Apoiadores do presidente destituído do Peru Pedro Castillo em frente ao local em que ele está sendo detido em Lima.

Entrevista: ‘A dinâmica que gera Bolsonaros também gera rebeliões’, diz historiador sobre América Latina

Fabio Luis Barbosa dos Santos comenta as contradições da nova ascensão da esquerda e os desafios para alcançar mudanças mais profundas na região.

Apoiadores do presidente destituído do Peru Pedro Castillo em frente ao local em que ele está sendo detido em Lima.

Da Patagônia ao México, a América Latina vive uma fase sem precedentes. Em poucos dias, os governos dos cinco maiores países da região – Brasil, México, Argentina, Colômbia e Chile – estarão sob o comando de presidentes de esquerda, feito que lembra a chamada “onda rosa” do início do século. A eleição de Luiz Inácio Lula da Silva trouxe alívio para as vozes progressistas do continente. Mas os ecos da vizinhança mostram que, apesar das vitórias nas urnas, a esquerda não vive seus melhores dias.

No Peru, após ensaiar o fechamento do Parlamento, o presidente Pedro Castillo foi enfim derrubado pelo próprio Congresso, que já tentava destituí-lo havia meses. É o quinto mandatário do país que deixa o cargo desde 2018. E pela primeira vez uma mulher, a vice Dina Boluarte, assume o posto mais alto da nação, embora venha sendo pressionada a adiantar as eleições para o fim de 2023.

A Argentina luta contra uma eterna crise econômica e uma das maiores inflações da região, atrás apenas da Venezuela. Além disso, o presidente Alberto Fernández e a vice Cristina Kirchner vivem em cabo de guerra. Kirchner, inclusive, foi condenada recentemente em primeira instância a seis anos de prisão por casos de superfaturamento de obras – e pode ficar inelegível se a decisão for confirmada nas cortes superiores. A ex-presidente também foi alvo de uma tentativa de homicídio à mão armada em setembro.

No Chile, o presidente Gabriel Boric passou de astro da nova esquerda latina a um mandatário inexperiente, que não consegue resolver o conflito armado em território mapuche, ou aprovar as reformas prometidas no Congresso. Depois da rejeição no plebiscito da nova Constituição chilena, também uma reprovação do governo, Boric se viu obrigado a reformular seu gabinete ministerial para tentar acalmar os ânimos da população.

É nesse contexto de contradições latino-americanas, marcadas por constantes vitórias e crises, que o Intercept conversou com o historiador Fabio Luis Barbosa dos Santos, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo. Santos é autor dos livros “Uma história da onda progressista sul-americana” e “O médico e o monstro: uma leitura do progressismo latino-americano e seus opostos”. Confira a entrevista completa em parceria com o Giro Latino.

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“Depois de experimentar o bolsonarismo, a gente consegue entender o que a Colômbia vive desde o início do século 21”, afirmou o historiador Fabio Luis Barbosa dos Santos.

Foto: Divulgação.

Intercept – Com as recentes vitórias da esquerda na região, tem se falado numa nova “onda rosa” latino-americana. É realmente um fenômeno progressista ou apenas uma resposta de oposição?

Fabio Luis Barbosa dos Santos – Depende de cada caso. Os que mais chamam a atenção são os do México, Peru, Colômbia e Chile, justamente por serem países que não elegeram governos progressistas no começo do século 21. Tem um denominador comum com a onda rosa original: pode ser interpretada como uma vitória da esquerda, mas também foi uma alternativa para gerir as contradições sociais diante do esgotamento das forças políticas que governavam esses países. A onda progressista pode ser entendida como uma alternativa de gestão ao neoliberalismo.

Isso é mais evidente em países como Argentina, Bolívia ou Equador, onde a vitória veio após os levantes populares que derrubaram os governos da época. Mais recentemente, foram os casos chileno, colombiano e peruano: nos três países, houve rebeliões populares em plena pandemia. Esse é um dado que merece reflexão. As tensões sociais se aguçaram em todos os países. Mas, nos países onde o progressismo é mais forte, prevalece a espera pela próxima eleição.

Mas, no Peru, a vitória da esquerda já começou com problemas, não?

No caso peruano, não me parece adequado identificar o Pedro Castillo com o progressismo. O rosto progressista é a Verónika Mendoza, que já tinha disputado a eleição anterior [de 2016] e por muito pouco não chegou ao segundo turno. Do ponto de vista da forma política – não do conteúdo –, Pedro Castillo se assemelha mais ao Jair Bolsonaro: alguém que se apresenta como um outsider, que representa um Peru profundo. Ele colocava uma agenda de uma esquerda estatista enquanto cultivava valores morais conservadores.

