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Jair Bolsonaro guarda capa de herói para virar vendedor de cursinho

Apesar do recorde de audiência, superlive do ex-presidente Jair Bolsonaro mostrou um líder político em derrocada.


Seguidores de Jair Bolsonaro falaram de tudo nos comentários da superlive, menos do anúncio feito pelo ex-presidente. (Valter Campanato/Agência Brasil)
Seguidores de Jair Bolsonaro falaram de tudo nos comentários da superlive, menos do anúncio feito pelo ex-presidente. Ilustração: Intercept Brasil; Agência Brasil

As redes bolsonaristas foram tomadas de assalto em janeiro com a notícia de que Jair Bolsonaro faria uma superlive acompanhado dos filhos. A expectativa era enorme: o ex-presidente certamente anunciaria algo capaz de mudar os rumos do país, acreditavam seus apoiadores, em polvorosa com o que chamavam de “a volta do capitão”.

Os críticos também tinham suas expectativas. Aquela seria a primeira transmissão após o escândalo da Abin paralela. Certamente, a investigação seria um dos principais assuntos da superlive de Bolsonaro. 

Que decepção.

Vestindo uma camisa da seleção de Israel, diretamente do luxuoso hotel Fasano, em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro, Bolsonaro rezou a mesma missa de sempre em 28 de janeiro – defesa do voto impresso, ataques à esquerda, guerra ao aborto. Então, foi ao que realmente lhe interessava: anunciar o lançamento de um curso de formação para pessoas que desejam se tornar lideranças políticas. 

Pois é. A tal superlive que supostamente mudaria os rumos da política brasileira não passou de uma triste jogada de marketing de um líder político em decadência, vendendo seus “conhecimentos” por módicos R$ 297,90.

É por esse valor que os eleitores de Bolsonaro poderão assistir vídeos e fazer exercícios elaborados por Carlos e Eduardo Bolsonaro. Duas figuras que, frisemos, tiveram desempenho bem abaixo do esperado nas últimas eleições em que concorreram. 

Eduardo, por exemplo, teve cerca de um milhão de votos a menos do que a votação que o elegeu deputado federal em 2018. E isso tendo o próprio pai como cabo eleitoral. Nem a base bolsonarista mais fiel parecia entusiasmada com o empreendimento. 

Durante a superlive, era difícil encontrar algum comentário a respeito da nova plataforma. No geral, os bolsonaristas se limitavam aos slogans habituais, denúncias sobre o suposto avanço do comunismo, reclamações sobre o preço do arroz e comemorações pelo número de visualizações da live – os 470 mil espectadores simultâneos, público recorde, realmente eram uma vitória. 

Mas, no fim das contas, os seguidores falavam de tudo nos comentários da superlive, menos daquilo que o clã Bolsonaro anunciava.

Bolsonarismo entrou em rota de colisão com o mundo real

Toda essa história nos fornece uma imagem muito precisa e acabada do bolsonarismo, especialmente quando olhamos para aquilo que ele se tornou após a derrocada em 2022. O movimento se tornou uma espécie de metáfora de si mesmo. 

Para que essa frase tenha sentido, é importante falar de como a emergência avassaladora do bolsonarismo em 2018 mudou a forma como as campanhas políticas são planejadas – e não apenas no Brasil. 

A estratégia bolsonarista apostava, sobretudo, em três elementos. O primeiro, a construção da ideia de que Bolsonaro e seus aliados representavam a “nova política” e eram pessoas acessíveis,homens e – algumas poucas, muito poucas – mulheres do povo. 

Para isso, investiram muito no segundo – e mais importante – elemento da equação, a consolidação de uma estratégia de comunicação direta dos candidatos com o seu eleitorado. A maior parte desse processo acontecia por meio das redes, especialmente em grupos de Facebook e Whatsapp. 

Inclusive, muitos deles contavam com a presença dos próprios políticos. Jair Bolsonaro, por exemplo, esteve em milhares. 

