Ex-funcionários do Instituto Vital Brazil, no Rio de Janeiro, afirmam que tinham que devolver metade do salário e não compareciam à empresa – mas, sim, a eventos políticos do então candidato Otoni de Paula.

'Entrou, não tem como sair'

Ex-funcionários relatam agressão e ameaças depois de entrar em rachadinha em instituto no RJ


O engenheiro Renato*, 66 anos, denunciou à polícia ter sido vítima de agressão e disse estar impedido de sair de casa desde o fim de 2022 devido a ameaças de morte. Tudo porque decidiu tornar público um esquema de rachadinha no qual alega ter sido envolvido. 

O caso, segundo ele, aconteceu no Instituto Vital Brazil, um centro de produção de soros e medicamentos e pesquisas para controle de doenças, em Niterói, vinculado à Secretaria de Saúde do Estado do Rio de Janeiro. 

Seu relato ao Intercept Brasil traz indícios de um suposto esquema de devolução ilegal de salários que acontecia em plena pandemia de covid-19, quando uma instituição terceirizada abocanhou contratos emergenciais multimilionários com o instituto.

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Os responsáveis pelo esquema, ele diz, eram ligados à campanha de reeleição do deputado federal fluminense Otoni de Paula, do MDB, em 2022. Otoni concorria em dobradinha com seu pai, Otoni de Paula Pai, candidato a deputado estadual – ambos foram eleitos.

Renato e um amigo – o comerciante Bruno*, de 35 anos – começaram a trabalhar no Vital Brazil em maio de 2022. Eles eram funcionários terceirizados pelo Instituto Brasileiro de Planejamento e Gestão, o IBPG, uma instituição privada que mantém contratos com o Vital Brazil.

Para trabalhar no Instituto Vital Brazil, via IBPG, o pagamento combinado era de R$ 4,4 mil a Renato e R$ 4 mil a Bruno. Mas Renato alega que os dois eram obrigados a devolver metade do salário. O engenheiro apontou ao Intercept que o chefe do esquema no IBPG seria Fabiano Andrade Vidal, ligado ao deputado federal Otoni de Paula.  

Segundo Renato, Vidal trabalhou como cabo eleitoral para o deputado durante as eleições de 2022 e convocou ele e Bruno para participar de um ato na campanha e a integrar um grupo de apoio ao candidato nas redes sociais. 

Ex-funcionários afirmam que não precisavam ir ao trabalho – mas a eventos de Otoni de Paula. Foto: Mario Agra/Câmara dos Deputados)

Procurado, Otoni de Paula não respondeu às perguntas enviadas pelo Intercept. Fabiano Vidal também não respondeu aos questionamentos e, em contato telefônico, atacou os denunciantes. “O senhor, por acaso, viu a vida pregressa dessas pessoas, procurou saber? Levantou a minha vida e a deles? Qual o modus operandi delas, de querer tomar dinheiro dos outros, de querer extorquir os outros? Primeiro, faz isso depois pode me procurar. Vocês vão incorrer em erro”, afirmou.  

O Intercept não localizou qualquer ação judicial contra os dois denunciantes. Vidal disse que um deles, sem especificar, teria “causado a maior confusão ao não aceitar ser demitido”. 

Ele não revelou qual era o seu cargo no IBPG, disse apenas que se desligou há um ano, que o instituto “é privado e tem um dono”, mas não seria ele. Não informou, no entanto, onde seria possível obter mais detalhes sobre a atuação do instituto. 

Instituto afirma ter adotado ‘medidas administrativas para garantir a transparência nos processos de trabalho’.

Vidal também disse, sem dar detalhes, que a justiça eleitoral do Rio teria recebido e não comprovado denúncias sobre o IBPG. O Intercept procurou o Tribunal Regional Eleitoral do Rio que, em resposta, disse que não localizou nenhum processo envolvendo Otoni de Paula Filho e seu pai, o IBPG e o Instituto Vital Brazil. A autoridade eleitoral esclareceu, porém, que essa resposta não inclui eventuais processos em segredo de justiça.

Questionado sobre outros elementos da denúncia, Vidal, exaltado, disse que não tinha tempo a perder e que iria bloquear o repórter. No site do IBPG não há informações sobre os objetivos, áreas de atuação da instituição e seus dirigentes. 

