João Filho

Já passou da hora de chamar Trump pelo que ele é: o grande líder do neofascismo mundial

Trump não é só mais um autocrata de extrema direita destruindo a democracia dos EUA, mas um maluco totalitário que quer controlar o destino do mundo.

Donald Trump, presidente dos EUA, tenta alcançar um boné MAGA no dia em que discursou sobre tarifas na Casa Branca (Foto: Carlos Barria/Reuters/Folhapress)

Você já ouviu falar na Lei de Godwin? Criada em 1990 pelo advogado Mike Godwin, ela é uma piada crítica contra a banalização das analogias com os nazistas. Segundo a lei, “conforme uma discussão online se prolonga, a probabilidade de surgir uma comparação envolvendo Adolf Hitler ou o nazismo aproxima-se de 100%”. 

Apelar para comparações forçadas com Hitler sempre foi sinônimo de falta de boa argumentação. Mas o presidente dos EUA, Donald Trump, desmoralizou essa lei e fez com que até o seu autor considerasse legítimo traçar paralelos entre ele e o ditador alemão. 

De fato, Trump é o grande líder do neofascismo no mundo. Não há exagero nessa afirmação. Pode-se debater se a democracia estadunidense está se transformando em uma autocracia de caráter fascista, mas não há — ou pelo menos não deveria haver — um debate sobre se o presidente dos EUA pode ser classificado como um autocrata neofascista. 

Impressiona como boa parte da imprensa nacional e internacional se recusa a chamar o que ocorre pelo nome. Essa hesitação diante do fascismo escancarado é um convite para se dançar à beira do abismo. Está se esperando o que para dar nome aos bois? Trump ordenar assassinatos em massa de imigrantes em câmaras de gás? 

Faz tempo que o presidente dos EUA preencheu a cartela do bingo do fascismo, mas, nos últimos meses, as coisas ficaram ainda mais escancaradas. Trump deixou claro que não é só mais um autocrata de extrema direita que está destruindo a democracia do seu país, mas um maluco totalitário que quer controlar o destino do mundo. 

O estadunidense sequestrou o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e fez questão de deixar claro que o fez para controlar o petróleo daquele país. Invadiu, sequestrou e roubou riquezas naturais daquele país. É uma espécie de colonialismo do século 21.

Trump ainda ameaçou invadir a Groenlândia e provocou a Europa militarmente. Tudo isso na esteira de uma guerra comercial insana, em que ele coloca o revólver em cima da mesa para chantagear o mundo inteiro. Trump está determinado a reescrever uma nova ordem mundial, fazendo com que o mundo se submeta a ele nem que seja na base da porrada. Se fosse um líder de qualquer outro país, seria chamado pela imprensa mundial de ditador ou autocrata.  

Donald Trump, presidente dos EUA, tenta alcançar um boné MAGA no dia em que discursou sobre tarifas na Casa Branca (Foto: Carlos Barria/Reuters/Folhapress)
Donald Trump tenta alcançar um boné MAGA (Make America Great Again ou Faça a América Grande Novamente, em tradução livre) durante evento na Casa Branca (Foto: Carlos Barria/Reuters/Folhapress)

É claro que o imperialismo dos EUA não começou com Trump, não sejamos ingênuos. Mas agora a coisa escalou e está inegavelmente ganhando contornos expressamente fascistas. Trump espalha o terror externa e internamente. Compará-lo com Hitler não é exagero, mas uma obrigação de quem preza pela precisão dos fatos. 

Ele não matou mais de um milhão de imigrantes nem implantou oficialmente um regime fascista, mas a essência do fascismo está vivíssima nele. Hitler não foi um ditador genocida desde o começo. Ele começou criminalizando seus adversários políticos, demonizando imigrantes e minorias, patrulhando universidades, atacando a imprensa e prometendo uma Alemanha grande e pura de novo. 

O roteiro vem sendo cumprido à risca por Trump e não há porque imaginarmos que o final será diferente. Não se trata apenas de mais uma aberração autoritária da extrema direita que hoje infesta o mundo, mas de um líder fascista que comanda a maior potência bélica e econômica do planeta. 

Depois que o ICE – polícia migratória – foi transformado numa Gestapo do século 21, com homens mascarados saindo às ruas para caçar imigrantes, não dá mais pra perdoar a ingenuidade de quem insiste em retratá-lo como um líder merecedor de respeito. 

