Conheça Ahed Tamimi, a adolescente que se tornou o símbolo da resistência palestina

A volta para casa

Conheça Ahed Tamimi, a adolescente que se tornou o símbolo da resistência palestina


NABI SALEH, CISJORDÂNIA – Como se fosse preciso lembrar, mesmo no dia de sua libertação da prisão, as autoridades israelenses pareciam querer mostrar, a Ahed Tamimi, sua família e seus muitos apoiadores, que controlam as vidas palestinas.

Ahed e sua mãe, Nariman, deveriam ter sido libertadas no sábado, depois de cumprir uma sentença de oito meses em uma prisão militar israelense, mas como sábado não é dia útil em Israel, a libertação foi adiada. No domingo, a família delas foi informada de que as duas seriam libertadas às 7 da manhã em um posto militar no norte da Cisjordânia, a quase uma hora e meia de carro da cidade onde vivem, Nabi Saleh. Quando parentes e amigos chegaram lá, os militares os enviaram, bem como dezenas de membros da imprensa, a um posto de controle diferente, situado quase duas horas na direção oposta. Quando foram até lá, Bassem Tamimi foi informado, mais uma vez, que a filha e a mulher dele seriam libertadas no primeiro posto de controle. Depois que o comboio de carros deu meia-volta mais uma vez, receberam outra ligação dizendo-lhes para voltarem ao segundo posto de controle.

“Estavam brincando de gato e rato. Estavam tentando destruir a todos”, disse Manal Tamimi, tia de Ahed, ao Intercept. “Eles não precisam dar nenhuma justificativa. Simplesmente fazem o que querem.”

Parentes e jornalistas se reúnem na casa dos Tamimi enquanto aguardam pela chegada de Ahed após a libertação.
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Horas depois de as autoridades israelenses confirmarem que Ahed e Nariman Tamimi haviam sido libertadas da prisão, Bassem Tamimi ainda tentava descobrir onde elas estavam. Em um dos dois postos de controle, onde multidões se reuniram para esperar pelas duas, um colono, ladeado por soldados, agitou uma bandeira de Israel, logo sendo acompanhado por outros, gritando: “Ahed é terrorista” e “morte aos árabes”, contou um familiar ao Intercept. Os apoiadores de Ahed responderam cantando e acenando bandeiras palestinas.

Então alguém viu as duas mulheres em um jipe militar, que não parou no posto de controle, mas foi direto na direção de Nabi Saleh. Todos se apressaram para segui-lo.

Mas se os soldados israelenses esperavam que uma demonstração de força lembrasse aos palestinos quem estava no comando, Ahed Tamimi reagiu parecido com o que fez no ano passado, quando deu tapas e empurrou um soldado que invadiu seu quintal. “A resistência continua”, declarou ela logo após sua libertação, ao visitar a família de outro jovem membro da família Tamimi, morto em junho por soldados. Cercada por centenas de câmeras que a seguiam a cada passo, ela então prestou uma homenagem ao túmulo do líder palestino Yasser Arafat, antes de retornar a um vilarejo que havia sido decorado com dezenas de cartazes dela e de sua mãe – mas principalmente dela. Crianças, adolescentes e parentes idosos aguardavam seu retorno em meio a centenas de ativistas e jornalistas, com música ressoando de alto-falantes e parentes narrando a longa história de resistência da família à ocupação israelense. Quando Ahed finalmente chegou em casa, a multidão começou a gritar triunfante, dançando e se abraçando.

Bassem, Ahed e Nariman Tamimi falam durante uma entrevista coletiva em Nabi Saleh após a liberação das mulheres em 29 de julho de 2018.

Bassem, Ahed e Nariman Tamimi falam durante uma entrevista coletiva em Nabi Saleh após a liberação das mulheres em 29 de julho de 2018.

Foto: Samar Hazboun para o Intercept

Ahed Tamimi chamou a atenção do mundo quando um vídeo que a mostrava dando tapas no soldado viralizou em dezembro passado. O episódio ocorreu após um dia de protestos acalorados em Nabi Saleh, durante o qual soldados atiraram em seu primo Mohammed a curta distância com uma bala de borracha, ferindo-o gravemente. Mohammed teve parte do crânio removido após o incidente – com oficiais militares israelenses alegando falsamente que o menino se machucou “caindo de bicicleta”.

Dias depois do incidente dos tapas, que Ahed disse no tribunal terem sido em resposta aos soldados que feriram seu primo, os militares invadiram sua casa e a prenderam. Pouco depois, prenderam sua mãe e outra prima, Nour, também retratadas no vídeo. Em março, Ahed, que completou 17 anos enquanto estava presa, aceitou um acordo com uma sentença de oito meses. Sua mãe foi condenada por incitamento, por compartilhar o vídeo, e também foi sentenciada a oito meses de prisão. Várias pessoas compararam a sentença à do soldado israelense Elor Azaria, que cumpriu nove meses de prisão por executar o palestino ferido Abdel Fattah al-Sharif. Deixando a corte após sua audiência de condenação, Ahed declarou desafiadoramente: “Não há justiça sob ocupação, e este tribunal é ilegal”.

A história de Ahed chamou uma atenção rara para a situação das crianças palestinas detidas em prisões militares israelenses – uma esmagadora maioria deles por incidentes de arremesso de pedras ou participação em protestos – e os processos judiciais falsos, os interrogatórios abusivos e cheios de ameaças e as confissões obtidas à força aos quais são sujeitadas. Nas semanas que antecederam a libertação de Ahed, o Intercept falou com mais de uma dúzia de menores de idade presos anteriormente, com pais de outros atualmente na prisão, advogados e defensores, bem como com vários membros da família Tamimi. Eles compartilharam histórias semelhantes de ataques realizados de madrugada, durante os quais soldados separaram crianças de suas famílias, agrediram-nas física e verbalmente, levaram-nas vendadas e algemadas a centros de interrogatório onde – quase sempre sem um advogado ou pai presente – foram submetidas a mais abusos e forçadas a confessar, antes de serem sumariamente condenadas a meses de prisão.

