“É como um jogador cavando uma falta”. É assim que o pastor Hermes Fernandes, da comunidade Ninho da Fênix e fundador da Igreja Reina, define a postura de seu ex-colega de faculdade Silas Malafaia, pastor da Igreja Assembleia de Deus Vitória em Cristo.
Para Fernandes e outros pastores ouvidos pelo Intercept Brasil, ao atacar o ministro do STF Alexandre de Moraes e orientar o ex-presidente Jair Bolsonaro a reagir, Malafaia deseja provocar a sua própria prisão e capitalizar politicamente em cima disso.
Malafaia passou a ser investigado no inquérito que apura ataques a ministros do STF e ações de coação e obstrução de justiça contra autoridades brasileiras. Em meio às investigações que miram Jair Bolsonaro e o seu filho, o deputado Eduardo Bolsonaro, do PL de São Paulo, Malafaia foi alvo de uma operação da PF de busca e apreensão no dia 20 de agosto, no Rio de Janeiro.
Em depoimento à PF, o pastor ficou calado. Mas, depois, classificou a operação como uma “vergonha”. “Que país é esse? Que democracia é essa? Eu não vou me calar. Vai ter que me prender pra me calar”, afirmou. Em vídeo, disse que ficou sabendo da acusação pela imprensa, falou em “perseguição” e acusou a Polícia Federal de estar “a serviço de Lula e de Alexandre Moraes”.
Para lideranças evangélicas ouvias pelo Intercept, o plano de Malafaia é se apresentar daqui por diante como vítima de uma suposta perseguição religiosa.
Há um precedente histórico para essa avaliação. Em maio de 1992, o bispo Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus, foi preso por 11 dias numa delegacia da Vila Leopoldina, na zona oeste de São Paulo, por decisão da 21ª Vara Criminal de São Paulo. Ele era acusado de estelionato, charlatanismo e curandeirismo.
A Igreja Universal cresceu e se fortaleceu a partir daí, na avaliação de líderes religiosos. Edir Macedo disse, na ocasião, que sua igreja era como “uma omelete, quanto mais bate, mais cresce”.
À época, líderes evangélicos se uniram em abraços simbólicos, ao lado de uma multidão de fiéis, aos prédios do modesto distrito policial e também da Assembleia Legislativa de São Paulo.
‘Ele vem tensionando com esse objetivo de caracterizar uma perseguição religiosa, que não existe’.
Até o petista Luiz Inácio Lula da Silva, combatido e visto pela Igreja Universal como um “demônio” quando disputou a eleição presidencial pela primeira vez em 1989, três anos antes, viu naquele momento a prisão de Macedo como perseguição.
“Esse é o sonho de consumo do Malafaia. É uma coisa muito falada entre os pastores: Malafaia quer ser preso, se dizendo vítima também. Eles acham que isso pode beneficiar a igreja”, afirma o pastor Hermes Fernandes. “Tem muita gente que, diante das câmeras, nas lives que eles fazem, lamenta a perseguição, quando na verdade está celebrando a possibilidade de ser perseguido. Porque isso só dá força ao movimento”.
“Ele vem tensionando com esse objetivo de caracterizar uma perseguição religiosa, que não existe. Mas ele vende a ideia como se existisse. Vem flertando com esse tipo de acinte ao ministro do STF e querendo tirar o Alexandre de Moraes para dançar”, corrobora o pastor Sergio Dusilek, da Igreja Batista de Marapendi, no Rio de Janeiro.
“Malafaia parece ter uma estratégia de tentar caracterizar que o governo persegue os evangélicos em algum sentido, mesmo sabendo que Alexandre de Moraes não é governo”, completa Dusilek, ex-presidente da Convenção Batista Carioca.
Entramos em contato para questionar Silas Malafaia a respeito das alegações dos religiosos, mas não houve resposta. “Tem de estar louco querer ser preso. Isso jamais, mas ele não tem medo da ditadura da toga”, disse ao Intercept o deputado Sóstenes Cavalcante, líder do PL e pastor da Assembléia de Deus Vitória em Cristo, homem de confiança do Malafaia. “São coisas diferentes”.
Após ser incluído nas investigações pela PF, Malafaia reclamou nas redes sociais da falta de apoio. Segundo ele, “até amigos” teriam deixado de se manifestar a seu favor.
Foi articulado um manifesto de apoio a ele no meio evangélico, mas poucos líderes religiosos de expressão assinaram o documento. Entre os signatários, estavam o bispo Abner Ferreira, da Assembleia de Deus Madureira; Estevam Hernandes, da Igreja Renascer; e o pastor Claudio Duarte, do ministério Projeto Recomeçar.
Outros líderes evangélicos conservadores, como Edir Macedo, o missionário RR Soares, da Igreja Internacional da Graça e o apóstolo Valdemiro Santiago, da Igreja Mundial do Poder de Deus, não assinaram o documento. Há receio entre os religiosos, observa o pastor Fernandes, de que possam surgir mais denúncias contra Malafaia devido à apreensão de seu telefone celular pela PF.
Prisão seria ‘coroação’ de ministério de Malafaia
Diante da provável condenação de Jair Bolsonaro em seu julgamento no STF a partir da próxima terça-feira, 2 de setembro, e sua consequente prisão, Malafaia quer liderar uma campanha popular para denunciar, além da suposta perseguição aos bolsonaristas, a alegada perseguição religiosa no país. A prisão do próprio pastor seria também uma “coroação” de seu ministério religioso, a Assembleia de Deus Vitória em Cristo.