Sobre as denúncias de Renato e Bruno, a  Secretaria Estadual de Saúde do Rio de Janeiro, em nome do Instituto Vital Brazil, informou que não tinha conhecimento. Disse que o controle interno e a ouvidoria da instituição não receberam qualquer relato dessa suposta irregularidade. 

Os funcionários que fizeram a denúncia, segundo a Secretaria, foram demitidos em janeiro de 2023 por mudanças administrativas. O instituto afirma ter adotado “medidas administrativas para garantir a transparência nos processos de trabalho e na produtividade das equipes”, como pontos biométricos, revisão de contratos e entregas de material. 

Contratado para não trabalhar

O IBPG presta serviços para várias prefeituras do Rio de Janeiro, como as de Saquarema, Itaguaí, Guapimirim e Nilópolis. 

Na prefeitura de Itaguaí, em 2021, o IBPG prestou serviços de assessoria técnica, abocanhando um contrato de R$ 5,8 milhões. Na de Guapimirim, em 2017, ofereceu consultoria técnica, firmando um contrato de R$ 2,4 milhões. Na prefeitura de Nilópolis, em 2023, a entidade organizou edital para concurso público para cargos como agentes administrativo e legislativo e técnicos em finanças e web. 

O IBPG entrou no Vital Brazil em 2021, no auge da pandemia de covid-19. Segundo o Instituto Vital Brazil, os contratos foram firmados por meio de processo licitatório e o IBPG fornece relatórios “validados e aprovados pelos fiscais de contrato”. 

As cifras pagas pelo Vital Brazil ao IBPG são multimilionárias: mais de R$ 100 milhões ao longo de três anos, em diversos acordos, para assumir serviços administrativos e operacionais do instituto. 

Além de materiais de saúde, os contratos prevêem o fornecimento de serviços de “gestão estratégica e gestão de imagem” (R$ 4,7 milhões), “operação e serviços de gestão de ambiente” (R$ 4,4 milhões) e “difusão do conhecimento e gestão da produção” (R$ 4,7 milhões). Os dois últimos foram firmados em caráter emergencial.  

‘Falaram que a gente não precisava ir no local do trabalho’.

No ano seguinte, 2022, o IBPG obteve dois novos contratos, já com valores quintuplicados. Os serviços nas áreas administrativa, comercial e financeira, no total de R$ 23,4 milhões, foram depois elevados, em 2023, para R$ 46,9 milhões, e os de processos de negócio industrial e científico, inicialmente a R$ 24,6 milhões, depois foram reajustados para R$ 49,3 milhões. 

Renato foi contratado em maio de 2022 pelo IBPG como administrador, com o salário inicial de R$ 4,4 mil. Em setembro, teve um aumento e passou a receber R$ 5,6 mil. O seu amigo Bruno, como assistente administrativo, continuou com os mesmos R$ 4 mil que recebia.

O engenheiro disse que ele e o amigo foram indicados para o trabalho por uma conhecida, Patrícia Júnia Barcelos, apontada como companheira de Fabiano Andrade Vidal. Fabiano não confirmou ao Intercept se Patrícia é sua mulher. Apesar de ele ter se apresentado  como diretor do IBPG, seu nome não aparece nos contratos com o Instituto Vital Brazil. 

Segundo o engenheiro Renato, após a contratação,  os funcionários ouviram que não precisariam ir à sede do Instituto Vital Brazil, pois o trabalho seria home office. O pedido pareceu normal. Afinal, naquele momento o país e o mundo estavam acostumados à quarentena devido à covid-19. Até que, mais tarde, descobriram que sequer iriam trabalhar: em troca, teriam de devolver metade do salário. 

“Falaram que a gente não precisava ir no local do trabalho e todo mundo estava em casa por conta da pandemia. Disseram então que iriam passar para nós todo o material de trabalho, mas nada disso aconteceu. Chegou uma hora que a gente começou a questionar”, afirmou Bruno.

Renato e Bruno detalharam o suposto esquema ao Intercept. E os dois exibiram contracheques e folhas de ponto para comprovar o vínculo com o IBPG, além de comprovantes bancários de devolução de parte do salário, por meio de pix, para Patrícia Barcelos.  

Os novos funcionários receberam os primeiros salários do IBPG na primeira semana de junho de 2022. “No dia do depósito, recebi uma ligação telefônica da senhora Patrícia”, relatou o engenheiro. 