As Forças de Defesa de Israel, responsáveis pela detenção, acusação e o encarceramento de Ahed, bem como a detenção de centenas de outros menores de idade palestinos, se recusaram a responder às perguntas do Intercept.

Vista do assentamento israelense de Halamish a partir de Nabi Saleh.

Vista do assentamento israelense de Halamish a partir de Nabi Saleh.

Foto: Samar Hazboun para o Intercept

Os filhos de Nabi Saleh

Nabi Saleh, um vilarejo palestino de cerca de 600 habitantes na Cisjordânia ocupada, está há muito tempo na linha de frente do que é possivelmente o maior impedimento para uma resolução pacífica na região: a invasão contínua de assentamentos israelenses ilegais em terras palestinas. Existem 129 assentamentos israelenses na Cisjordânia e 101 outros postos avançados não reconhecidos pelo governo israelense, de acordo com o grupo de vigilância de assentamentos Peace Now. (Essas estatísticas não incluem assentamentos no leste de Jerusalém ocupado.) Mais de meio milhão de colonos vivem na Cisjordânia, ao lado de quase 3 milhões de palestinos. O governo israelense continua aprovando a construção de novos assentamentos e reconhece os postos avançados existentes – ambos ilegais sob a lei internacional.

Assentamentos são uma visão comum em toda a Cisjordânia ocupada, com as fileiras de casas de telhados vermelhos assentadas sobre colinas, geralmente se elevando acima dos vilarejos palestinos abaixo, e distinguíveis pelas cercas e torres de segurança que as circundam, bem como a ausência dos tanques de água que são a marca registrada dos telhados palestinos. (Israel controla o acesso à água, e os palestinos, que sofrem com a escassez, obtêm seus suprimentos de água fornecidos por caminhões-pipa.) Ao longo das décadas, os colonos se aproximaram cada vez mais dos vilarejos palestinos, assumindo mais terras de seus habitantes. Em Nabi Saleh, o assentamento perto de Halamish é tão próximo que, se você apertar os olhos, quase pode ver dentro de seus quintais. De Halamish, um aeróstato de vigilância observa Nabi Saleh permanentemente.

Há anos, os moradores de Nabi Saleh ensinam a seus filhos o que fazer se forem detidos por soldados. Levaram ao vilarejo advogados para explicar a eles seus direitos de silêncio e aconselhamento e ex-prisioneiros para compartilhar suas experiências na detenção. Mas, em fevereiro, dois meses após a prisão de Ahed e antecipando o aumento da atividade militar contra o vilarejo, eles levaram o treinamento um passo adiante: reuniram algumas dezenas de crianças em um salão usado para reuniões comunitárias, algemaram-nas, vendaram seus olhos e reproduziram no volume máximo por alto-falantes uma gravação de um interrogatório real. Então retiraram as vendas e as algemas e perguntaram às crianças como estavam se sentindo e conversaram sobre seus direitos.

Poucos dias após o treinamento, o mais jovem participante do treinamento daquele dia – Suhaib, de 13 anos – foi detido por soldados. Levado diante de interrogadores, recusou-se a falar. Quando levaram um psicólogo, por solicitação de seu advogado, ele novamente se recusou a falar. E quando um ativista israelense próximo à família Tamimi teve permissão de falar com ele para encorajá-lo a falar com o psicólogo, o menino agradeceu pela preocupação, mas disse que exerceria seu direito ao silêncio.

Manal Tamimi, tia de Ahed Tamimi, em Nabi Saleh após a liberação de Ahed e sua mãe.

Manal Tamimi, tia de Ahed Tamimi, em Nabi Saleh após a liberação de Ahed e sua mãe.

Foto: Samar Hazboun para o Intercept

“Em vez de dar a essas crianças treinamento sobre interrogatórios e seus direitos na prisão e o que fazer em caso de prisão, eu gostaria de levá-los para treinar natação, caratê ou basquete”, disse Manal Tamimi, que tem quatro filhos, incluindo dois atualmente na prisão. “Mas esta é a nossa vida, e eles devem ser fortes o bastante para lidar com ela.”

“A pergunta que mais me me fazem é ‘por que você está colocando seus filhos em perigo, você precisa protegê-los, você não é uma boa mãe’”, acrescentou Manal Tamimi, que é uma conhecida ativista em Nabi Saleh e costuma viajar para falar sobre seu vilarejo ao público estrangeiro. “Tentamos fazer tudo o que podemos, tentamos aprender a salvar as crianças, mas, no final, não tem a ver conosco. (…) Não sei o que mais podemos fazer para protegê-las.”

“A prisão de Ahed foi uma lição para o vilarejo”, disse ela. “Vamos punir vocês através de seus filhos.”

Em 2009, os moradores de Nabi Saleh juntaram-se a outros vilarejos igualmente situados perto de assentamentos em expansão e lançaram um movimento de resistência popular e não-violento para protestar contra a ocupação e a expansão dos assentamentos. Todas as sextas-feiras, por quase uma década, os moradores do vilarejo, às vezes acompanhados por ativistas estrangeiros e israelenses, marchavam em direção a Halamish, agitando bandeiras palestinas, tentando alcançar uma nascente de água que pertencera ao vilarejo e que agora estava anexada ao assentamento. Todas as sextas-feiras, eram detidos ou obrigados a recuar pela ação de soldados, que disparavam gás lacrimogêneo e, às vezes, atiravam com armas de fogo contra eles.