“Se fala isso no meio. De acordo com essa avaliação, seria a coroação do ministério do Malafaia, ao mesmo tempo em que alimentaria ou reforçaria a narrativa de perseguição religiosa. Seria como uma nova facada do Bolsonaro”, diz Fernandes.
“O meu receio é que isso acabe deflagrando uma nova onda, de perseguição religiosa, que se use alguma coisa ou se busque notícias pelo Brasil, de qualquer fato isolado, que possa reforçar essa narrativa”, acrescenta. “Essa bobagem vai emplacar entre os evangélicos, principalmente entre os pentecostais e neopentecostais”.
O discurso de Malafaia deve ter ressonância, no entender de Fernandes, devido à escatologia (a doutrina referente aos acontecimentos do fim do mundo e da humanidade) defendida por grupos e evangélicos como os liderados por Malafaia.
“É uma perseguição religiosa que precederia a volta de Jesus. Há uma paranoia nesse meio com perseguição. Porque essa perseguição sinalizaria que Jesus estaria agora às portas. Então, qualquer coisa que aconteça é a grande tribulação, o nome que eles usam. O evento que precederia a volta de Jesus dentro da concepção escatológica. Então, a perseguição, para eles, é importante no contexto político. É importante no contexto escatológico. Para eles, é a maior de todas as honras”.
LEIA TAMBÉM:
- Universal e Assembleia de Deus já miram eleição de 2026 de olho na herança de Bolsonaro e em mais poder no Congress
- Bispo evangélico Hermes Fernandes é ameaçado e decide deixar o país após apoiar Lula
- Apocalipse nos trópicos, da Netflix, irrita Malafaia e erra ao simplificar força de evangélicos na política
Fernandes comunga a mesma opinião de outros líderes evangélicos progressistas de que a prisão de Malafaia pode ser “contraproducente do ponto de vista da democracia”. “Acho que tem que se pensar muitas vezes antes de prender Malafaia”, pondera.
Ele sugere, inclusive, que o ministro Moraes devolva os cadernos de anotações de Malafaia apreendidos pela Polícia Federal – nos quais ele registraria detalhes sobre seus sermões –, para evitar que o pastor utilize mais esse fato para corroborar a tese de suposta perseguição religiosa.
Fernandes acredita que Malafaia também possa querer se colocar como uma possível alternativa para a candidatura à presidência da República, já que Bolsonaro está inelegível até 2030 e sua família descarta apoiar outros nomes, entre eles o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, do Republicanos. “Caso não emplaquem outra candidatura, pode ser que ele, Malafaia, aproveite a onda”, afirma Fernandes.
Malafaia e Fernandes são psicólogos. Os dois estudaram Psicologia na mesma época na Universidade Gama Filho, no Rio, entre 1995 e 1997. Não eram do mesmo período, mas se encontravam no pátio e corredores.
Malafaia já era pastor e um “agitador”, conta Fernandes. “Naquele momento, ela já ia ao programa ‘25ª Hora’, na TV Record, para elogiar o Edir Macedo”. Hermes Fernandes é filho do missionário Cecílio Carvalho Fernandes (morto em 2001), que era o líder da Casa da Benção, nos anos 1970, quando se recusou a ordenar como pastor o então pregador iniciante Edir Macedo, que passou rapidamente por essa denominação antes de fundar a Igreja Universal.
Malafaia tem “traços histriônicos”, segundo seu colega Fernandes. “Falando como psicólogo, em certo sentido, Malafaia é um personagem criado por ele mesmo. E é refém desse personagem. Nem tudo o que ele diz em frente das câmeras ele acredita. Ele mesmo me disse isso certa vez, no início dos anos 2000, após um debate em que participei com ele”, revela Fernandes.
O pastor Sergio Dusilek acredita que, após o julgamento e a provável prisão de Bolsonaro, o ex-presidente “deve ser descartado”, e Malafaia, então, tentará herdar ao menos uma parte do espólio bolsonarista, por meio de influência em uma outra candidatura à presidência no campo da direita. “Ele tentará ter peso numa outra eventual candidatura”, aposta.
O Intercept é sustentado por quem mais se beneficia do nosso jornalismo: o público.
É por isso que temos liberdade para investigar o que interessa à sociedade — e não aos anunciantes, empresas ou políticos. Não exibimos publicidade, não temos vínculos com partidos, não respondemos a acionistas. A nossa única responsabilidade é com quem nos financia: você.
Essa independência nos permite ir além do que costuma aparecer na imprensa tradicional. Apuramos o que opera nas sombras — os acordos entre grupos empresariais e operadores do poder que moldam o futuro do país longe dos palanques e das câmeras.
Nosso foco hoje é o impacto. Investigamos não apenas para informar, mas para gerar consequência. É isso que tem feito nossas reportagens provocarem reações institucionais, travarem retrocessos, pressionarem autoridades e colocarem temas fundamentais no centro do debate público.
Fazer esse jornalismo custa tempo, equipe, proteção jurídica e segurança digital. E ele só acontece porque milhares de pessoas escolhem financiar esse trabalho — mês após mês — com doações livres.
Se você acredita que a informação pode mudar o jogo, financie o jornalismo que investiga para gerar impacto.