Na conversa, ela comunicou que a diretoria da IBPG tinha decidido que, por não trabalharem presencialmente e sim em home office, os funcionários deveriam devolver metade do salário. “O valor deveria ser sacado e, em espécie, entregue em mãos à própria Patrícia”.

“Entretanto, devido a uma agenda muito apertada, a senhora Patrícia disse não ter disponibilidade de tempo para um encontro conosco e decidiu que, no nosso caso, receberia os 50% de cada um de nós dois por pix, e então encaminharia os valores para ‘quem de direito’ dentro do Instituto”, contou Renato.

Ele estranhou o pedido. Mas o cenário econômico estava difícil, os dois procuravam emprego já fazia algum tempo, e eles resolveram seguir a orientação de Patrícia. “Afinal de contas, ela é esposa de um dos diretores, o qual abraçou e recomendou nossos currículos”.

Os novos funcionários passaram maio e junho sem receber nenhum trabalho, mesmo à distância. Renato questionou Patrícia, e ela disse para não se preocuparem porque a empresa passava por mudanças administrativas internas. 

“Na ocasião, sugeri que poderíamos ir pessoalmente ao instituto para ajudar no que fosse preciso, mas ela nos informou que não seria recomendado irmos até lá, pois não havíamos sido apresentados ainda a ninguém nem tínhamos posto físico de trabalho”, afirmou.

Procurada pelo Intercept, Patrícia disse desconhecer a razão de seu nome ser citado na denúncia. “Vou me inteirar do que se trata, porque eu desconheço. Contratado através de mim?”, indagou Patrícia. Ela também não respondeu se é companheira de Fabiano Vidal nem fez comentários sobre o IBPG. Depois, pediu para que ligássemos em uma outra oportunidade, por estar em viagem, e não nos atendeu mais. 

‘Melhor não questionar e transferir’

Em julho de 2022, Renato e Bruno receberam o salário integral. Mais uma vez, segundo Renato, Patrícia exigiu que metade do pagamento fosse para a conta dela. Dessa vez, a explicação era que a empresa estava revendo os pagamentos devido à pandemia. Porém, em setembro,  Renato disse ter recebido um aumento de 40%; o salário de Bruno continuou o mesmo.

“Eu comentei com ela sobre minha preocupação com relação à Receita Federal, uma vez que seríamos cobrados no imposto de renda do próximo ano pelo valor total que estávamos sendo pagos. A resposta que obtive foi extremamente direta: ‘O problema é de vocês’”. A conversa começou a tomar outro rumo, confirmou Bruno. “Disseram então que a gente pensasse antes. Entrou, aí não tem como sair”.

Em setembro de 2022, ainda segundo o relato, Patrícia procurou Renato e Bruno novamente, pedindo metade do salário por pix. “Informei que não faria mais, pois estava vislumbrando uma situação complicada no imposto de renda”. 

A resposta dela, segundo o ex-funcionário, foi direta: melhor não questionar e transferir, pois quem esperava o dinheiro precisava recebê-lo.“Caso contrário, eu estaria arrumando problema sério com pessoas, por vezes, muito belicosas e que eu iria me arrepender”, contou, em um texto enviado ao Intercept, no qual relatava o esquema. 

‘Daí para a frente a gente não teve mais paz. Foi um verdadeiro inferno’.

No final daquele mês, Renato disse que ele e Bruno foram convocados por Patrícia para comparecer a um evento em outubro em um clube de  Niterói, duas semanas antes da eleição, que teria reunido mais de mil pessoas. Segundo ele, era um ato político em apoio a Otoni de Paula. A ausência implicaria em “sérios problemas”, segundo ele disse ter ouvido de Patrícia.

“Foi nos enviado também um link, que deveríamos acessar, de forma a anexar uma foto pessoal nossa à foto do candidato à reeleição como deputado federal Otoni de Paula, criando um banner de apoio a sua candidatura. Tal banner deveria ser anexado imediatamente nos perfis de aplicativos de nossa rede social e também na foto de perfil de nosso WhatsApp”, relatou.

Bruno, a princípio, se recusou a comparecer. “Daí para a frente a gente não teve mais paz. Foi um verdadeiro inferno”, contou. Patrícia, então, de acordo com Renato, telefonou alertando que os dois estavam muito vulneráveis fisicamente e naquele momento integravam um grupo violento, com o qual não podiam brincar. 