Manifestantes palestinos levantam uma grande bandeira da Palestina em Nabi Saleh em 11 de setembro de 2015.

Manifestantes palestinos levantam uma grande bandeira da Palestina em Nabi Saleh em 11 de setembro de 2015.

Foto: Mohammad Alhaj / NurPhoto via Getty Images

Os moradores registraram os custos de seus protestos. Três pessoas foram mortas em Nabi Saleh desde o início das marchas semanais. Cerca de 550 pessoas ficaram feridas pelo menos uma vez e muitas delas se machucaram dezenas de vezes – uma contagem que leva em conta apenas visitas ao hospital. Quinze foram baleados com munição real. Cerca de 350 pessoas foram detidas por conta dos protestos semanais, incluindo mais de 50 mulheres, 48 jovens menores de 18 anos, 10 menores de 15 anos e duas crianças menores de 12. No final de 2016, quando os protestos começaram a perder força e acabaram, 22 habitantes de Nabi Saleh estavam na prisão.

Desde o início, os filhos de Nabi Saleh – a maioria com relação de parentesco e compartilhando o sobrenome Tamimi – participaram dos protestos. “Quando começamos, a primeira pergunta em nossa mente era: o que fazer com os filhos?”, disse o pai de Ahed Tamimi, Bassem, ao Intercept. “Nós tínhamos duas opções: mantê-los em casa e com medo do exército ou deixá-los participar.”

“Se os assustarmos, eles ficarão psicologicamente prejudicados, com traumas, podendo perder a autoconfiança e a confiança em suas famílias. Não serão capazes de resolver nenhum problema que irão enfrentar”, explicou ele, comparando a lógica à prática de imunizar crianças contra picadas de cobras administrando uma pequena dose de veneno. “Assustá-los é mais perigoso do que deixá-los confrontar a situação. Então, decidimos deixar que fizessem parte da luta.”

“Às vezes, os pais não têm escolha”, acrescentou, observando que, mesmo fora das marchas das sextas-feiras, os soldados faziam incursões frequentes ao vilarejo, invadindo casas no meio da noite, às vezes em várias ocasiões por semana, levando pessoas embora e deixando para trás de uma nuvem de gás lacrimogêneo. “Não existe espaço seguro na Palestina.”

E assim, sexta-feira após sexta-feira, e com os protestos periodicamente chamando a atenção do público internacional, “o mundo viu as crianças Tamimi crescerem”, disse Manal. “Desde o começo, as crianças foram envolvidas para quebrar o muro de medo dentro delas.”

Em 2 de novembro de 2012, aos 11 anos, Ahed Tamimi tenta dar um soco em um soldado israelense durante um protesto em Nabi Saleh.

Em 2 de novembro de 2012, aos 11 anos, Ahed Tamimi tenta dar um soco em um soldado israelense durante um protesto em Nabi Saleh.

Foto: Majdi Mohammed/AP

A criação de Ahed

Ahed era apenas uma das muitas crianças de Nabi Saleh – mas, muito antes de o vídeo dela dando tapas em um soldado viralizar, seus encontros com os militares levaram a momentos icônicos e lhe renderam fama mundial.

Em 2012, aos 11 anos, Ahed acenou com o punho fechado para um soldado – um gesto que foi capturado na câmera e cativou a atenção do mundo. Três anos depois, aos 14 anos, mordeu outro soldado que segurava seu irmão. Essa imagem também se tornou viral.

O pai, que estava por perto quando Ahed mordeu o soldado, ficou apavorado, mas não surpreso, com a reação da filha e lembra do momento como um dos mais difíceis que teve como pai, ao se ver paralisado entre querer intervir – colocando toda a família um risco ainda maior de violência – ou se afastar, mostrando aos filhos que era impotente para protegê-los.

Mas houve outros momentos, longe dos holofotes, em que Ahed mostrou seu caráter, contou o pai ao Intercept, os olhos azuis brilhando com algo entre orgulho e incredulidade pela força da filha. Uma noite, a família foi detida em um posto de controle militar no vilarejo. Como costumava acontecer, os soldados os impediam de voltar para suas casas de maneira agressiva. Ahed, que tinha 15 anos na época, começou a chamar o comandante do exército no posto de controle de “terrorista”. “Por que estão com essas armas? Para matar todas as crianças?”, o pai lembra dela perguntando. O comandante respondeu que tinha as armas para se defender e não queria matar ninguém. Ahed devolveu: “Tem certeza de que não vai matar ninguém? Então, se eu simplesmente passar, você não vai atirar em mim?” Ela então atravessou o posto de controle, espantando tanto os soldados quanto seus pais. O pai brincou: “Eu disse a ela para voltar e nos buscar”. Então acrescentou que o comandante ficou tão atordoado que deixou toda a família ir embora.

Em 2012, após o incidente do punho levantado, o então primeiro-ministro turco, Recep Erdogan, convidou Ahed para visitar a Turquia, onde foi recebida no aeroporto por dezenas de crianças vestindo camisetas com seu rosto estampado. Quando Erdogan contou a Ahed que estava com os palestinos, ela agradeceu e então perguntou por que ela precisava de um visto para viajar para a Turquia, enquanto os israelenses, não. O rosto de Erdogan ficou vermelho, contou o pai de Ahed, com ar divertido. Implacável, Ahed pediu a Erdogan para visitar os campos de refugiados sírios com ela.

Mas o incidente do tapa no ano passado alçou Ahed para a fama mundial de uma maneira que os incidentes anteriores não haviam feito. Durante seu período na prisão, um imenso mural com seu rosto foi pintado ao longo do muro de separação construído por Israel ao redor da cidade palestina de Belém, e sua foto foi exibida em comícios nos Estados Unidos e na Europa. (Dois artistas italianos que pintaram o mural foram presos pelas autoridades israelenses no sábado e ordenados a deixar o país.)

