Big techs se escondem atrás de outras empresas para operar data centers no Brasil

Big techs se escondem atrás de outras empresas para operar data centers no Brasil

Usando intermediárias com pouca ou nenhuma experiência no ramo, gigantes da tecnologia se blindam de danos reputacionais e só aparecem quando já deu tudo certo – para elas.

Big techs se escondem atrás de outras empresas para operar data centers no Brasil

A boiada da IA

Parte 13

O aumento da demanda por inteligência artificial tornou o Brasil especialmente interessante para fornecer infraestrutura para big techs. Vale a pena? Nossa série investiga o impacto da indústria de data centers no Brasil.


O que têm em comum uma empresa de energia eólica, uma consultoria para sociedades anônimas de futebol e uma gestora de projetos de tecnologia cuja sede fica em um consultório odontológico? Todas estão diretamente envolvidas na construção de data centers de grande porte no Brasil – embora tenham pouca ou nenhuma experiência no ramo.

Na prática, elas atuam para esconder a participação e interesse das big techs nos empreendimentos, em especial na fase inicial dos projetos. É o que está ocorrendo, por exemplo, nas cidades de Caucaia, no Ceará; Limeira, no interior de São Paulo; Maringá, no Paraná; e Uberlândia, em Minas Gerais. 

O negócio se dá assim: empresas frequentemente sem histórico algum no ramo de data centers assumem o processo burocrático ligado à instalação desse tipo de infraestrutura, o que inclui desde pedidos de conexão de energia até o licenciamento ambiental. Quando todo o processo é concluído, alguma big tech entra em cena e assume o projeto, seja adquirindo ações ou alugando o espaço. 

A estratégia não é acidental: faz parte do modus operandi de como se dá o desenvolvimento destas megainfraestruturas ao redor do mundo. À medida que a resistência contra data centers se fortalece devido ao significativo impacto socioambiental por trás desses empreendimentos, que consomem muita água e energia, as grandes empresas de tecnologia tentam minimizar os danos às suas reputações causados por esses projetos – e contam com a conivência do poder público para ocultar informações-chave. 

No fim das contas, o ônus recai sobre as comunidades no entorno, que frequentemente só ficam sabendo sobre o data center e sobre o verdadeiro “cliente” quando o processo já se encontra em fase avançada. 

“O que estamos vendo no Brasil não é uma exceção – é o manual de data centers. Poderosas empresas de tecnologia rotineiramente se protegem atrás de intermediários, NDAs [acordos de confidencialidade] e desenvolvedores de fachada para evitar o escrutínio público e, ao mesmo tempo, garantir mudanças de zoneamento, incentivos fiscais e aprovações de infraestrutura”, disse ao Intercept Brasil Myaisha Hayes, diretora sênior de mobilização da MediaJustice, uma organização sem fins lucrativos dos Estados Unidos que atua pela justiça econômica, racial e de gênero na era digital. 

‘O que estamos vendo no Brasil não é uma exceção – é o manual de data centers’.

Nos Estados Unidos, moradores do Arizona passaram a se opor a um grande projeto de data center pelo seu potencial uso hídrico em uma região desértica, desenvolvido por uma empresa de infraestrutura que avançava sob o codinome “Project Blue”. Foi um veículo investigativo local, o Arizona Luminaria, que descobriu e revelou que o cliente por trás do empreendimento era a Amazon Web Services. 

O grupo de moradores agora está processando o condado de Pima por ter falhado em detalhar quão avançadas estavam as negociações quando houve uma votação para mudança no zoneamento da cidade. 

“Essa estratégia [de se proteger atrás de intermediários] visa avançar projetos para além do ponto de participação pública antes mesmo que os moradores saibam com quem estão negociando. O resultado é um fracasso democrático: às comunidades são negadas as informações de que precisam para avaliar o impacto ambiental, o uso de energia, o acesso à água e as contrapartidas econômicas de longo-prazo”, acrescentou Hayes. 