O amigo cedeu, e os dois compareceram ao ato, duas semanas antes da eleição. “O Otoni estava lá, na área VIP, sendo assessorado pelo Fabiano Vidal”, afirmou.

Segundo Renato, não houve registros do evento da campanha de Otoni de Paula em redes sociais, tampouco foram divulgados textos ou fotos.  Os candidatos e seus apoiadores, ele explica, procuravam evitar a comprovação de eventual uso da máquina pública na campanha. 

O ex-funcionário, no entanto, afirma que outros colegas do IBPG também foram convocados para o evento. “Mas como nem tínhamos um local de trabalho, não conhecíamos nem convivíamos com essas outras pessoas, não sabíamos da situação de contratos delas. Mas acho que a maioria que estava lá era do IBPG”, explicou. 

A utilização de empresa pública ou a ação de algum servidor público para coagir pessoas a votar ou não em determinado candidato ou partido é crime, segundo o Código Eleitoral

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Renato enviou ao Intercept um áudio e uma mensagem atribuídos à Patrícia. Na gravação, ela afirmava que o deputado Otoni de Paula Filho “precisaria ganhar as eleições” e que o Fabiano era o parceiro político dele e fazia as suas campanhas, “sempre”, desde que o parlamentar era vereador no Rio, entre 2017 e 2018. “A gente precisa que o Otoni vença”, Patrícia teria dito.

Renato continuou reclamando por ter de repassar a metade do salário até que, em dezembro de 2022, Patrícia sugeriu que os dois deixassem o cargo. “Exigi então que eles nos demitissem e fui surpreendido com ameaças a minha integridade física”, afirmou.

Ainda no mesmo mês, no dia 30, Bruno contou que Patrícia ligou informando que faria um depósito de R$ 25 mil em sua conta e, em seguida, ele precisaria fazer um depósito no mesmo valor para ela. Bruno seguiu a recomendação. Renato disse ter devolvido a Patrícia, durante todo o período da contratação, um total de R$ 21,4 mil, e Bruno, R$ 37,6 mil.  

Ameaças, agressão no supermercado e, até agora, nenhuma proteção

A funcionária do IBPG Márcia Sá, segundo Renato, era a responsável por administrar o sistema de ponto dos colegas que trabalhavam para o Instituto Vital Brazil. Ao Intercept, Márcia primeiro afirmou que não trabalhava no IBPG, apenas fez um curso no instituto. Depois, disse que foi, sim, funcionária, mas quem cuidava da parte administrativa era outra pessoa. Quando perguntada se conhecia Fabiano Vidal, a ligação foi cortada e Márcia não atendeu mais. 

Segundo Renato, ela e Patrícia Barcelos foram à casa do engenheiro em janeiro de 2023, pedindo que ele tomasse cuidado. 

“Ela nos alertou, visivelmente assustada, que não sabíamos no que estávamos metidos e com quem estávamos lidando. E a Patrícia se retirou também alertando que eu passasse a ter cuidado até mesmo na minha simples ida à padaria, pois sabiam onde me encontrar”, contou Renato. 

As ameaças teriam aumentado a partir daí. Foram ao menos cinco ao telefone e outras três presenciais, segundo Renato. Ele contou que fez, nessa época, um boletim de ocorrência online relatando as ameaças de Patrícia, mas não tem uma cópia desse documento. Por insistência do amigo Bruno, logo em seguida, ele disse que acabou assinando a demissão, em janeiro de 2023.

Renato contou ainda que, no dia 29 de março, recebeu outro telefonema de Patrícia, pedindo que ele parasse com a perseguição contra a empresa e sugerindo um encontro com seu companheiro, Fabiano Vidal, em um local público.

Temendo alguma emboscada, Renato e Bruno recusaram, mas depois acabaram aceitando por insistência de Patrícia. Segundo ele, a mulher dizia ter boas notícias e cogitava recontratá-los. O encontro foi marcado no mesmo dia, por volta de 18 horas, próximo ao Supermercado Zona Sul da avenida Lúcio Costa, na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio. 

O supermercado onde a agressão teria ocorrido, segundo o Boletim de Ocorrência. Foto: reprodução/Google Street View.

“Assim que cheguei, a Patrícia veio até mim, perguntou por Bruno e disse que iria até o carro pegar uma encomenda do marido para mim. Vi então que um homem se aproximou dela e trocaram algumas palavras. Ela entrou no carro e partiu. O homem correu em minha direção”, conta o engenheiro. 