Ahed foi comparada a Arafat e Che Guevara.

Ahed, à esquerda, abraça o irmão depois que ela e outras mulheres palestinas lutaram para libertá-lo de um soldado israelense durante confrontos entre forças de segurança israelenses e manifestantes palestinos em 28 de agosto de 2015.

Ahed, à esquerda, abraça o irmão depois que ela e outras mulheres palestinas lutaram para libertá-lo de um soldado israelense durante confrontos entre forças de segurança israelenses e manifestantes palestinos em 28 de agosto de 2015.

Foto: Abbas Momani/AFP/Getty Images

Na vida privada, disse Bassem, Ahed não é como as pessoas que a assistiram em vídeo esperam que ela seja. Ela é tímida, quieta e protetora dos três irmãos. Mas também tem grande autoconfiança e equilíbrio, e uma expressão impassível, que herdou do avô. “Não é possível adivinhar o que ela está pensando”, disse ele, observando que Ahed também é uma adolescente típica que às vezes chora e briga com os pais. “Eu não posso controlá-la, ninguém pode controlar ninguém”, disse Bassem. “Ela é livre. E é corajosa. Mas isso pode ser um perigo para ela.”

Falando ao Intercept de Nabi Saleh uma semana antes da libertação da filha e da esposa, Bassem Tamimi alternou entre seus papéis como ativista de longa data da causa palestina e como pai e marido. Estava reformando a casa de pedra da família no topo do vilarejo – uma surpresa para a mulher – e brincou sobre como estaria em apuros se a bagunça da construção não fosse limpa antes dela voltar.

Mas, na maior parte do tempo, ele se preocupava com o futuro de Ahed – antecipando os problemas que enfrentaria ao ser solta, embora reconhecesse que ela teria de fazer suas próprias escolhas sobre como lidar com isso. Se deveria ir saudar o presidente palestino, Mahmoud Abbas, ele comentou, observando que ela inevitavelmente enfrentaria críticas de qualquer maneira em relação a uma figura divisiva na Palestina. “Se ela for, será um problema – se não for, será um problema.” (No domingo, Ahed se reuniu com Abbas, embora mais tarde tenha pedido uma reunião mais longa com ele no futuro para discutir as necessidades dos presos políticos palestinos).

E onde a filha deveria cursar a faculdade? Ahed, que quer ser advogada, estudou para os exames finais do ensino médio enquanto estava na prisão, aproveitando o tempo para ler romances, melhorar o inglês e trabalhar em um projeto de pesquisa comparando seus próprios interrogatórios e detenções aos padrões estabelecidos pela legislação internacional. No exterior, onde recebeu ofertas de bolsas de estudos, Ahed ficaria mais segura e teria uma educação melhor, disse o pai. Em Birzeit, uma universidade palestina perto de Nabi Saleh, estaria mais perto da família e de seu povo, mas também seria mais provável que fosse presa novamente. Seu irmão mais velho, Wa’ed, de 21 anos, é estudante em Birzeit, mas ele está atualmente na prisão, depois de ter sido detido pelos militares israelenses em maio passado, sua terceira vez.

“Ela estará em maior perigo aqui. Logo, estará novamente na prisão”, disse Bassem. “Eu gostaria que não houvesse ocupação e ela pudesse ser dançarina, jogadora de futebol, ou o que quisesse. (…) Mas é difícil planejar o futuro aqui.”

Aguardando pelo retorno da filha, Bassem parecia estar se conformando com seu novo papel, tanto como espectador da vida da filha hoje como quando ela mordeu o soldado, aos 14 anos de idade. Ahed amadureceu muito cedo, disse ele, e ela agora enfrentará os desafios decorrentes do status de símbolo. Ela terá de conviver com as opiniões e os planos das pessoas em relação a ela, e ser observada de perto por inimigos e apoiadores. “Isso trará mais responsabilidade e mais perigo”, disse ele. “Vão pensar que ela é ainda mais forte do que é. Ela é uma criança.”

“Sinto que minha responsabilidade agora é ser um conselheiro”, acrescentou ele. “Ela precisa de mim para lhe dar apoio, não para planejar sua vida. Ela é capaz de decidir, e eu devo ser a pessoa em quem ela confia.”

Um ativista italiano pinta um retrato de Ahed Tamimi em uma parte do muro de separação israelense em Belém.

Um ativista italiano pinta um retrato de Ahed Tamimi em uma parte do muro de separação israelense em Belém.

Foto: Samar Hazboun para o Intercept

Centenas de Aheds

Se a história de Ahed trouxe alguma consciência para a situação das crianças palestinas nas prisões militares israelenses, isso não impediu a detenção, o interrogatório e a prisão de muitos outros. No final de maio, 291 menores palestinos estavam sendo mantidos em prisões israelenses como “detentos de segurança”, incluindo 49 adolescentes e crianças com menos de 16 anos, segundo dados do grupo israelense de direitos humanos B’Tselem. Entre 500 e 700 menores palestinos são detidos anualmente pelos militares israelenses, de acordo com o Defence for Children International-Palestine (DCI), um grupo de direitos humanos que há muito monitora os abusos contra crianças palestinas em todas as etapas do processo de detenção. Desde 2010, pelo menos 8 mil adolescentes e crianças palestinos foram detidos e processados no sistema militar israelense.

Uma maioria esmagadora deles é detida por ofensas que vão desde a participação em manifestações e confrontos, até postagens em mídias sociais ou “insultar a honra de um soldado”, disse Ruba Awadallah, um oficial de pesquisa e advocacia do DCI. Enquanto alguns menores são presos por crimes mais sérios e violentos – como esfaqueamentos ou tentativas de esfaqueamento – a maioria é acusada do que se tornou o símbolo de fato da resistência palestina: atirar pedras.

