Todos os sinais indicam que os os grandes grupos de mídia estão dispostos a contribuir com a repaginação do candidato Flávio Bolsonaro. Mas essa candidatura precisa ser tratada como ela é: uma ameaça real à democracia e à soberania brasileira.
Ao contrário do que dizem certos analistas políticos de araque, o bolsonarismo moderado não existe. É uma ficção criada para facilitar a aceitação desse grupo de extremistas, cujo caráter autoritário e fascistóide é intrínseco.
Flávio Bolsonaro herdou o trono do bolsonarismo do seu pai e virou a maior liderança da gangue golpista fora do sistema carcerário. Ele é o candidato representante do grupo político que tentou tomar de assalto a democracia e incitou uma das maiores potências econômicas e bélicas do mundo, os Estados Unidos, a punir o Brasil. A sua candidatura é uma séria ameaça ao país e é — ou deveria ser — uma obrigação do jornalismo tratá-la com o devido rigor.
Até a ombudsman da Folha de S.Paulo já percebeu. Flávio Bolsonaro perdeu o sobrenome nas manchetes e virou apenas “Flávio”. E não é só na Folha que ele tem sido tratado com benevolência.
Tão golpista quanto
Mas houve exceções, como o comentarista político da Globonews Merval Pereira, que surpreendentemente destoou da boiada e falou o que todos deveriam estar falando: “Tem uma coisa muito clara aí: o bolsonarismo já tentou dar um golpe, portanto, isso não vai mudar. Por que vai mudar? Por que o filho do golpista vai virar um democrata? Não há porquê. Então, a chance de o Flávio se eleger presidente e tentar dar um golpe existe. A chance de Lula se eleger presidente e tentar dar um golpe não existe.” Trata-se de uma constatação elementar. Não é preciso ser um esquerdista para chegar a essa conclusão. Basta ser minimamente honesto com os fatos. As coisas precisam ser chamadas pelo nome.
“Flávio” é tão golpista que, antes mesmo de ser escolhido candidato, afirmou que seu pai só apoiaria uma candidatura que prometesse o indulto para tirá-lo da cadeia. Mais que isso: ele defendeu abertamente um golpe no Supremo Tribunal Federal, o STF, em 2027 caso o tribunal não acate o indulto.
O senador é também um entreguista de mão cheia e, assim como seu irmão Eduardo Bolsonaro, defendeu que o Brasil deveria ceder plenamente aos desejos do governo americano, ao falar, em julho do ano passado, sobre o tarifaço imposto pelo presidente dos EUA, Donald Trump. Caso contrário, segundo ele, poderíamos estar sujeitos a ser bombardeados como Hiroshima e Nagasaki.
Quintal do Tio Sam
É esse o nível de sabujice do candidato da extrema direita. A soberania está em jogo, e a escolha do próximo presidente será decisiva para o futuro do país. Não há dúvidas de que Trump irá interferir em seu favor como fez em Honduras e na Argentina. O risco de virarmos o principal quintal do Tio Sam na América do Sul é real.
Além de golpista e entreguista, “Flávio” também sempre teve fortes ligações com o crime organizado. Seu gabinete de deputado estadual virou cabide de emprego para os parentes de Adriano da Nóbrega, chefe da milícia Escritório do Crime, que é um notório grupo de matadores de aluguel do Rio de Janeiro. Esse passado nunca é lembrado no noticiário, apesar de ser um contexto fundamental para toda notícia relacionada a ele.
LEIA TAMBÉM:
- Grande imprensa minimiza Centrão no escândalo do Banco Master e ajuda Flávio Bolsonaro
- Flávio Bolsonaro perde sobrenome nas manchetes: a maquiagem da imprensa para suavizar o ‘Zero Um’
- Flávio Bolsonaro representa a farsa do bolsonarismo moderado nas eleições
Quase ninguém mais se lembra das lambanças corruptas de Fabrício Queiroz, da lojinha da Kopenhagen e dos prédios da milícia que foram financiados pelo “Flávio”. Há que se fazer um enorme contorcionismo intelectual e moral para classificar esse cara como alguém de perfil “moderado”.
Assim, vai se criando a imagem de que o filho mais velho de Jair é mais sensato e equilibrado do que seu pai. Ele seria, digamos assim, um candidato democraticamente mais palatável que o pai. É exatamente esse o objetivo da candidatura Flávio Bolsonaro: vender a imagem de um integrante da família Bolsonaro diferenciado dos demais.
Normalização do golpismo
A imprensa tem contribuído com isso ao normalizar um candidato golpista, entreguista e com passado de envolvimento com milicianos. Na prática, está se concedendo uma anistia moral para o grupo político que representa o golpismo. Eles podem ter o seu próprio candidato e voltar a ameaçar a democracia novamente.
[pullquote pull="right"]'A imprensa tem contribuído com isso ao normalizar um candidato golpista, entreguista e com passado de envolvimento com milicianos'.[/pullquote]
É verdade que quase metade do eleitorado está predisposta a apoiar uma candidatura golpista em um segundo turno contra Lula. É triste ter que admitir que a candidatura de Flávio Bolsonaro é juridicamente legítima e endossada por parte relevante da população. Imagino que não seja fácil para quem fatura com cliques contrariar uma fatia tão grande da audiência. Só que bom jornalismo não se faz a reboque dos sentimentos do povo, mas da realidade dos fatos.
É preciso coragem. Falas como a de Merval Pereira devem ser repetidas, por mais que isso desagrade o patronato. É preciso deixar claro que Flávio Bolsonaro é um candidato farsante, que até agora não apresentou um projeto para o país. É só a velha ladainha extremista e fascistoóide de sempre. Não há uma ideia inovadora ou uma proposta concreta para nenhum setor importante. Claro, ele não tem compromissos com o povo, apenas com Trump, os golpistas e os milicianos.
Não é razoável tratar um sujeito desse nível como um candidato como os outros. Quanto mais nos distanciamos na linha do tempo do 8 de janeiro, mais vai se normalizando o golpismo. A população deve ser lembrada, a todo momento, que esse postulante à presidência da República representa os golpistas, os milicianos e os interesses dos EUA. Não é apenas uma obrigação jornalística, mas uma questão de sobrevivência. Não há jornalismo onde não há democracia. Os profissionais do jornalismo, sejam de esquerda ou direita, têm a obrigação moral de militar pela democracia. Se “Flávio” vencer a eleição, há grandes chances de vermos jornalistas ocuparem o lugar dos golpistas na cadeia.
DOE FAÇA PARTE
Intercept Brasil existe para produzir jornalismo sem rabo preso que você não encontra em nenhum outro lugar.
Enfrentamos as pessoas e empresas mais poderosas do Brasil porque não aceitamos nenhum centavo delas.
Dependemos de nossos leitores para financiar nossas investigações. E, com o seu apoio, expusemos conspirações, fraudes, assassinatos e mentiras.
Neste ano eleitoral, precisamos colocar o maior número possível de repórteres nas ruas para revelar tudo o que os poderosos querem esconder de você.
Mas não podemos fazer isso sozinhos. Precisamos de 300 novos apoiadores mensais até o final do mês para financiar nossos planos editoriais. Podemos contar com seu apoio hoje?