Ele diz que entrou no supermercado para se proteger. Lá dentro, esse mesmo homem o imobilizou com uma “gravata” e o agrediu com socos no abdômen – Renato acabou com o braço torcido. 

Em seguida, segundo o ex-funcionário, Fabiano Vidal chegou ao supermercado e também começou a agredi-lo com socos e um aperto no pescoço, enquanto o xingava com insultos homofóbicos e dizia que ia matá-lo. 

Vidal, ainda conforme o relato de Renato, sugeriu ao outro homem que o levasse aos fundos do mercado, “onde eles iam me dar o que eu merecia”. Nesse momento, Bruno  chegou ao supermercado,  começou a gritar e os agressores saíram correndo.

O engenheiro registrou queixa no 16º DP, da Barra da Tijuca. Câmeras do supermercado comprovam a agressão, segundo ele. Contatado, o supermercado não respondeu ao Intercept se possui as imagens e por que seus seguranças não tentaram impedir a agressão relatada por Renato. 

‘Estamos sem segurança nenhuma, de polícia ou seja o que for’.

Segundo o engenheiro, após a agressão, Patrícia ainda lhe enviou um áudio pedindo para que entregasse tudo o que ainda devia: a metade do salário daquele mês. Afirmou também que, em outro áudio, uma pessoa que se identificava como Dafé, e que se intitulava secretário do deputado Otoni de Paula, sugeriu a um encontro dele com o parlamentar. Seria na casa de Otoni. Temendo mais uma vez por sua segurança, Renato recusou o convite. 

Mais de um ano depois do ocorrido, Renato e Bruno dizem que continuam recebendo ameaças. Afirmaram que, até o momento, não conseguiram qualquer ajuda para garantir a  proteção dos dois. 

“Não existe proteção para denunciante no Brasil. Assim, não vai acabar a corrupção nunca. Estamos sem segurança nenhuma, de polícia ou seja o que for. E já fomos perseguidos. Sei lá o que podem fazer com a gente”, lamentou Renato.  “A gente não tem outro lugar para ir. Estamos sem esperança. Totalmente vulneráveis. Quando tentamos ir atrás de proteção disseram para a gente que com esse pessoal não se brinca”, complementou Bruno.   

‘Lá no Rio de Janeiro temos um método de tratar bandido. É na bala’

Otoni de Paula é, assim como seu pai, pastor da Igreja Assembleia de Deus de Madureira. Vem de uma família de evangélicos. Começou na política em 2016, ao se eleger vereador no Rio de Janeiro pelo PSC, e teve uma carreira meteórica baseada em polêmicas e conservadorismo

Em 2018, foi eleito deputado federal com 120 mil votos, o 7º deputado do Rio de Janeiro mais bem votado naquela eleição. 

Nos últimos anos, Otoni de Paula foi um dos alvos do inquérito do Supremo Tribunal Federal que investiga atos antidemocráticos. Acabou denunciado em 2020 pela Procuradoria Geral da República  por difamação, injúria e coação em vídeos com ataques ao ministro Alexandre de Moraes. O STF, em junho do ano passado, aceitou a denúncia, e o deputado foi alvo de um mandado de busca e apreensão.

À esquerda, Otoni de Paula filho e à direita, seu pai. O primeiro é deputado federal, e o segundo estadual – ambos eleitos em 2022 pelo MDB fluminense.

Questionado se a ação penal em andamento no STF poderá prejudicar sua pré-candidatura à prefeitura do Rio, Otoni disse, em entrevista a um jornal de Minas Gerais em março, que “ser réu no STF é um troféu”.  “Sou réu porque critiquei postura e comportamento de membros da Suprema Corte, dentro dos limites constitucionais. Eu achei que a Polícia Federal só ia na casa de corruptos. Agora sei que ela vai na casa de político que tem opinião”, afirmou. 

Em 2022, na Câmara, em resposta a Lula, que falou sobre militantes irem à casa de deputados, Otoni de Paula ameaçou. “Não atravesse a rua da escola dos meus filhos e nem pense em visitar minha esposa. Sabe por que? Porque lá no Rio de Janeiro temos um método de tratar bandido. É na bala”.

Hoje, Otoni é pré-candidato à prefeitura do Rio de Janeiro. 

*Os nomes foram alterados para preservar a identidade das vítimas.

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