Apenas em Nabi Saleh, cerca de 50 pessoas, incluindo vários menores e jovens adultos, foram presos desde que Ahed estapeou o soldado, incluindo os dois filhos mais velhos de Wa’ed e Manal. Quatorze deles, incluindo três menores, permanecem na prisão. Mohammed Tamimi – o primo que foi baleado por soldados à curta distância em dezembro – foi preso em fevereiro apesar de sua condição crítica e libertado apenas após pressão pública. “Como agora ele está melhor, esperamos que o levem a qualquer dia”, disse Manal.

Enquanto Manal falava, seu marido Bilal desenrolou um cartaz feito pela família com fotos de 19 integrantes da família Tamimi recentemente detidos sendo exibidos como raios ao redor da imagem de um sol e as palavras “Nabi Saleh” e “resistir”. Um dos fotografados, Wiam Tamimi, outro primo de Ahed, de 17 anos, foi libertado dois dias antes da minha visita. Eu o conheci enquanto ele e outros parentes conversavam pelo FaceTime com o pai dele, que mora em Nova York. Wiam não falou muito sobre sua permanência de cinco meses na prisão, mas um tio disse que os soldados invadiram sua casa no meio da noite e o levaram embora. Foi sua segunda detenção pelo exército, mas a primeira vez que foi condenado à prisão. Na prisão, Wiam contou, ele passou a maior parte do tempo entediado. “Eu não sentia medo”, disse ele com um sorriso tímido. “Eu sabia o que aconteceria pelo que disseram os outros.”

Palestinos carregam o cadáver de ‘Iz a-Din Tamimi, durante seu funeral em 6 de junho de 2018.

Palestinos carregam o cadáver de ‘Iz a-Din Tamimi, durante seu funeral em 6 de junho de 2018.

Foto: Issam Rimawi/Anadolu Agency/Getty Images

As crianças Tamimi não são experientes apenas com interrogatórios e prisões: elas também assistiram a soldados israelenses matarem alguns de seus parentes. O mais recente, ‘Iz a-Din Tamimi, de 20 anos de idade, foi morto em junho, levando um tiro nas costas enquanto fugia depois de atirar pedras em soldados que haviam entrado no vilarejo. As regulamentações para abrir fogo dos militares israelenses permitem o uso de fogo letal somente quando as forças de segurança ou outras estão em perigo mortal e não há qualquer alternativa disponível. B’Tselem, que investigou a morte de Tamimi, disse que sua morte não cumpriu esses padrões e foi “ilegal e injustificada”.

‘Iz-a-Din foi morto bem na frente da casa de Manal, na entrada do vilarejo. Seus filhos mais jovens, Rand, de 14 anos, e Samer, de 11 anos, estavam em casa na época, saíram correndo quando ouviram os tiros e encontraram um soldado chutando o corpo do primo. O soldado apontou a arma para Samer e disse: “Você tem um segundo. Se não for embora, vou atirar em você como atirei nele”, contou Manal. Então os garotos voltaram para dentro de casa e observaram das janelas enquanto os soldados levaram o corpo para longe e atiraram granadas de efeito moral na multidão que havia se formado.

Samer, que escutava à minha conversa com Manal, estava tendo dificuldades para dormir desde aquele dia, disse Manal. “Ninguém quer que o filho de 11 anos veja seu primo sendo morto, chutado e sangrando na frente dele, com medo de levar um tiro”, disse ela. “Não é fácil ver um primo morrer na sua frente. Eles são crianças.”

Então acrescentou: “É a pior coisa de ser uma mãe palestina”.

Nisreen Masaeed tem uma foto de seu filho de 16 anos, Mohammad, que atualmente está cumprindo 10 meses de prisão. Ela está dormindo na cama dele, retratada aqui, desde que ele foi para a prisão.

Nisreen Masaeed tem uma foto de seu filho de 16 anos, Mohammad, que atualmente está cumprindo 10 meses de prisão. Ela está dormindo na cama dele, retratada aqui, desde que ele foi para a prisão.

Foto: Anthony Tucker para o Intercept

Crianças na prisão

Como a história de Ahed cativou o mundo, Nabi Saleh viu o surgimento de manifestações de solidariedade internacionais, mesmo que às vezes elas se baseassem em premissas questionáveis. Um alto funcionário israelense – que chamou os Tamimi de “atores pagos” – disse que Ahed foi escolhida por causa dos longos cabelos loiros. Manal descartou a ideia como sendo ridícula, mas concordou que a aparência de Ahed ajudou em sua popularidade.

“Para mim, isso parece racista”, disse ela, observando que recebeu muitas mensagens de europeus e americanos dizendo-lhe que Ahed se parecia com sua filha. “Sentir simpatia ou solidariedade em relação a uma criança só porque ela é loira e fechar os olhos para o sofrimento de outras é racismo.”

No domingo, depois da libertação de Ahed, Manal disse que, embora estivesse feliz por ter a sobrinha em casa, seu retorno também provocava “sentimentos misturados”, especialmente porque o irmão de Ahed e os dois filhos de Manal permaneceram na prisão. Outra jovem palestina, Yasmin Abu Srour, foi liberada de uma prisão israelense na semana passada, também depois de cumprir uma sentença de oito meses.

“Mas ninguém se importa com ela”, disse Manal. “Nós não somos a única família que tem prisioneiros.”

Na verdade, se Nabi Saleh se tornou um símbolo da resistência palestina e recebeu atenção internacional e solidariedade, histórias como as de Ahed e seus primos são comuns em toda a Cisjordânia e Jerusalém Oriental – embora a maioria permaneça praticamente desconhecida para o mundo exterior.