Esses grupos também “educavam” o eleitorado por meios de vídeos, notícias (muitas delas falsas) e uma agenda de tarefas. 

Sim, uma agenda de tarefas. 

Os administradores dos grupos, e por vezes os próprios candidatos, delegavam funções e metas para os bolsonaristas. E, entre pedidos de curtidas e defesa de pautas conservadoras, insistiam reiteradamente para que recrutassem novos apoiadores e montassem os seus próprios grupos para influenciar as pessoas da rua, do bairro, da igreja, e assim por diante.

Foi assim que nasceu uma rede colossal de páginas e grupos dedicados a eleger os candidatos bolsonaristas – em especial, obviamente, Jair Bolsonaro.

Por fim, o terceiro elemento era o investimento massivo na máquina de desinformação e fake news, crucial nesse processo de expansão e fidelização da rede de apoiadores. 

Quando olhamos para toda essa estratégia, percebemos uma semelhança imensa com as chamadas estratégias de marketing multinível, em que os vendedores de um determinado bem ou serviço lucram não apenas com vendas do produto, mas também com o recrutamento de novos vendedores. 

Inclusive, na época, o país vivia uma verdadeira febre de operações desse tipo, como a Atlas Quantum, que chegou a fazer propagandas com atores globais e prejudicou cerca de 200 mil pessoas no Brasil e no exterior. 

Não sou o primeiro a apontar essa semelhança. O próprio Eduardo Bolsonaro falou sobre isso em 2018, em uma postagem no finado Twitter. Em suas próprias palavras: “A crescente de Bolsonaro é tipo um marketing multinível, sem TV, vai no boca-a-boca, mas para “’vender’ o produto é preciso acreditar que ele de fato funcione”. 

Por mais estranho que seja escrever isso, ele estava correto. 

Boa parte da força do bolsonarismo consistia nessa crença de que suas lideranças, em especial o próprio Bolsonaro, seriam os arautos de uma verdadeira revolução conservadora na política. 

E essa crença levava os bolsonaristas, especialmente no chamado “núcleo duro”, a se engajarem ativamente nesse processo de ocupação das redes. 

Eduardo só esqueceu de dizer que essa “crença” é alimentada por uma das maiores máquinas de desinformação do planeta. 

Uma que não apenas divulga notícias falsas a respeito de opositores, mas também a respeito dos próprios bolsonaristas, que surgem sempre como verdadeiros e únicos “heróis do povo”.

Em outras palavras, o que mantém a estratégia bolsonarista azeitada, é a “crença”, e não a realidade. E, apesar de suas vitórias, essa natureza negacionista do movimento constitui, justamente, sua maior fraqueza, pois a coloca constantemente em rota de colisão com o mundo real. 

Enquanto a crença mantém a máquina em movimento, a realidade a desmobiliza. E, por mais que se esforcem para ocultá-la, uma hora a realidade se fará presente, mesmo que apenas nas periferias dessa rede. 

É isso que pouco a pouco vem acontecendo, como mostram as melhoras nos índices de percepção econômica dos brasileiros e na avaliação do presidente Lula, que vem avançando até sobre os antigos eleitores de Bolsonaro. 

Algo impensável se a estratégia bolsonarista ainda fosse tão eficaz quanto no passado – ou como alguns ainda acreditam ser. 

Inclusive, a conversa que rola nos bastidores do PL, partido de Bolsonaro, é a de que o “grande anúncio” feito pelo ex-presidente frustrou uma parcela de seus aliados mais próximos, que ainda esperam uma participação mais ativa dele nas eleições municipais deste ano, que serão um bom termômetro para entendermos qual a potência atual do bolsonarismo. 

Mas parece, até pela preocupação de seus aliados, que o movimento perdeu parte de sua força. O que é até lógico, se pensarmos que o seu garoto propaganda, o seu grande herói, o capitão que salvaria o Brasil de todos os males, se transformou em um homem que vende cursos por módicos R$ 297,90.

Uma realidade cruel – para eles.

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