Ex-funkeira e ex-participante d'A Fazenda casou com o então chefe de licitações do Exército. Depois, abriu uma empresa que já recebeu quase R$ 1 milhão das Forças Armadas. Ilustração: Intercept Brasil

Furacão das licitações

Casada com assessor de Pazuello, MC Brunninha já faturou R$ 856 mil do Exército Brasileiro


Em 2007, a cantora Brunna Lopes de Andrade, a MC Brunninha, atingiu seu ápice na carreira musical com a música Bailão, do Furacão 2000.  Em 2014, quase esquecida do grande público, viveu seu último momento de fama como participante do reality show A Fazenda 7, da TV Record. Engana-se, no entanto, quem pensa que o sumiço dos holofotes significou sua decadência. Hoje, Brunninha é uma empresária bem-sucedida, que ganhou quase R$ 1 milhão em vendas para o Comando do Exército desde 2019.

A jornada da ex-MC no mundo dos negócios começou depois de casar com um ex-militar que, desde o início deste ano, é secretário parlamentar do deputado federal Eduardo Pazuello, do PL fluminense, e ex-ministro da Saúde de Jair Bolsonaro, durante a pandemia. Em 2018, a cantora celebrou seu casamento com o então tenente-coronel Hyago Lopes, no Rio de Janeiro. À época, a festa foi registrada no TV Fama e repercutiu em outros programas e veículos de fofoca. “Desencalhei”, festejou, em entrevista concedida logo após descer do altar.

No dia em que apareceu ao lado da esposa no TV Fama, apesar da timidez, Hyago Lopes tinha um cargo importante na estrutura do Exército Brasileiro: chefe da Seção de Aquisições, Licitações e Contratos. Antes, já havia chefiado o almoxarifado e o setor de aprovisionamento do Exército. À época tenente-coronel, Lopes permaneceu como chefe de compras  até junho de 2019, quando deixou o Exército para iniciar uma carreira na iniciativa privada. Em julho daquele ano, primeiro ano da gestão Bolsonaro, ele atualizou o LinkedIn: se tornou diretor da ABBA Serviços de Manutenção e Comércio em Geral, empresa registrada na Receita Federal em 22 de julho de 2019, em Niterói, no estado do Rio de Janeiro, em nome de Brunna Lopes.

Desde o início deste ano, Hyago Lopes voltou a receber um salário como servidor público. Lotado no gabinete de Pazuello, seu rendimento é de pouco mais de R$ 12 mil mensais. Mas isso não quer dizer que a ABBA não tenha dado certo. Pelo contrário. Em pouco mais de quatro anos de existência, a empresa do casal Hyago e Brunninha já acumulou um total de R$ 856.042,02 em recursos provenientes do Executivo Federal. Pouco mais de R$ 769,3 mil vieram do Comando do Exército – onde atuava o marido de Brunninha antes do casal entrar no mundo dos negócios. A Marinha, que custeou cerca de R$ 85 mil, e a Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, com R$ 291, completam a lista de clientes da ABBA no Executivo.

Os produtos e serviços comercializados pela empresa da ex-funkeira e de seu marido aos órgãos do governo são de uma variedade impressionante: vão de equipamentos médicos a serviços gráficos e editoriais, segundo os registros localizados no Portal da Transparência. Ao todo, foram 114 vendas aos órgãos federais – o que representa, em média, dois negócios fechados por mês.

As vendas ao Executivo Federal chamam a atenção pelo volume, ainda que o valor médio seja de R$ 7.575. A maior compra unica foi de R$ 70.640 com a venda de “aparelhagem, equipamentos e utensílios médicos, laboratoriais e hospitalares” ao Centro de Capacitação Física do Exército, no bairro da Urca, no Rio de Janeiro, em agosto de 2020.

Bruna em evento do PL no Rio de Janeiro. Ao fundo, Pazuello. Foto: Reprodução

Mc Brunninha é um furacão nas licitações públicas

O esforço da ABBA e do casal Hyago-Brunninha em ganhar dinheiro público é admirável. Em pouco mais de quatro anos de existência, a ABBA participou de quase 160 licitações federais. Como se não bastasse, Brunninha, única sócia-administradora da empresa, recebeu R$ 11 mil em 16 parcelas de auxílio-emergencial ao mesmo tempo em que se consagrava como uma “papa-licitações” – jargão pelo qual são chamadas as empresas especialistas em vencer concorrências públicas, prestando serviços e vendendo produtos para órgãos do governo.

Apesar de, no papel, ser dona da ABBA, nas redes sociais, Brunninha se identifica como “cantora e compositora”, sem fazer referência à atividade empresarial. Ela abandonou o funk melody e, desde a época de seu casamento, tem se dedicado à música gospel. Em suas redes sociais, Brunninha posta  apresentações musicais na Igreja Lagoinha, em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, e os trabalhos da filha, de apenas 4 anos, como atriz-mirim. A ABBA e os negócios com as Forças Armadas não aparecem nas postagens da ex-funkeira. A empresa, por sinal, sequer tem um site oficial ou redes sociais indexados no Google.

Encontro na Baixada Fluminense: Rosenverg Reis apareceu duas vezes nos últimos meses nas postagens da ex-MC. Foto: Reprodução

A atividade política de Brunninha e de seu marido na Baixada Fluminense, porém, são bastante visíveis. Nos últimos quatro meses, fez duas postagens com Rosenverg Reis, deputado estadual e líder do MDB na Alerj, irmão de Washington Reis, ex-deputado federal e secretário Estadual de Transporte e Mobilidade Urbana do governo Cláudio Castro, do PL. A família é uma das mais poderosas da Baixada Fluminense, região dominada pelas milícias. Em maio deste ano, um assessor de Rosenverg Reis foi flagrado em uma reunião entre milicianos e políticos.

O Intercept procurou MC Brunninha, o Comando do Exército, a ABBA, o tenente-coronel Hyago Lopes e o deputado federal Eduardo Pazuello. Até o momento, não houve retorno de nenhuma das partes citadas na reportagem. O espaço segue aberto para manifestações.

Correção: 9 de outubro de 2023, 14h16

O contrato da ABBA é com a Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, a Unirio, e não com a Universidade Federal do Rio de Janeiro, a UFRJ. O texto foi corrigido.

URGENTE! O Intercept está na linha de frente na luta por justiça pelo brutal assassinato de Marielle Franco.

Domingos Brazão, conselheiro do Tribunal de Contas do Rio de Janeiro, é apontado como mandante desse atentado. Revelamos que Ronnie Lessa, ex-policial militar envolvido, delatou, mas a homologação pelo STJ enfrenta obstáculos devido ao foro privilegiado de Brazão.

Sua doação é crucial para impulsionar investigações e ações legais. A verdade não pode mais ser silenciada. Faça sua doação agora!

FAÇA PARTE

Faça Parte do Intercept