Quase metade de todos os adolescentes e crianças detidos é presa por soldados que invadem suas casas no meio da noite, de acordo com a documentação do DCI. Às vezes, as crianças são separadas dos pais nas próprias casas; outras vezes, os pais estão lá, mas impedidos de intervir. “É o começo da quebra do relacionamento entre pais e filhos”, disse Awadallah. “Porque as crianças sentem que seus pais não são capazes de os proteger.”

Privadas de sono, sozinhas, vendadas e algemadas, as crianças são então levadas embora – muitas vezes forçadas a sentar-se no chão de metal dos jipes militares. Muitos descrevem essa primeira jornada como uma das fases mais traumatizantes de sua detenção, e o momento em que são mais propensos a serem agredidos verbal e fisicamente.

O próximo passo é um interrogatório – às vezes, o primeiro de vários. De acordo com a lei militar israelense, adolescentes e crianças têm direito a consulta jurídica antes de serem interrogados, mas, na prática, isso raramente acontece. “Às vezes, eles dizem: ‘Você tem o direito de conversar com um advogado’, mas geralmente não esperam pelo advogado”, disse Yael Stein, diretor de pesquisa do B’Tselem, ao Intercept. “Eles dizem: ‘Você tem o número de um advogado? Não? Então não, isso não importa’”.

Os menores detidos são obrigados por lei a comparecer perante um juiz dentro de 96 horas após a sua detenção (os adultos podem esperar semanas para ver um juiz). É quando veem suas famílias pela primeira vez, apesar de os parentes sentarem do outro lado da sala de audiência e não terem permissão de falar com eles ou tocá-los. As crianças entram no tribunal vestindo roupas marrons de prisão, com os pés acorrentados, e todos os procedimentos judiciais são feitos em hebraico – com um intérprete traduzindo para o árabe apenas perguntas feitas diretamente ao menor.

A maioria é condenada a sentenças entre três e 12 meses de prisão, mais multas e um período de liberdade condicional. Se as famílias não podem pagar as multas, os condenados recebem sentenças mais longas. A liberdade condicional também é problemática, porque muitas das crianças que entram no sistema de detenção israelense vivem perto dos postos de controle ou do muro de separação, onde confrontos e manifestações são frequentes. Uma criança que volta caminhando do mercado para casa pode ser facilmente fotografada por uma das muitas torres de vigia militares, e os militares podem usar a imagem como prova de que ela esteve nas ruas durante os protestos – uma violação da liberdade condicional, disse Awadallah. “Isso realmente restringe a vida deles.”

Após a sentença, a maior parte do abuso termina. Os menores têm acesso à educação na prisão, embora as aulas não sigam o currículo palestino. Um aluno do 10º ano entrevistado pelo Intercept disse que as aulas que frequentou na prisão eram do “primeiro grau”. Os adolescentes e as crianças detidos não recebem instrução científica. “Estão pensando nessas crianças como terroristas, pessoas más ou coisa parecida, então, talvez estejam pensando: ‘O que aconteceria se ensinarmos química às crianças palestinas na prisão?’”, disse Awadallah. Muitas vezes, eles abandonam a escola após a libertação, e muitos são presos novamente.

Mohammed Masaeed, de 16 anos, do campo de refugiados de Aida, em Belém, tinha 14 anos quando foi preso pela primeira vez, junto com seu irmão de 13 anos, Anas. Os meninos foram acusados de atirar pedras em soldados que haviam invadido o acampamento. Eles foram multados e sentenciados a três meses de prisão. Um ano depois, em janeiro passado, Mohammed estava caminhando até uma loja de tênis perto de sua casa quando os soldados o prenderam novamente. Houve confrontos no acampamento e, mais uma vez, os soldados o acusaram de atirar pedras. Como estava em liberdade condicional, Mohammed foi condenado a 10 meses de prisão, que está cumprindo atualmente.

A mãe dele, Nisreen Masaeed, disse ao Intercept que, no dia da prisão, ela correu para a entrada do acampamento e encontrou ele e outras crianças ajoelhadas, com as mãos amarradas atrás das costas. Quando eles se mexiam, um soldado batia neles na frente dos pais. (Depois, quando Nisreen visitou Mohammed na prisão, ele contou a ela que havia sido espancado nas pernas e nos joelhos durante a prisão, fazendo com que ajoelhar-se fosse ainda mais doloroso).

Mas, apesar da sentença mais longa e do fato de que Mohammed seria forçado a perder o 10º ano da escola, Nisreen disse que a primeira prisão foi mais difícil para a família, porque na época eles não tinham nenhum entendimento do sistema judiciário militar e não estavam familiarizados com as longas esperas e o tratamento seco que receberiam durante audiências judiciais e visitas à prisão. A primeira prisão, acrescentou, transformou a personalidade de seus filhos. Mohammed nunca falava a respeito e, quando o irmão mais novo contava que ele havia sido espancado e chorado, ele negava.

“É da personalidade dele esconder seus verdadeiros sentimentos”, disse Nisreen. “Ele sempre diz que está bem.”

“Não é vida normal”, acrescentou ela. Mas então ela lembrou do que um conselheiro escolar disse ao filho mais novo, cujas notas caíram em reação à primeira prisão de seus irmãos. “Como palestinos, esta é a situação em que vivemos. Você precisa se acostumar com isso.” A família, ela disse, estava se acostumando com isso.

Soldados israelenses detêm um garoto palestino em Hebron em 15 de dezembro de 2017, durante um protesto contra a decisão do presidente norte-americano Donald Trump de reconhecer Jerusalém como a capital de Israel.

