar (ou, com mais maldade, manipular) o dólar, ou a fibra óptica, eles o fariam de forma sutil, seletiva e criteriosa. Mas o que recebemos foram as revelações de Snowden, de que os EUA estavam abusando de sua posição no centro da rede mundial de fibra óptica para espionar praticamente todas as pessoas do mundo – senhores e vassalos, presidentes e plebeus.
O que recebemos foi o confisco das reservas cambiais da Argentina pelos EUA para pagar fundos abutres que compraram títulos desvalorizados da dívida argentina por centavos de dólar, e depois simplesmente saquearam o tesouro de um país para recuperar um empréstimo que nunca fizeram. O que recebemos foi o sistema SWIFT mobilizado para alcançar objetivos táticos da Guerra ao Terror e das sanções Rússia-Ucrânia.
Esses sistemas não são mais confiáveis. É como se o sistema de freios do mundo começasse a apresentar uma falha intermitente, mas ainda tivéssemos que seguir dirigindo pela estrada a 100km/h, procurando desesperadamente alguma outra forma de controlar o sistema, mas obrigados a depender desse mecanismo crucial e não confiável, enquanto isso.
Esses processo já estava bem adiantado antes de Trump, mas a beligerância ilimitada de Trump só acelerou o processo – mostrando a todos nós que uma parada de emergência pode ser necessária no futuro próximo, e aumentando a urgência de encontrar uma alternativa aos freios problemáticos dos EUA. Com sua política comercial (tarifas) e seu discurso, Trump encerrou o debate.
Uma das questões mais urgentes que Trump vem obrigando o mundo a enfrentar é o que faremos em relação ao controle dos EUA sobre a internet. Com isso, penso tanto no controle abstrato de “governança” (como o fato de que a ICANN é uma empresa estadunidense, sujeita à coerção do governo dos EUA), quando no fato de que praticamente todos os governos, grandes e pequenas empresas, e residências mantêm seus dados (arquivos, e-mails, registros) em algum armazenamento das big techs dos EUA (também sujeitas ao controle do governo dos EUA).
Quando Trump e a Microsoft conspiraram para fechar o Tribunal Penal Internacional, retirando seu acesso ao Outlook e ao pacote Office365 (em retaliação ao TPI por emitir um mandado de prisão contra o genocida Benjamin Netanyahu), o mundo percebeu. Trump e a Microsoft imobilizaram o TPI, efetivamente paralisando suas operações. Se eles conseguiram fazer isso com o TPI, poderiam fazer o mesmo com qualquer órgão de governo, qualquer empresa de importância nacional, qualquer governante – qualquer um. Foi um ato flagrante de guerra cibernética, em nada diferente dos hackers russos que inutilizaram as usinas elétricas ucranianas (exceto pelo fato de que a Microsoft não precisou hackear o Outlook, ela é proprietária dele).
A medida deu força às frequentes observações de Trump de que os EUA não têm mais aliados, nem parceiros comerciais – apenas concorrentes e adversários. Esse tem sido o recado implícito – e também explícito – das tarifas de Trump, desde o “dia da libertação”, em 2 de abril de 2025.
Quando os americanos falam sobre as tarifas de Trump, o ponto central é o que elas podem causar ao custo de vida nos EUA. Mas quando outros países discutem as tarifas, eles se preocupam com a forma como isso vai impactar seus mercados exportadores, e se seus governantes se dobrarão às exigências absurdas dos Estados Unidos.
Isso faz sentido: os EUA estão tomados por uma tremenda crise de custo de vida, e ao contrário do que Trump afirma, não se trata de um boato dos democratas. E sabemos disso porque (como o jornal satírico The Onion aponta) “os democratas jamais adotariam uma questão relevante como plataforma”.
Mas há um outro aspecto relevante das tarifas que é muito subestimado, e que é, no final das contas, muito mais importante do que as mudanças de curto prazo nos planos de outros países de tributar as gigantes de tecnologia dos EUA. A saber: durante décadas, os EUA usaram a ameaça de tarifas para obrigar seus parceiros comerciais a adotarem políticas que impediam suas próprias empresas de tecnologia de concorrerem com as gigantes estadunidenses do setor.
A mais importante dessas exigências de políticas de defesa das big techs pode ser chamada de “legislação contra adulteração”. São leis que proíbem alterar a forma como um produto funciona sem permissão do fabricante: por exemplo, modificar a impressora para aceitar cartuchos genéricos, modificar o carro para que possa ser consertado por uma oficina independente, ou modificar o celular ou um console de videogame para permitir o uso de uma loja de aplicativos de terceiros.
Essa proibição de modificação significa que, quando uma gigante de tecnologia dos EUA usa seus produtos para roubar dinheiro e/ou informações privadas de pessoas em outros países (ou seja, “merdificação”), ninguém pode dar ao povo as ferramentas para escapar desses golpes. Os investidores domésticos do país não podem investir nas startups tecnológicas locais, que não podem fazer os produtos de desmerdificação, que também não podem ser exportados globalmente, para qualquer pessoa com uma conexão à internet e um método de pagamento.