No Brasil, já há registro de pelo menos quatro processos que seguiram esse manual. Um deles é o data center do TikTok, em Caucaia, no Ceará. A empresa responsável pelo desenvolvimento do projeto, desde o acesso à eletricidade até o licenciamento ambiental, foi a Casa dos Ventos, uma das maiores empresas de energia renovável do Brasil – mas que não tinha até então nenhuma experiência no ramo de data centers. 

Até setembro de 2024, a Casa dos Ventos era uma empresa de sociedade limitada cuja atividade econômica restringia-se a empreendimentos eólicos. Naquele mês, converteu uma de suas dezenas de subsidiárias, chamada Ventos de Santa Ester Energias Renováveis, em sociedade anônima e alterou seu objeto social para empresa de tratamento de dados. Em dezembro, deu entrada no processo da licença prévia do data center de Caucaia junto à Superintendência do Meio Ambiente do Ceará, a Semace. 

Em menos de três meses, a empresa deixou de ser apenas uma eólica, adentrou o segmento de data centers e abocanhou um contrato para construir um data center avaliado em R$ 200 bilhões,o primeiro do TikTok no Brasil. 

O nome do TikTok, ligado à chinesa ByteDance, só veio à tona quando o Intercept revelou, em abril de 2025, que a empresa estava por trás do projeto. Apenas oito meses depois, em dezembro, o TikTok confirmou publicamente seu envolvimento. A Casa dos Ventos atualmente já não têm mais ligação com o projeto. Isso porque, em dezembro, a Omnia, braço de data centers do fundo de investimentos Pátria, comprou a participação da eólica no data center de Caucaia. 

Empresa que atua com futebol pressionou para mudar zoneamento

Um outro caso emblemático ocorreu em Limeira, cidade do interior de São Paulo. Em abril de 2024, a SAF Play, uma empresa cuja atividade principal é a gestão de negócios esportivos, enviou ofícios para a prefeitura detalhando que, junto a uma empresa parceira chamada CBRE, estava interessada em viabilizar a instalação de uma multinacional no município que tem como uma de suas atividades econômicas a de data center.

O ofício também solicitava que fosse feita uma mudança no Plano Diretor da cidade para transformar uma área rural em área urbana. O objetivo informado por representantes da empresa, segundo os documentos obtidos pelo Intercept, era o de viabilizar a aquisição do terreno pela multinacional, já que há uma lei federal no Brasil que impõe entraves burocráticos a empresas estrangeiras que buscam adquirir áreas rurais. 

Em menos de quatro meses, a SAF Play e a CBRE não só conseguiram o aval da prefeitura como contaram com sua ajuda para defender a urgência do projeto e aprovar a mudança no Plano Diretor no Conselho Municipal de Planejamento e Gestão Territorial Ambiental de Limeira, o Complan.

Conforme mostra a ata da reunião do Complan, na qual dois representantes da SAF Play apresentaram o projeto, secretários municipais recomendaram aos conselheiros para se manifestarem “bastante favoráveis” a esse tipo de iniciativa. 

Foi também durante essa reunião que representantes da SAF Play disseram aos conselheiros que não havia “com o que se preocupar” quanto ao aspecto ambiental, “pois se trata de uma empresa multinacional, que respeita todos os princípios de compliance, ESG, ou seja, tudo que é necessário na questão ambiental”. 

Trecho de ata de reunião do Conselho Municipal de Planejamento e Gestão Territorial Ambiental de Limeira (Foto: Reprodução)

Na Câmara Municipal, a mudança foi inicialmente rejeitada. Vereadores que votaram contra a proposta apontaram a falta de transparência em torno do nome da empresa e dos impactos socioambientais do projeto, além de destacarem que seria uma mudança legal que privilegiaria empresas estrangeiras.  Três semanas depois, a mudança foi novamente colocada em votação e acabou aprovada por unanimidade.