Soldados israelenses detêm um garoto palestino em Hebron em 15 de dezembro de 2017, durante um protesto contra a decisão do presidente norte-americano Donald Trump de reconhecer Jerusalém como a capital de Israel.

Foto: Nasser Shiyoukhi/AP

Soldados não mentem

Os tribunais militares israelenses possuem uma incrível taxa de condenação de 99,7%. Mas a maioria dessas condenações, dizem os defensores, baseia-se em confissões extraídas durante interrogatórios. Tanto para crianças quanto para adultos, abusos verbais e físicos nas mãos dos soldados que os detêm pela primeira vez são seguidos por abuso psicológico, intimidação e ameaças por parte dos interrogadores dos serviços de segurança de Israel, o “Shabak”.

Em 2017, o DCI documentou os casos de 161 adolescentes e crianças detidos – uma lista incompleta –, incluindo seis com menos de 13 anos. Desses, 74% relataram violência física e 61% contaram terem sido submetidas a abuso verbal, intimidação e ameaças – com interrogadores rotineiramente dizendo-lhes que prenderiam seus familiares ou demoliriam suas casas. Muitos relataram ter sido revistados nus, não receberem comida e água e terem acesso a banheiro negado, sendo forçados a posições de estresse e mantidos em confinamento solitário. A maioria não tinha advogado ou pai presente durante o interrogatório, e mais da metade foi obrigada a assinar documentos em hebraico, um idioma que a maioria dos palestinos não sabe ler. A essa altura, em um interrogatório, disse Awadallah, “muitas crianças confessam porque querem apenas que a experiência traumatizante acabe”.

Nasser Nassar e Usayed Mazyad, dois primos de 16 anos da cidade de Anabta, no norte da Cisjordânia, foram detidos em fevereiro enquanto caminhavam pelas colinas atrás da casa de Usayed, um trecho calmo de oliveiras e terrenos rochosos. Em entrevistas separadas, os rapazes disseram ao Intercept que ouviram vozes falando em hebraico e, antes que percebessem, viram-se cercados por duas dúzias de soldados, que os empurraram ao chão, os algemaram e vendaram. (Em declarações juramentadas obtidas posteriormente pelo Intercept, os meninos também disseram que os soldados os chamavam de “cachorro” e “filho de uma prostituta”, e que os chutavam e davam tapas “sempre que tinham vontade”.) Os soldados então levaram os primos até uma delegacia de polícia em um assentamento próximo. Durante o transporte, o abuso continuou. Em um ponto, um soldado pisou nos grilhões dos pés de Nasser, fazendo-o cair no chão.

Na delegacia, prisioneiros palestinos adultos, observando a pouca idade de Nasser e Usayed, pediram aos soldados que lhes dessem água ou os deixassem usar o banheiro. Eles não fizeram nem uma coisa nem outra. Os primos foram finalmente levados diante dos interrogadores, sozinhos, no meio da noite.

Nasser disse que o interrogador perguntou por que ele estava atirando pedras, batendo os punhos na mesa e andando ao redor dele “para criar uma atmosfera de medo”, disse ele. Quando o garoto respondeu que não estava atirando pedras, o interrogador “se levantou, me deu um tapa e disse que os soldados não mentiam e que eles disseram em suas declarações que nos viram atirando pedras”, disse Nasser em sua declaração juramentada. Quando ele disse ao interrogador que queria fazer uma queixa contra os soldados que o espancaram, o homem respondeu que “os soldados de defesa são educados, tratam bem as pessoas e agem de acordo com a lei”.

Usayed contou que disse ao interrogador que não falaria a menos que suas algemas e venda fossem removidas e ele pudesse falar com um advogado. O interrogador removeu a venda, mas não as algemas, e disse-lhe que telefonaria para um advogado “quando eu acabar com você”, disse o rapaz ao Intercept. Então o interrogador entregou-lhe um pedaço de papel e disse: “Estes são os seus direitos”. O menino leu no papel que tinha o direito de ficar em silêncio e disse ao interrogador que faria isso, mas o interrogador começou a gritar com ele, perguntando-lhe: “Por que você acha que eu trouxe você aqui? Você tem que dizer alguma coisa.”

Os meninos não viram os pais até a primeira aparição diante do tribunal. Lá, a mãe de Nasser teve coragem de perguntar ao filho do outro lado do tribunal como ele estava, mas os soldados a interromperam.

Após a sentença – a seis meses de prisão e o equivalente a uma multa de US$ 1.600 –, o medo e os maus tratos diminuíram, transformando-se em tédio. Acordos informais com administradores de prisões permitem que prisioneiros palestinos adultos cuidem das crianças. As famílias não podem visitar os filhos nos primeiros três meses – o tempo médio que se leva para obter permissões através do Comitê Internacional da Cruz Vermelha – e, mesmo assim, eles só podem ver os filhos através de um vidro. “Ele parecia tão cansado”, disse a mãe de Nasser sobre a primeira visita. “Eu só queria abraçá-lo.”

Nasser e Usayed coravam o rosto e às vezes riam ao contar suas histórias, parecendo mais jovens que seus 16 anos. Falaram sobre a grande festa realizada em sua homenagem quando foram libertados: um comboio de carros lotados de amigos desfilou com eles pela cidade, como em um casamento. Nasser falava um pouco mais, enquanto Usayed concordava com a maior parte das respostas dele. A mãe contou que, quando o irmão mais velho chegou em casa da prisão, ele não queria falar sobre isso. “Ele achava que, se nos contasse os detalhes, ficaríamos muito tristes”, disse ela. Mas quando Usayed chegou em casa, ela acrescentou, a família o encheu de perguntas sobre o modo como ele foi tratado. “Porque, em nossa mente, ele é o bebê.”

Ahmad Shamaly, fotografado em sua casa em Belém, na Cisjordânia.