É um duplo golpe: o povo é saqueado, e as empresas são asfixiadas. O mundo inteiro ficou mais pobre, na casa de trilhões de dólares, por causa desse golpe. E o único motivo para todos tolerarem isso foram as ameaças de tarifas pelos EUA caso se recusassem.
Mas agora as tarifas estão aí, e se alguém ameaça queimar sua casa se você não cumprir as ordens, e depois queima a sua casa mesmo assim, você realmente não precisa continuar seguindo essas ordens.
É um argumento que venho apresentando em muitas ocasiões recentemente, inclusive em um evento no Canadá, onde defendi que, em vez de retaliar os EUA com tarifas, o Canadá deveria legalizar a engenharia reversa, e entrar em campo atacando diretamente as maiores margens de lucros das empresas mais lucrativas dos Estados Unidos. Isso poderia deixar tudo melhor e mais barato no Canadá, e transformar os trilhões fraudulentos das big techs americanas em bilhões canadenses, vendendo essas ferramentas para o resto do mundo.
Há muitas razões para gostar desse plano. Não só é um duplo golpe reverso – que deixa tudo mais barato e fatura bilhões em um novo setor doméstico de tecnologia de importância global – mas também está indiscutivelmente dentro da esfera de poder do Canadá. Afinal, é muito difícil conseguir que as gigantes americanas de tecnologia façam o que não querem. O Canadá tentou fazer isso com o Facebook, e falhou miseravelmente.
A União Europeia – uma entidade muito mais poderosa que o Canadá – vem tentando fazer a Apple abrir sua App Store, e a Apple vem reiteradamente mandando os europeus à merda.
A Apple, aliás, como uma empresa realmente inovadora, criou muitas novas formas de mandar a UE à merda.
Mas todo governo tem controle total e absoluto sobre a legislação contra adulteração. Talvez o Canadá não possa obrigar Apple, Google e Facebook a pagarem impostos, mas pode definitivamente parar de dar a essas empresas estadunidenses acesso aos tribunais canadenses para fechar as concorrentes canadenses e permitir que as empresas dos EUA continuem roubando dados e dinheiro do povo canadense.
O fato de que as tarifas de Trump sobem e descem a depender da sua saúde mental significa que qualquer pessoa que esteja tentando fazer um planejamento futuro de algo que espera exportar para os EUA pode presumir que haverá tarifas infinitas no dia em que o contêiner de transporte for carregado.
Mas a ameaça das tarifas também soa cada vez mais vazia por outro motivo: o poder de consumo dos americanos está entrando em colapso, porque bilionários e saqueadores acumularam toda a riqueza do país, e ninguém mais consegue comprar as coisas.
Os Estados Unidos estão nas garras de seu terceiro episódio consecutivo de “recuperação econômica em forma de K”.
Uma recuperação em forma de K acontece quando os mais ricos enriquecem ainda mais, mas todo o restante fica em situação pior. Os trabalhadores estadunidenses estão ficando cada vez mais pobres desde a década de 1970, ao mesmo tempo em que o patrimônio dos mais ricos disparou.
O declínio do poder econômico dos americanos comuns tem várias causas: salários estagnados, monopólios que praticamente preços abusivos, e os aumentos vertiginosos dos custos de educação, moradia e saúde. Tudo isso tem, claro, a mesma causa de fundo: a captura de ambos os partidos políticos – e dos tribunais e dos órgãos administrativos – pelos bilionários, que neutralizaram a legislação concorrencial, aumentaram os preços da assistência de saúde e do ensino superior, destruíram os sindicados, e encurralaram o mercado imobiliário inteiro.
Há décadas, o poder de compra nos EUA vem respirando por aparelhos por meio do endividamento dos consumidores e das hipotecas secundárias (ou terciárias, ou quaternárias). Mas as empresas monopolistas de cartões de crédito nos Estados Unidos são tão capazes de praticar preços abusivos quanto os hospitais, universidades e locadores de imóveis, e por isso os americanos não só têm mais dívida de cartão de crédito que as pessoas de outros países, eles também pagam mais por essa dívida.
A questão é que cada dólar empregado em serviço da dívida é um dólar que não pode ser usado para comprar alguma coisa útil. Um dólar de consumo tem o potencial de gerar várias transações indiretas, uma vez que o comerciante pode gastar o seu dólar em um café, e o dono do café pode gastar comendo fora, e o dono do restaurante gasta em uma gráfica local para imprimir um novo conjunto de cardápios. Mas um dólar enterrado no mercado de dívida é quase imediatamente transferido da economia real para a economia financeira especulativa, e acaba aterrissando no bolso de algum ricaço do 1%, que vai comprar ações ou outros ativos com ele.
Os ricos não compram coisas o bastante. Há um limite para quantas Lamborghinis, quantos Picassos e quantas geladeiras Sub-Zero até o plutocrata mais guilhotinável pode possuir com alguma utilidade.