Em relação ao contexto socioeconômico, o que há de diferente nos novos governos da região, principalmente aqueles onde a esquerda chegou ao poder pela primeira vez?

Do ponto de vista da história política, as eleições de Andrés Manuel López Obrador no México e de Gustavo Petro na Colômbia têm um significado extraordinário. Eram países governados sempre pela direita – que levou ao extremo a violência da autocracia burguesa da América Latina. A Colômbia vem de um conflito interno de mais de 50 anos. A política colombiana se dividiu em dois partidos: um da paz e outro da guerra, e a diferença fundamental não está no neoliberalismo ou na agenda econômica, mas sim nas formas de lidar com o conflito armado.

‘Castillo colocava uma agenda da esquerda estatista no Peru enquanto cultivava valores conservadores’.

Há setores da sociedade colombiana que fazem da guerra um meio de vida, um negócio, e impedem a paz sistematicamente. O país foi pioneiro em uma política do ódio com Álvaro Uribe [presidente de 2002 a 2010]. Mas o primeiro sucessor de Uribe, o Juan Manuel Santos [que governou de 2010 a 2018], rompeu com ele não pelas diferenças no plano econômico, mas porque Santos foi buscar a paz com as guerrilhas. Há também um setor da classe dominante que entende que a paz é mais favorável para os negócios do que a guerra.

Isso é um presságio do que pode acontecer no Brasil?

O futuro de um Brasil miliciano apontaria para isso. Quando o governo Santos promove um plebiscito pela paz e o “não” vence, o principal argumento é que o país seria governado pelo castro-chavismo. Depois de experimentar o bolsonarismo, a gente consegue entender o que a Colômbia vive desde o início do século 21. A Colômbia vive uma política do ódio, que é também uma política da mentira.

O que significam os conceitos de aceleração e contenção que você usa em suas pesquisas?

No meu último livro, “O médico e o monstro”, recorro aos oxímoros [contradições entre si] para ilustrar a dinâmica do progressismo. Por exemplo: uma política como a do Uribe ou do Bolsonaro olha para as fraturas sociais desses países e assume uma postura de aceleração da crise. Eles aceleram as dinâmicas neoliberais que corroem o tecido social e resultam numa sociabilidade autofágica, o princípio de todos contra todos.

A ideia da contenção significa que o propósito não é modificar as estruturas da sociedade, mas buscar melhorar a vida para os de baixo, sem mexer nessas estruturas. As políticas focalizadas, por mais importantes que sejam, não desafiam a racionalidade neoliberal, mas procuram conter os seus efeitos. Por isso é uma dinâmica contraditória.

Essas são as restrições de atuação da esquerda. Mas quais são os limites para a direita no governo?

Um dos limites são os Estados Unidos. O outro é a própria dinâmica dos negócios. Para ilustrar o caso dos EUA, vou para Honduras. O país foi comandado pelo Partido Nacional, cuja principal figura era um homem do narcotráfico, o presidente Juan Orlando Hernández. Sob o governo dele, Honduras se constituiu como uma narcoditadura, uma máquina de produzir migrantes e drogas. É por isso que a candidatura da Xiomara Castro [de esquerda] teve simpatia dos Estados Unidos e de parte importante das elites hondurenhas. E o que aconteceu? O Juan Orlando Hernández foi preso e extraditado para os EUA pouco depois de deixar o cargo. Enquanto isso, Honduras pede ajuda da ONU para constituir comissões de investigação e cooperação internacional.

De certa forma, o bolsonarismo foi uma política da aceleração [da crise], e Lula representa uma política de contenção. Mas não se trata de um movimento pendular, ida e volta. O sentido da evolução da história permanece o mesmo. Segue em marcha a sociabilidade autofágica, o todos contra todos, o empreendedorismo de você mesmo, o caldo de cultura dessas políticas do ódio. Todos os problemas que a gente tinha há 20 anos estão agravados, e não é só por causa do período bolsonarista. Se a gente olhar para o meio ambiente, a economia, a violência urbana, a atividade miliciana, o encarceramento, não há dimensão em que o Brasil esteja melhor. A política lulista tem como forte a conciliação, mas o outro lado não está no jogo da conciliação, está no jogo da guerra.

Você fala de contradições. Em matéria de meio ambiente e transição energética, a gente vê muitos sinais trocados. Por que os governos progressistas têm tanta dificuldade nesses temas?