Ahmad Shamaly, fotografado em sua casa em Belém, na Cisjordânia.

Foto: Anthony Tucker para o Intercept

Justiça sob ocupação

Como Nasser e Usayed, muitos dos menores entrevistados pelo Intercept negaram ter atirado pedras ou participado de manifestações – mas outros admitiram ter feito isso.

Ahmad Shamaly, de 16 anos, de Belém, disse ao Intercept que, quando os soldados o prenderam em janeiro passado, ele inicialmente negou ter atirado pedras. Quando os interrogadores lhe mostraram dois vídeos que pareciam mostrar que ele fazia exatamente isso, voltou a negar. Então, ele disse, um interrogador o avisou: “Se você não confessar, vamos usar outro método”.

Ahmad ouvira dos amigos que seria mantido em confinamento solitário até confessar – ou pior. “Eu sabia qual era o outro método”, disse ele. “Como sabia o que havia acontecido com outras pessoas, eu disse que pegaria o atalho.” Ele pediu para ver os vídeos novamente e confessou ter atirado pedras apenas no caso em que a prova em vídeo contra ele era inegável. Acabou cumprindo quatro meses de prisão, saindo no primeiro dia das provas finais, pelas quais passou sem estudar.

Quando perguntei se ele achava que o castigo tinha sido justo ou proporcional, Ahmad hesitou. Então o irmão mais velho, que havia escutado a conversa, interveio. “Você está sob ocupação. Você está na sua própria terra. Você não é culpado de nada.”

“Não estamos dizendo que todas as crianças palestinas são inocentes. Não estamos dizendo que nenhuma criança palestina jamais atirou uma pedra ou esfaqueou um soldado”, disse Awadallah, observando a ironia de que os filhos de colonos israelenses frequentemente atiram pedras ou atacam palestinos, muitas vezes sob os olhos de soldados israelenses que não fazem nada para impedi-los. (Embora morem na Cisjordânia, os colonos que cometem crimes são processados pelo sistema de justiça criminal de Israel e não pelo militar usado para palestinos.)

“O que estamos dizendo é que, não importa o que eles fizeram, não importa sua inocência ou culpa, nenhuma criança deve ser tratada dessa maneira.”

Em 2009, após uma série de reportagens criticando o tratamento dado por Israel a crianças palestinas, Israel instituiu uma corte militar separada para menores, mas grupos de direitos humanos a criticaram como uma mudança cosmética destinada apenas a apaziguar as críticas públicas. Em Ofer, a base militar na Cisjordânia, onde ocorrem muitos processos judiciais, o tribunal juvenil era praticamente indistinguível dos adultos próximos. Como os outros, foi realizada em uma estrutura sem cerimônia que se assemelhava a um contêiner de transporte.

Stein, do B’Tselem, disse que o público israelense saudou a criação da corte como prova dos valores humanos e dos padrões de direitos humanos do país. “Quando se chega ao tribunal juvenil militar, não acontece nada”, disse ela. “Parece melhor. O tribunal é maior. A atmosfera é melhor. Mas acaba aí. (…) Mas Israel ainda se orgulha disso. Não deixam que os fatos os incomodem.”

Tal como acontece com os adultos, observou Stein, os procedimentos para menores raramente veem a apresentação de provas ou testemunhas. As sentenças são quase sempre decididas em acordos judiciais, e a extensão dos procedimentos de detenção – pelos quais os militares prorrogam a prisão preventiva de crianças para obter confissões ou forçar um apelo – continuam acontecendo em tribunais de adultos. “Todos os casos se baseiam na admissão do menor ou no enquadramento por outra pessoa, geralmente outro menor que foi detido, interrogado e ameaçado”, disse Stein. “É um sistema distorcido. É difícil chamar isso de sistema de justiça. … É chamado de tribunal, mas é outra coisa.”

“Todos os tribunais militares representam os interesses da ocupação israelense, não da sociedade palestina”, acrescentou ela, observando que as questões sistêmicas do devido processo eram apenas um reflexo de um problema muito mais amplo com a legitimidade dos tribunais. “Uma criança que esteja atirando pedras não deve ir para a cadeia.”

Ahed recebe um telefonema depois de jornalistas e parentes deixarem sua casa após o fim das comemorações pós-libertação.

Ahed recebe um telefonema depois de jornalistas e parentes deixarem sua casa após o fim das comemorações pós-libertação.

Foto: Samar Hazboun para o Intercept

No domingo, Ahed e sua mãe conclamaram o público a não esquecer as centenas de crianças palestinas que permanecem nas prisões israelenses – e as que de outra forma são afetadas pela ocupação.

“Nossos filhos são o futuro, eles são o futuro da nossa luta, e devemos sempre nos certificar de que os apoiamos na busca de sua liberdade e na busca de seus direitos”, disse Nariman Tamimi em uma entrevista coletiva horas depois de sua libertação. “Porque as crianças são o sal da terra, porque são o nosso futuro, precisamos estar por trás delas e ter certeza de que elas têm forças para continuar e seguir em frente.”

Mas, seguindo a própria mensagem, deixou a filha falar mais.

“É claro que me senti extremamente feliz por ser libertada da prisão”, disse Ahed à multidão, visivelmente exausta pelas emoções do dia, mas seguindo imperturbável, enfrentando os holofotes com naturalidade. “Mas minha felicidade não foi completa porque tenho irmãos e irmãs que permanecem presos.”

“Minha felicidade será completa quando eles forem libertados.”

Foto do título: Ahed Tamimi, à direita, com seu pai, Bassem, e sua mãe, Nariman, chegam em Nabi Saleh após a libertação das mulheres em 29 de julho de 2018.

Tradução: Cássia Zanon

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