Uma fonte que trabalha na Câmara Municipal e pediu para não ser identificada, por temer represálias, relatou ao Intercept que, entre as votações, os vereadores sofreram “grande pressão” de um funcionário da CBRE. Segundo ela, o funcionário ligou diversas vezes para os vereadores, inclusive para o presidente da Câmara, e fez um encontro com os vereadores durante o recesso legislativo para convencê-los a aprovar o projeto – ainda que tenha se negado a dar qualquer informação sobre a empresa por trás do data center. 

No início de agosto de 2024, a lei foi sancionada pelo então prefeito, Mário Celso Botion, do PSD. Foi só em outubro, às vésperas das eleições municipais, que foi anunciado pelo prefeito que a empresa por trás do data center era a Microsoft. Até então, o nome da big tech não havia aparecido, nem mesmo nos processos aos quais tivemos acesso. 

O data center da Microsoft em Limeira nunca foi construído. A prefeitura alega que as tratativas foram encerradas em outubro de 2024. Durante um programa de televisão após o fim de seu mandato, o ex-prefeito Botion foi questionado se teria inventado sobre a negociação com a empresa. Ele apresentou, então, o que disse ser um termo de confidencialidade que teria sido assinado em julho daquele ano, entre a prefeitura e a Microsoft, representada, segundo ele, pela então gerente geral da empresa no Brasil, Tania Cosentino. 

Em setembro de 2024, a Microsoft havia anunciado um investimento de R$ 14,7 bilhões para expandir a infraestrutura de nuvem e IA em data centers no estado de São Paulo. Mais recentemente, em fevereiro de 2026, a empresa anunciou a inauguração de dois data centers no estado de São Paulo, mas não detalhou as localizações por “motivos de segurança”. No site da Microsoft, há informações sobre data centers em Hortolândia e Sumaré, mas não é especificado se esses são os dois que foram inaugurados. 

O Intercept enviou uma série de perguntas à assessoria de imprensa da Microsoft no Brasil. A empresa disse que preferia não se posicionar sobre o projeto do data center de Limeira e também ignorou os questionamentos sobre os empreendimentos em Hortolândia e Sumaré. 

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A SAF Play disse, em resposta aos nossos questionamentos, que atua também na captação, regularização e comercialização de áreas para fins empresariais e que foi chamada para as negociações pela CBRE “devido à nossa proximidade e conhecimento da região de Campinas e Piracicaba”. A empresa disse ainda que teve conhecimento do envolvimento da Microsoft apenas após assinatura de “instrumentos contratuais autorizando os estudos das áreas” e que os contratos possuíam cláusulas de exclusividade e confidencialidade, “algo comum para esses negócios”. 

A prefeitura de Limeira esclareceu que toda a negociação com as empresas se deu na gestão anterior, do ex-prefeito Mário Botion. O município disse ainda que abriu sindicâncias para apurar os fatos relacionados a essas tratativas. Uma delas, inclusive, está apurando os motivos pelos quais o termo de confidencialidade apresentado por Botion em uma entrevista, assinado pela Microsoft, está apenas em posse dele e não se encontra em nenhum processo administrativo oficial.

“Não há qualquer documento na prefeitura de Limeira que mencione a empresa Microsoft, motivo pelo qual a referida sindicância foi instaurada para apurar por qual motivo o ex-prefeito propôs a alteração no Plano Diretor, alterando o zoneamento de uma área rural distante da área urbana e das melhorias, nem por qual motivo este divulgou, de forma ampla, em período eleitoral, nas mídias, que a empresa Microsoft se instalaria no município como uma suposta conquista da gestão”, disse a atual administração municipal. 

Empresa com pouca experiência no ramo anuncia investimento bilionário em MG e PR

A estratégia das big techs de esconder seu interesse enquanto uma empresa intermediária inicia o projeto também se dá por meio do aluguel de estruturas sob sigilo. Dois exemplos disso ocorrem em Uberlândia, cidade do Triângulo Mineiro, e Maringá, no Paraná. 

