SAO PAULO, SP, BRASIL 06-12-2016: Juiz Sergio Moro ao lado de Aecio Neves (PSDB) e Michel Temer (PMDB) durante a cerimonia de entrega do premio Brasileiro do Ano, da revista Istoé, no Citibank Hall. Serão premiados, entre outros, Michel Temer (Brasileiro do Ano), Sergio Moro (Justiça), Eduardo Paes (Gestão) e João Doria (política). (Diego Padgurschi /Folhapress - PODER)

Sergio Moro, Temer e tucanos confraternizam em clima de festa de firma

Premiação da revista Isto É mais parecia uma confraternização de fim de ano entre amigos.

SAO PAULO, SP, BRASIL 06-12-2016: Juiz Sergio Moro ao lado de Aecio Neves (PSDB) e Michel Temer (PMDB) durante a cerimonia de entrega do premio Brasileiro do Ano, da revista Istoé, no Citibank Hall. Serão premiados, entre outros, Michel Temer (Brasileiro do Ano), Sergio Moro (Justiça), Eduardo Paes (Gestão) e João Doria (política). (Diego Padgurschi /Folhapress - PODER)

No último domingo,milhares de brasileiros saíram às ruas para defender a Lava Jato, protestar contra o boicote do Congresso ao pacote anticorrupção e contra a anistia de caixa 2. Inexplicavelmente, as manifestações concentraram a revolta em Renan, mas pouparam Aécio Neves e Michel Temer.

É bastante curioso o recorte escolhido pelos manifestantes, já que Aécio foi o principal articulador da urgência para aprovar o pacote anticorrupção, enquanto Michel Temer mobilizou a bancada governista para tentar aprovar a nova Lei de Leniência e anistia do caixa 2. Dois dos principais articuladores do boicote à Lava Jato foram solenemente ignorados pelas pessoas de bem que saíram às ruas para defender a operação.

Mas não é justo apontar a confusão dos manifestantes quando seu messias também parece confuso. Sergio Moro, o juiz que se tornou o grande símbolo da Lava Jato, apareceu bastante à vontade ao lado dos principais articuladores do boicote à operação na festa de premiação dos Brasileiros do Ano promovida pela revista Isto É.

Sergio Moro, Temer e tucanos confraternizam em clima de festa de firma

Diego Padgurschi /Folhapress

O que temos nessa foto? Um juiz venerado graças à fama de implacável contra a corrupção e, em volta dele, o grupo político que está no poder e atolado até o pescoço em casos de…corrupção. Pouco antes da festa, um Moro brincalhão disse: “O único pedido que fiz à organização do evento foi não me colocar na mesma mesa com o Renan e o ministro Marco Aurélio”. Ao que parece, ter sentado ao lado de um ultradelatado na Lava Jato não foi um problema, muito pelo contrário.

Há de se ter muita boa vontade para ver republicanismo nessa imagem, ainda mais no meio de uma gravíssima crise política, institucional e econômica. É uma foto para se apreciar ouvindo o áudio de Jucá & Machado como trilha sonora. 

No Senado, Moro chamou de “açodamento” a tentativa de incluir penas para juízes e promotores no pacote anticorrupção, mas estava reluzente na festa ao lado de Aécio  o homem que tinha pressa em aprovar o “açodamento”. Mesmo assim, é possível ver os dois cochichando e até gargalhando nas fotos do evento.

De repente, o açodamento virou adoçamento. Não é demais lembrar que Moro é o juiz à frente de uma operação em que Aécio já foi deletado diversas vezes por diferentes acusadores e nunca foi convocado nem para tomar um cafezinho na Polícia Federal. Fica parecendo que, apesar da fartura de indícios e testemunhas em torno das propinas de Aécio, ainda falta aquela jabuticaba jurídica chamada convicção.

A foto me lembrou bastante dos estreitos laços de amizade entre o senador e Gilmar Mendes. Talvez seja o caso do judiciário brasileiro eleger Aécio o Brasileiro do Ano.