Há uma esquerda da velha guarda que precisa encarnar os processos sociais contemporâneos. A questão ambiental está nessa perspectiva. É uma temática considerada irrelevante – quando não [é vista como] um empecilho do ponto de vista mais ortodoxo –, mas essa é uma visão que precisa ser superada. O compromisso com essas formas econômicas extrativistas é o calcanhar de aquiles dos governos progressistas.

Talvez o caso mais interessante seja o equatoriano: na eleição do ano passado, o progressismo equatoriano fissurou por dentro. O ex-presidente Rafael Correa rompeu com quem foi seu vice, Lenín Moreno, que abraçou a direita e os EUA. Viraram inimigos. Essa implosão do progressismo abriu espaço para um terceiro nome: Yaku Pérez, representante dos movimentos indígenas pelo partido Pachakutik. Era um candidato com uma posição alternativa ao extrativismo, em defesa da água e dos direitos reprodutivos das mulheres. Mas o que fez o correísmo? Retrataram o Yaku Pérez como um cavalo de troia do imperialismo, com uma narrativa falsa que teve muita circulação internacional.

‘O progressismo não é só indiferente à política ambiental, como pode ser hostil’.

O progressismo, na forma como se constituiu em anos recentes, não só é indiferente a essa política [ambiental], mas também pode ser hostil. Muitos questionam por que o Yaku Pérez não apoiou o candidato do correísmo no segundo turno, mas ele foi preso diversas vezes nos governos de Correa, apanhou de chicote. É um ponto cego da política progressista.

Como podemos esperar a reação da extrema direita? As forças autoritárias estão se consolidando na região?

A história do médico e do monstro que uso no meu livro é uma metáfora do final do século 19. Um médico começa a fazer experiências em si mesmo com o objetivo de isolar seu “lado mau”. Nesse processo, cria um alterego, o Mr. Hyde, uma criatura que tem a peculiaridade de ser a maldade concentrada. Para voltar à forma do médico, ele bebe um preparado químico. Mas qual é o drama? Cada vez mais, ele precisa de doses maiores do preparado, que deixa de fazer efeito: o monstro se emancipa. Qual será a eficácia do remédio das políticas de contenção lulista no contexto que a gente vive? O monstro não é uma pessoa, mas um fenômeno social de uma parte da população que deseja políticas violentas.

É o que ocorre em El Salvador atualmente. O presidente Nayib Bukele decretou estado de sítio a pretexto de combater as maras [gangues], aprisionou de forma arbitrária quase 60 mil pessoas num país minúsculo e segue com uma aprovação na casa dos 90%. O drama do nosso tempo é que essas políticas que caracterizam regimes autoritários passaram a ser socialmente desejadas, e é isso que se forma no Brasil: Lula ganhou por uma fração muito pequena. Os antagonismos estão muito mais aflorados na sociedade do que há 20 anos, e o cobertor social é muito mais curto.

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Chilenos vão às ruas para comemorar os três anos do ‘estallido social’, a série de protestos massivos que começou em 2019.

Foto: Jose Veas/Getty Images

No Chile, o anseio por mudança do estallido social já teve um revés com a rejeição da nova Constituição. O que explica isso?

A gente tem que pensar como a extraordinária revolução chilena quase foi vencida pelo lado oposto do que era pedido pelas ruas. Aí há vários elementos complexos, inclusive as contradições das pessoas que se manifestam. No Chile, o neoliberalismo é mais forte, mais internalizado. As pessoas que estavam contra os fundos de pensão não necessariamente queriam uma previdência pública solidária, mas apenas que o imposto compulsório deixasse de ser cobrado. As pessoas são contraditórias. Dizer que alguém votou no Bolsonaro porque é fascista ou chamar de revolucionário um manifestante chileno não captura toda essa complexidade.

‘O trilho do Chile já foi percorrido por Venezuela, Bolívia, Equador. É sinal de falta de imaginação política’.

Havia a ideia de que tudo mudaria com uma nova Constituição e um novo presidente. Não diminuo a importância do processo chileno, mas precisamos pensar além. Esse trilho já foi percorrido na história recente pela Venezuela, pela Bolívia, pelo Equador. É sintoma de uma falta de imaginação política do nosso tempo. Se questiono o alcance do progressismo, entendo que ele tem a sua importância social, mas é incapaz de modificar essa forma social. E é ela que produz fenômenos sociais como o bolsonarismo, o José Antonio Kast [candidato da extrema direita chilena]. A gente precisa criar outras formas sociais. Outra Constituição e outro presidente não resolvem. A dinâmica que produz os Bolsonaros também gera as rebeliões. Como a gente dá futuro à potência disruptiva de uma rebelião como a chilena? Esse é um dilema do nosso tempo.

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