Em ambos os casos, quem assina a empreitada oficialmente é a empresa RT-One, que se apresenta como uma multinacional de tecnologia com presença estratégica nos Estados Unidos, México e Suíça. Em seu site, a RT-One diz que desenvolve “soluções de IA personalizadas” para atender “empresas que querem liderar a nova economia digital, com alta performance, segurança e escalabilidade”. 

Isso significa que a empresa desenvolve a infraestrutura e constrói o data center para depois alugá-lo para um ou mais clientes. No ramo, essa modalidade é conhecida como “co-location”. 

Segundo uma entrevista do CEO da empresa, Fernando Palamone, ao site Teletime, quase 70% da capacidade computacional do data center de Uberlândia já foi contratada – embora ele não revele quem é o cliente. Em seu site, a empresa lista como parceiros grandes nomes da tecnologia e da indústria de IA como Google, Oracle e a fabricante de chips Nvidia.

Mas não há nenhum data center em operação no mundo cujo nome esteja publicamente associado à RT-One. No Brasil, tanto o data center de Uberlândia quanto o de Maringá têm CNPJs específicos, abertos entre agosto e setembro de 2025. A empresa do data center de Maringá está registrada na Junta Comercial de São Paulo, com endereço na zona oeste da cidade, e capital de R$ 12 milhões. 

Mas há ainda uma outra empresa da qual Palamone é sócio: a Core-One. A empresa foi criada para “gerenciar projetos de data centers no Brasil”, segundo um post no Linkedin sobre um evento no qual Palamone participou. O endereço da empresa registrado junto à Receita Federal é o mesmo de um consultório odontológico na zona oeste de São Paulo. O CNPJ foi aberto em dezembro de 2024, antes dos data centers, e o capital social declarado foi de R$ 450 mil.

Clínica odontológica é indicada como sede da gestora de data centers Core-One
Sobre o supermercado fica a clínica odontológica indicada como sede da gestora de data centers Core-One (Foto: Laís Martins)

Esses fatos chamaram a atenção de Amanda Gondim, vereadora pelo PSB em Uberlândia, que apontou inconsistências entre o porte da empresa e o porte do empreendimento anunciado. 

“Como uma empresa de pequeno porte que nunca atuou nesse setor vai ter R$ 6 bilhões para investir em um data center do tipo mais raro e complexo que existe no mundo, que é um data center de inteligência artificial?”, disse Gondim, durante uma fala na Câmara Municipal

‘Como uma empresa de pequeno porte que nunca atuou nesse setor vai ter R$ 6 bilhões para investir em um data center de inteligência artificial?’

Em setembro do ano passado, a vereadora enviou um ofício à prefeitura solicitando esclarecimentos acerca da parceria com a RT-One. Em resposta, a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico e Inovação afirmou que o projeto será submetido, em momento oportuno, aos “respectivos órgãos de controle e fiscalização”. O Intercept enviou questões para a prefeitura de Uberlândia, mas a assessoria de imprensa do município não respondeu, enviando apenas o link para um release no site da administração. 

Em resposta a questionamentos do Intercept, a RT-One disse que já opera infraestruturas de data center através de parcerias no México, Estados Unidos e Europa. A empresa disse ainda que tanto o data center de Maringá quanto o de Uberlândia serão ocupados por diferentes clientes, cujos nomes não foram revelados. “Em projetos de infraestrutura digital, é comum que contratos sejam protegidos por cláusulas de confidencialidade e assim, por estratégia comercial e contratual, os nomes dos clientes não são divulgados”, disse a empresa, em nota.

A RT-One disse também que as obras do data center de Uberlândia devem começar até o final de março. Por fim, esclareceu que a Core One é uma das marcas do grupo RT-One.

Para Hayes, diretora do MediaJustice, o antídoto à falta de transparência de empresas e autoridades é a pressão pública organizada. “Exigindo leis de transparência com firmeza, rejeitando sigilo em acordos municipais e insistindo que as comunidades tenham um lugar à mesa antes que as decisões sejam tomadas”, disse. 

Essa reportagem foi produzida em parceria com a AI Accountability Network do Pulitzer Center.

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