Enquanto isso, os consumidores continuam a ter seu poder de compra desviado para os cobradores de dívidas e aumentadores de preços, com a ajuda de Trump. O Partido Republicano acabou de obrigar oito milhões de estudantes com dívidas a retomarem seus pagamentos.
Eles encerraram um processo por monopólico contra a Pepsi e Walmart, por conluio para manipular preços de itens de supermercado.
Validaram o uso de algoritmos de definição de preços para aumentar os aluguéis.
Como Tim Wu demonstra em seu novo livro, The Age of Extraction, uma das consequências de permitir a precificação monopolista é que ela reduz o poder de compra da economia inteira.
Usando a eletricidade como exemplo: você provavelmente pagaria sua conta de luz mesmo que ela triplicasse. Claro, você encontraria formas de economizar energia e eliminaria muitos usos opcionais, mas quem pode pagar pela energia elétrica, paga, se a alternativa é não ter eletricidade. A eletricidade – como a saúde, a moradia, a alimentação e a educação – é tão essencial que você deixaria de lado as férias, um carro novo, os presentes de Natal, refeições em restaurante, um novo casaco, ou uma consulta veterinário do gato, se essa fosse a única forma de manter as luzes acesas.
A inabalável solidariedade de classe de Trump com o segmento que extorque aluguéis, cobra dívidas e manipula preços acelerou significativamente o colapso do poder de consumo da população dos EUA (também chamada “crise de acessibilidade econômica”).
Mas fica ainda pior: o poder de compra da população não se limita aos dólares que as pessoas gastam, também inclui os dólares que o governo gasta em nome delas, com programas como o SNAP (um auxílio alimentação) e os programas de saúde Medicaid/Medicare. Esses programas foram cortados até o osso e mais um pouco por Trump, Musk (e o extinto DOGE, que ele comandou) e a maioria de republicanos no Congresso.
O motivo pelo qual outros países levaram tão a sério a ameaça de tarifas pelos EUA – o suficiente para prejudicar seu próprio setor de tecnologia e retirar as proteções de sua população contra a tecnologia dos EUA – é que os Estados Unidos historicamente compravam muitas coisas. Para qualquer economia exportadora, os EUA eram um mercado fundamental, essencial.
Mas isso vem diminuindo nas últimas décadas, enquanto a turma do Lamborghini acumulava cada vez mais riqueza, e o restante da população passou a poder comprar cada vez menos. Em menos de um ano, Trump reduziu o poder de consumo de uma parcela crescente da população dos EUA a níveis próximos ao do período de racionamento da Segunda Guerra Mundial.
O que resta da economia americana é um apanhado de truques baratos que estão sempre perto de desmoronar. A maior parte dessa economia é sustentada pela construção de data centers para uma inteligência artificial que ninguém quer, e que não há como alimentar, graças aos ataques de Trump contra as energias renováveis. De resto, são partes iguais de marketing multinível, labubus, lafufus, especulação com criptomoedas, e apostas por aplicativo em jogos de azar degenerados.
Nada disso é bom. Tudo isso é terrível. Mas trago aqui para destacar que “faça o que eu digo ou os americanos não vão mais comprar as suas coisas” vai se tornando uma ameaça vazia, uma vez que a maioria dos americanos não consegue mais comprar nada.
Os EUA estão ficando sem pauzinhos para mexer e obrigar o resto do mundo a fazer o que eles querem. Os combustíveis fósseis estadunidenses estão sendo superados cada vez mais por uma explosão de painéis solares chineses baratos e duráveis, além de inversores, baterias e outras tecnologias relacionadas.
E os EUA não têm mais como ameaçar suspender a ajuda humanitária para ganhar vantagens com outros países – a ajuda externa que eles oferecem caiu para níveis homeopáticos.
Além do mais, vai ficar cada vez mais difícil para os EUA entrarem com tanques em qualquer lugar, até mesmo atravessando a ponte para o Canadá, agora que Pete Hegseth está expurgando das tropas todo mundo que não puder comprar um Ozempic.
E o Congresso acabou de remover dos militares estadunidenses o direito de consertar, o que significa que o Pentágono será obrigado a manter sua orgulhosa tradição de enviar de volta aos EUA para reparos seus geradores, veículos e materiais quebrados.
Em algum momento, algum governo estrangeiro vai se dar conta de que pode ganhar bilhões assaltando as gigantes de tecnologia dos EUA que estão drenando a economia, e, com isso, se defender contra a guerra cibernética de Trump – que pode mandar a Microsoft (ou a Oracle, a Apple, o Google) paralisar seus principais ministérios e empresas. Quando isso acontecer, as big techs dos EUA vão gritar, como sempre.
Mas o dinheiro fala mais alto. Há uma geração de tecnólogos de primeira linha expulsos dos EUA por capangas mascarados da polícia de imigração (ICE), que queriam jogá-los em um campo de concentração, e um público enorme de investidores querendo uma taxa de retorno, mas sem orçamento para gastar em $TRUMP todo mês e continuar operando.
Para um cara que propõe “América em primeiro lugar”, Trump parece decidido a acabar com o século americano.
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