Civil police officers threatening to go on strike demonstrate against the government for arrears in their salary payments, in Rio de Janeiro, Brazil, June 27, 2016, tEarlier this month, Rio state authorities declared a "state of public calamity" over a major budget crisis in order to release emergency funds to finance the Olympic Games due to begin in August. / AFP / VANDERLEI ALMEIDA (Photo credit should read VANDERLEI ALMEIDA/AFP/Getty Images)

Globo ataca policiais em protesto para proteger seus lucros com as Olimpíadas

Conglomerado Globo não revela seus enormes interesses financeiros enquanto ataca luta "antiética" dos policiais por interesses financeiros próprios — um erro básico na ética jornalística.

Civil police officers threatening to go on strike demonstrate against the government for arrears in their salary payments, in Rio de Janeiro, Brazil, June 27, 2016, tEarlier this month, Rio state authorities declared a "state of public calamity" over a major budget crisis in order to release emergency funds to finance the Olympic Games due to begin in August. / AFP / VANDERLEI ALMEIDA (Photo credit should read VANDERLEI ALMEIDA/AFP/Getty Images)

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Policiais e bombeiros do Rio de Janeiro que protestam contra a falta de pagamento com a chegada das Olimpíadas estão se comportando de forma “eticamente condenável” “em ações que beiram o terrorismo”, de acordo com o editorial de quarta-feira do maior jornal do Rio, O Globo. O jornal, propriedade do Grupo Globo, que pertence e é controlado pelos bilionários da família Marinho, é o conglomerado midiático dominante no Brasil, além de ser o principal patrocinador e beneficiário das Olimpíadas de 2016.

Ao atacar a polícia, o jornal não criticou a epidemia de assassinatos de jovens negros cometidos pela polícia, nem a ocupação militar em diversas favelas do Rio que fracassou na tentativa de melhorar a segurança pública, nem as milícias, quadrilhas criminosas formadas por policiais fora de serviço e ex-policiais, que controlam de forma violenta e praticam extorsões em diversas áreas da cidade. Em vez disso, a indignação do jornal foi dirigida aos servidores públicos que protestam de forma pacífica por um direito trabalhista fundamental – o recebimento de salários – em uma manifestação que acaba por ameaçar os interesses corporativos milionários de O Globo. Fato não revelado pelo jornal a seus leitores.

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Foto: Imgur

“Bem-vindo ao inferno. Policiais e bombeiros não recebem. Quem vem ao Rio de Janeiro não está seguro”, dizia em inglês a faixa carregada por policiais insatisfeitos no aeroporto internacional do Rio na segunda-feira, apenas algumas semanas antes da cerimônia de abertura dos jogos. O Estado do Rio de Janeiro, após desperdiçar bilhões em isenções fiscais generosas e contratos de construção superfaturados com empresas notoriamente corruptas para as Olimpíadas, declarou estado de calamidade pública, sendo forçado a cortar benefícios, atrasar salários e pensões de servidores públicos e cortar o orçamento operacional. Há meses, policiais e bombeiros encontram-se em conflito com o Estado por conta das defasagens no orçamento. O sindicato estadual dos professores está em greve há quase quatro meses.

Na semana passada, o governo federal anunciou uma injeção emergencial de 2,9 bilhões de reais para ajudar a remediar o problema. No entanto, as unidades de polícia operam com falta de gasolina, tinta de impressora, papel higiênico e até água, enquanto a violência chega a níveis fora do controle. Até agora, cinquenta e nove policiais foram assassinados no estado neste ano e partes da capital lembram zonas de guerra de baixa intensidade, enquanto policiais mal treinados e equipados enfrentam quadrilhas criminosas fortemente armadas em tiroteios. Policiais insatisfeitos, com o apoio de seus líderes, ameaçam entrar em greve durante as Olimpíadas, se não receberem seus salários.

“Jogar contra a Rio-2016 é opção irresponsável e contraproducente”, disse O Globo, insinuando que os policiais têm motivações políticas e são patrocinados por sindicatos (em clara alusão ao Partido dos Trabalhadores — que recebe apoio dos sindicatos — da presidente suspensa Dilma Rousseff, contra quem O Globo e suas filiais vem realizando uma campanha veemente). “Mas isso deve ser feito no âmbito doméstico, dentro da esfera apropriada — nunca por meio de chantagens contra um evento que trará benefícios às próprias finanças estaduais”, continuou.

Porém, o contundente editorial não menciona que o Globo é um dos grandes intervenientes dos Jogos Olímpicos, com enormes investimentos em jogo: sua empresa controladora, o enorme império midiático Grupo Globo, é fornecedor e patrocinador oficial das Olimpíadas de 2016, ao lado de outras duas emissoras, e pagou ao Comitê Olímpico Internacional 190 milhões de dólares pelos direitos de transmissão em rede nacional e on-line dos Jogos de Inverno de 2014 e das Olimpíadas de 2016. Além disso, o Grupo Globo possui um contrato de transmissão exclusiva de 2016 a 2032 por uma quantia não revelada.

De acordo com a AdAge, a Rede Globo recebeu 420 milhões de dólares pela venda de pacotes para as Olimpíadas “que incluem um número elevado de anúncios e menções em televisão e na Globo.com” de outros patrocinadores oficiais, como Coca-Cola, Procter & Gamble, Bradesco e Claro.

Demonstrators hold a banner reading "Olympics for whom?" next to a policeman during a protest against the Rio 2016 Olympic Games in Rio de Janeiro, Brazil on August 5, 2015.       AFP PHOTO / TASSO MARCELO        (Photo credit should read TASSO MARCELO/AFP/Getty Images)

Manifestantes mostram faixa com os dizeres “Olimpíadas pra quem?” próximos a um policial durante protesto contra os Jogos Olímpicos de 2016 no Rio de Janeiro, Brasil, em 5 de agosto de 2015.

Foto: Tasso Marcelo/AFP/Getty Images

“O editorial aponta a “irresponsabilidade” de “jogar contra” os Jogos Olímpicos, como se todos devêssemos nos orgulhar de sediar um evento que supostamente beneficiará indistintamente os cidadãos”, disse à The Intercept Sylvia Moretzsohn, professora de jornalismo da Universidade Federal Fluminense. “É a velha artimanha de sempre: falar em nome do interesse geral para apagar a existência de interesses muito particulares”, concluiu a professora.

A divulgação de conflitos de interesse – reais ou aparentes – é um princípio fundamental da ética jornalística.

No ano passado, o Grupo Globo, maior conglomerado midiático da América Latina, alcançou uma renda bruta de 16 bilhões de reais, lucrando 3 bilhões de reais. Estima-se que cada um dos três irmãos que controlam o grupo estão avaliados em 5,2 bilhões de dólares líquidos. O salário de um policial iniciante da Polícia Militar do Rio de Janeiro é de pouco mais de R$ 2.726; um policial civil recebe pouco menos de R$ 4.190 por mês.

O Globo e sua empresa controladora não responderam aos pedidos de comentário da The Intercept.

“Não é de hoje que O Globo substituiu o jornalismo pela propaganda”, acrescenta Moretzsohn. “Mas eu reconheço que é difícil fazer propaganda quando o país passa por sua maior crise política desde o fim da ditadura, e que vem sendo acompanhada de perto pela imprensa estrangeira.”

 

Tradução por: Inacio Vieira

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