Trump destinou um orçamento de US$ 175 bilhões para o ICE até 2029, superando o gasto anual de todos os Exércitos do mundo, exceto o da China e dos EUA. É uma força paramilitar que age nas ruas atrás de imigrantes e passando por cima de qualquer um que se opor. Dois cidadãos estadunidenses já foram assassinados.  

O ICE virou uma espécie de Ku Klux Klan a serviço de Trump. Também não há exagero nesta avaliação. O caráter supremacista é declarado pelos canais oficiais do governo. Dois dias após um dos assassinatos em Minneapolis, o Departamento de Segurança Interna, DHS, fez uma postagem de recrutamento de soldados para o ICE usando a frase de um hino neonazista: “We’ll have our home again” (Teremos nossa casa de volta, em tradução livre). 

LEIA TAMBÉM:

Para não deixar dúvidas das suas intenções, a música do grupo Pine Tree Riots — um grupo declaradamente supremacista — foi anexada à publicação. Outras músicas de autoria do grupo referenciado pelo governo dos EUA incluem uma com a letra “Well, another Charlottesville wouldn’t do us any harm” (Bem, outro Charlottesville não nos faria mal, em tradução livre) – uma referência a ataques da Ku Klux Klan, neonazistas e outros supremacistas brancos contra manifestantes antirracistas em Charlottesville, em 2017.  

Essa publicação do DHS não é um caso isolado. O governo Trump já publicou uma série de propagandas com slogans e símbolos neonazistas. Não há qualquer pudor em disfarçar o caráter supremacista em publicações oficiais do governo. 

No Brasil, não é só o bolsonarismo que flerta com as ideologias nefastas propagadas por Trump. Há poucos meses, a extrema direita de sapatênis, o MBL, trouxe para palestrar em seu congresso o ideólogo de ultradireita Curtis Yarvin. 

‘As conexões da extrema direita brasileira com o neonazismo não são muito diferentes das do trumpismo’.

Trata-se de um “intelectual” proeminente do trumpismo, que defende abertamente a substituição da democracia por governos autoritários de direita. Para ele, a democracia é uma experiência falha, e os programas de direitos civis dos EUA resultaram em “lixo humano absoluto”. 

Yarvin já declarou não ter objeção à ideia do supremacismo branco: “embora eu não seja um nacionalista branco, não sou exatamente alérgico a essa questão”. É esse o tipo de canalha intelectual que faz a cabeça do MBL, que agora passará a atormentar a democracia com um partido só seu, o Missão. 

Não nos esqueçamos que o deputado federal Kim Kataguiri, futuro líder do Missão, defendeu abertamente o direito dos neonazistas se organizarem em partidos políticos mesmo depois do Holocausto – depois, pediu desculpas e voltou atrás nas declarações. Apesar de todos os sinais emitidos pelo grupelho, a grande imprensa brasileira trata o novo partido como uma opção de direita moderada em relação ao bolsonarismo. Que ninguém finja surpresa no futuro.

As conexões da extrema direita brasileira com o neonazismo não são muito diferentes das do trumpismo. Ainda que aqui a coisa seja mais velada, os fatos mostram que a realidade dos EUA não está tão distante da brasileira. 

Mesmo com Jair Bolsonaro e outros líderes extremistas na cadeia, a cadela do fascismo está sempre no cio. Há muita gente disposta a continuar a carregar essas bandeiras nefastas. Há, também, uma imprensa covarde, com medo de dar nome aos bois, apesar de até o criador da Lei de Godwin ter liberado chamar Bolsonaro de nazista.

PRECISAMOS DAS SUAS IDEIAS

O Intercept Brasil precisa da sua ajuda para definir sua estratégia editorial. É muito importante.

Nossa redação não tem patrão nem rabo preso. Somo 100% financiados por quem acredita em jornalismo independente: você.

Por isso sua opinião é fundamental para nós. E sua resposta é como uma doação.

Responda um breve questionário. É uma contribuição acessível a todos e ajuda a definir o futuro do Intercept.

Esta pesquisa leva menos de 3 minutos e vai ajudar a orientar nossas próximas investigações e iniciativas.

Cada resposta conta.
 

PARTICIPE AGORA

Inscreva-se na newsletter para continuar lendo. É grátis!

Este não é um acesso pago e a adesão é gratuita

Já se inscreveu? Confirme seu endereço de e-mail para continuar lendo

Você possui 1 artigo para ler sem se cadastrar