Cecília Olliveira

Policial Militar: "Eu gritei 'liberdade de religião' no quartel. Acabei preso"

Em 1998, policial do Distrito Federal já protestava contra a obrigação de participar de cultos.


Ilustração: Intercept Brasil

Nesta semana, o Ministério Público pediu o afastamento de um comandante de um batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal por obrigar sua tropa a se reunir em um templo da Igreja Universal. O caso, publicado no portal ICL, deve ser investigado pela Corregedoria da PMDF. A história parece nova, mas vem de décadas.

Já mostramos no Intercept Brasil que o programa Universal nas Forças Policiais, que presta “assistência espiritual” às tropas, realizou reuniões em nada menos que 24 estados. Policiais, militares do Exército e bombeiros estiveram presentes. 

A desculpa é sempre a mesma: os militares só teriam usado o espaço físico. Mas as fotos e vídeos, divulgados pela própria Universal, contam outra coisa. 

Conversei com um policial militar que diz que polícia e religião se misturavam já em 1998 – quase três décadas atrás –, quando ele passou no concurso.

Jorge estava com 20 anos e frequentava a academia de oficiais da PMDF. A formação era comandada por ex-oficiais temporários do Exército – que, segundo Jorge, não tinham “nem boa formação militar, nem formação policial”, pois ingressaram na PM numa época em que o concurso não era aberto a civis.

Jorge se indignou com os cultos e missas obrigatórios. Acabou preso. Hoje, aquele tipo de rito religioso forçado às segundas-feiras não acontece mais, mas a UFP arrumou um jeito de manter sua influência. 

Leia seu depoimento a seguir. 

Em 1998, eu estava no curso de formação de oficiais da Academia da Polícia Militar do Distrito Federal, a PMDF. Eu tinha 20 anos. Já naquela época, nós éramos obrigados, uma vez ao mês, a assistir à missa ou ao culto evangélico. 

Certo dia, foi anunciado que teríamos que estar em forma às 5h30 das segundas-feiras para a missa/culto. Todas as sextas os alunos eram reunidos para ouvir os avisos, ler as escalas de serviço do fim de semana e da segunda-feira. 

Era na sexta que a gente ficava sabendo também quem ficaria preso no final de semana por descumprir alguma regra, informações gerais sobre o que ocorreu e sobre a semana seguinte, orientações sobre a vida militar, leitura de elogios e de punições etc.

Às sextas-feiras, todos estão felizes porque irão para casa no fim de semana. Quando os cadetes ouvem “fora de forma, marche!”, é comum que todos soltem algum grito de guerra. Uns gritam o nome do time de futebol preferido, outros gritam “graças a deus”, outros fazem alguma piada. 

Quem está à frente da tropa não consegue ouvir quase nada, porque são centenas de pessoas gritando algo diferente.

Eu expliquei que aquilo era inconstitucional. Ninguém podia obrigar as pessoas a frequentar uma cerimônia religiosa.

Só que, naquele dia, como todos ficaram chateados com a notícia de ter que estar em forma às 5h30 na segunda-feira para o culto/missa (o normal era estarmos prontos às 7h), ninguém gritou.

Eu não esperava. Gritei “liberdade de religião!” bem alto, achando que ninguém ouviria, porque meu grito ficaria escondido no meio dos gritos dos demais. Como ninguém gritou, meu protesto soou forte e todos ouviram. Então, o comandante da tropa me deixou preso no fim de semana.

Na segunda-feira seguinte, o comandante do corpo de cadetes me chamou para tirar satisfações. Eu expliquei que aquilo era inconstitucional. Ninguém podia obrigar as pessoas a frequentar uma cerimônia religiosa. Ele retrucou, dizendo que a legislação impunha à PM a obrigação de dar o serviço de orientação religiosa. 

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Eu, que já cursava Direito, disse que a Constituição impunha uma obrigação à instituição de oferecer o serviço, mas não poderia obrigar seus integrantes a frequentarem. Ele concordou e deixou de nos obrigar. 

Passamos a ter três opções: missa, culto ou educação física – todas às 5h30 da manhã. Nos primeiros meses a educação física ficou lotada, mas, conforme foi chegando a época de frio, o pessoal foi optando pela missa ou pelo culto, inclusive eu. 

Passei a ir para o culto evangélico, pois tinha menos “senta e levanta” do que na missa e dava para tirar um cochilo escondido no fundo do auditório.

Desde então, a Academia da PMDF deixou de impor esse tipo de obrigação esdrúxula e ilegal.

Só que o bolsonarismo está tentando implantar uma República Milicianista do Evangelistão no país e as PMs têm papel fundamental nisso. 

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Domingos Brazão, conselheiro do Tribunal de Contas do Rio de Janeiro, é apontado como mandante desse atentado. Revelamos que Ronnie Lessa, ex-policial militar envolvido, delatou, mas a homologação pelo STJ enfrenta obstáculos devido ao foro privilegiado de Brazão.

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