A imagem virou o assunto mais comentado no mundo no Twitter. Na noite da premiação, o UOL chegou a publicá-la com destaque:

Mas, inexplicavelmente, a foto foi trocada* pouco tempo depois:

Não vamos especular os motivos da troca, mas, de qualquer forma, me lembrou muito o episódio “Podemos tirar se achar melhor”, protagonizado pela Reuters.

Serra, acusado em delação da Odebrecht de ter recebido milhões em propina numa conta na Suíça, também bateu um papo amistoso com Sergio Moro e sua esposa nos bastidores. Segundo Sonia Racy, do Estadão, a conversa não foi “jurídica ou sobre diplomacia”, mas cercada por gentilezas e elogios mútuos. Bom, pelo menos, quem sabe, nosso chanceler finalmente aprendeu o significado da sigla NSA com Moro um homem muito bem relacionado com as agências norte-americanas.

O grande herói da recente cruzada contra a roubalheira participa de eventos organizados por tucanos, é premiado juntamente com tucanos por grandes empresas de comunicação e não vê nenhum problema em posar sorridente ao lado de tucanos delatados na Lava Jato. A proximidade de Moro com o PSDB é tanta que, na última segunda-feira, ele deixou os trabalhos de lado e foi participar de um evento comemorativo do governo de Mato Grosso, convidado pelo governador Pedro Taques (PSDB). Além de distribuir muita simpatia, Moro não perdeu a oportunidade de elogiar um outro tucano:

“Não gosto de falar mal de ninguém, mas vendo a lista dos deputados federais desse Estado, um único deputado votou contra essa emenda de criminalização de juízes. Não é política partidária. Então, vou me permitir falar bem do Nilson Leitão.”

Eu também não gosto de falar mal de ninguém, mas esse tucano foi delatado por um empresário na Operação Rêmora, comandada pelo Ministério Público de Mato Grosso. Nilson é acusado de participar de um esquema fraudulento que desviava dinheiro da Secretaria de Educação daquele estado. Não me parece ser um deputado elogiável pelo maior herói anticorrupção do país.

Moro conseguiu um espaço em sua agenda lotada pelas tarefas da Lava Jato para ir a um evento promovido por um governo administrado pelo PSDB e ainda elogiou um deputado do partido acusado de desviar verbas da Educação. A luta contra a corrupção no Brasil é mesmo muito curiosa.

Apesar da veneração em torno da figura de Moro, há outra parcela da população que o acusa de proteger tucanos. Diante de tantas evidências, essa não é uma percepção vazia, convenhamos. O juiz parece não estar preocupado e não faz a mínima questão de manter publicamente a postura imparcial que se espera do cargo.

Só ficou faltando premiar Eduardo Cunha na categoria Ética.

Se o clima no Roda Viva foi de romance, na festa da Isto É foi de paixão. Uma louca paixão. O grande vencedor da noite, escolhido como o Brasileiro do Ano, foi o presidente não-eleito Michel Temer. A partir de misteriosos critérios, a revista elegeu um brasileiro altamente rejeitado pela população, que está envolvido em inúmeros escândalos de corrupção e que pode até sofrer impeachment por ter cometido crime de responsabilidade no caso Geddel.

O amor estava mesmo no ar! João Doria Jr (PSDB) passou o ano inteiro dizendo que não é político, mas foi consagrado pela Isto É como o maior brasileiro na categoria “Política”. Só ficou faltando premiar Eduardo Cunha na categoria Ética.

Foi bonita a festa de confraternização de fim de ano dessa turma de amigos. Se publicamente não houve nenhum pudor em revelar tanta promiscuidade, fico imaginando como deve ter sido o coquetel privé.

* No dia 08/11, depois de muitos questionamentos nas redes sociais, o UOL colocou de volta a foto original da reportagem, mas não deu nenhuma explicação sobre a mudança.

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