O que se viu nos últimos dias, com o presidente dos Estados Unidos chamando o Papa Leão XIV de “fraco” e “terrível” em política externa, não foi um desvio repentino de conduta, mas um método discursivo bélico oriundo das “chamadas batalhas espirituais”. Foi a repetição de um padrão antigo que Trump aprendeu nos bastidores da especulação imobiliária: ele especula por meio da linguagem, causa polêmica e volta – um pouco atrás – quando o calo especulativo aperta demais.
Mas ele não se arrepende. Palavras cristãs como perdão e misericórdia não cabem no seu vocabulário político. Trump utiliza o cristianismo como linguagem de poder e reage com agressividade sempre que qualquer autoridade cristã confronta seu programa de guerra, deportação, exclusão e culto à força.
Foi assim também com outras lideranças cristãs. Basta lembrar do sermão da bispa Mariann Edgar Budde, da Igreja Episcopal de Washington, durante o culto da posse presidencial, em 21 de janeiro de 2025, na Catedral Nacional de Washington. Com Trump sentado na primeira fila, ela pediu misericórdia para imigrantes e para a população LGBTQIA+ e falou do medo que esse discurso bélico de guerra produz nas comunidades. Logo depois, Trump a chamou de “radical de esquerda” e exigiu um pedido de desculpas.
Com a Igreja Católica, o desgaste do governo Trump tem data, endereço e financiamento, e o centro do problema não é simples.

O catolicismo que interessa ao Maga
O contramovimento trumpista Maga, Make America Great Again em inglês (Torne a América grande de novo), nunca quis a teologia católica por inteiro, quis apenas a parte que lhe interessa: as pautas morais, sobretudo a pauta antiaborto. O restante sempre foi tratado como excesso, desvio, ameaça ou, no vocabulário da nova direita, como algo “woke”.
Quando o papa Francisco criticou o capitalismo predatório em sua primeira exortação apostólica, a Evangelii gaudium, a reação da direita conservadora norte-americana foi imediata. Rush Limbaugh, um dos comentaristas mais influentes desse campo, disse que o texto era “marxismo puro” saindo da boca do papa.
A frase ajuda a entender o conflito. O problema nunca foi apenas Francisco, mas o fato de um papa recolocar no centro do discurso católico temas como pobreza, desigualdade, migração, destruição ambiental e crítica à lógica do mercado.
Francisco percebeu cedo o tamanho dessa máquina do Maga contra ele. Em 2019, afirmou que a oposição ao seu pontificado nos Estados Unidos não vinha apenas de bispos e padres, mas também de leigos, veículos de mídia católicos conservadores e redes de poder muito bem financiadas (como o Instituto Napa e a EWTN).
Em 2023, papa Francisco voltou ao tema e chamou parte do catolicismo norte-americano de “reacionário” e “capturado pela ideologia”. Não é novidade que uma parcela importante do Maga seja formada por católicos nacionalistas, midiáticos e militantes que são mais próximos da gramática da extrema direita do que de Roma.
Quando Robert Francis Prevost foi eleito papa no conclave, Laura Loomer, católica do Maga e trumpista de carterinha, chamou Leão XIV de “anti-Trump, anti-Maga, favorável à imigração e “marxista”, quase repetindo a mesma linguagem que já havia sido usada por católicos conservadores contra Francisco. Steve Bannon, estrategista de Trump, chegou a dizer que Prevost era “indesejado” para a ala ultraconservadora norte-americana.
Uma guerra que não começou agora
Tudo começou em 2016. Num primeiro capítulo, Papa Francisco criticou a obsessão de Trump por muros na fronteira com o México e afirmou que “uma pessoa que pensa apenas em construir muros, e não pontes, não é cristã”. Trump respondeu dizendo que era “vergonhoso” que um líder religioso colocasse em dúvida a fé de alguém. Já ali estava dado o script que atravessaria a década da relação conflituosa da Casa Branca contra o Vaticano.
O segundo capítulo veio com a retomada de Trump ao poder e a nova escalada anti-imigração. Em 11 de fevereiro de 2025, Francisco enviou uma carta incomum aos bispos dos Estados Unidos para condenar a criminalização de migrantes e advertir que políticas baseadas em força e deportação em massa “terminarão mal”. A carta também soou como resposta ao uso seletivo da tradição católica por J.D. Vance (vice-presidente dos EUA), convertido ao catolicismo em 2019, que vinha mobilizando argumentos religiosos para justificar prioridades excludentes do estado.
Vance ganha importância neste cenário pois se trata de um tradutor católico do trumpismo. Em vez de defender a integralidade da tradição da Igreja, passou a administrá-la seletivamente a partir das pautas morais “pró-vida” e da aliança com estes grupos. E, no confronto com Leão XIV, deixou isso ainda mais claro ao sugerir que o Vaticano deveria se limitar às “questões morais”, como se guerra, migração e vidas destruídas não fossem matéria moral e, recentemente, disse que o papa “deveria ter cuidado ao falar de teologia” .
O terceiro momento ocorreu no funeral de Francisco, em 26 de abril de 2025. Diante de Trump na plateia, a homilia retomou de forma explícita a velha reprimenda papal contra os muros e a favor das pontes. Foi uma lembrança que o conflito entre Roma e Trump não era episódico, pontual e nem pessoal, mas uma divergência de fundo entre a teologia política do trumpismo e a doutrina social católica sobre migração e fraternidade.
O quarto episódio foi ainda mais grosseiro. Em 3 de maio de 2025, poucos dias após a morte de Francisco e às vésperas do conclave, Trump publicou uma imagem gerada por IA em que aparecia vestido como papa. A imagem foi repostada pela Casa Branca em sua conta oficial, ampliando o deboche institucional. A Conferência Católica do Estado de Nova York reagiu de forma dura, afirmando que não havia “nada inteligente ou engraçado” naquilo. O cardeal Timothy Dolan chamou a postagem de “brutta figura”, um vexame. Não era um humor inocente num momento de luto e sucessão.

Agora chegamos ao quinto capítulo, o mais recente e mais grave, porque mira diretamente a autoridade do papa Leão XIV. Em 11 de abril de 2026, Leão presidiu uma vigília de oração pela paz no mundo inteiro, direto na Basílica de São Pedro, e pediu o fim da “loucura da guerra”, condenando o uso de linguagem religiosa para justificar violência, guerras e armamentos. Dois dias depois, Trump partiu para o ataque aberto, chamando o papa de “fraco no combate ao crime” e “terrível para a política externa”.
Católicos conservadores brasileiros aderem ao trumpismo católico
No Brasil, setores do conservadorismo católico que dizem defender a Igreja Católica, o papa e a tradição, estão politicamente mais próximos de Trump e Bolsonaro do que de Francisco e Leão XIV. A produtora Brasil Paralelo é um dos exemplos mais visíveis dessa convergência entre catolicismo conservador, guerra cultural e linguagem política inspirada no trumpismo. Nesse campo, a afinidade com Roma nunca foi integral: ela se concentra quase exclusivamente na pauta moral, sobretudo no aborto e nos costumes, além de propor um revisionismo histórico sobre a colonização que nem a própria Igreja Católica refuta, pelo contrário, tenta combater – vide o Sinôdo da Amazônia e pautas ambientais com povos indígenas e quilombolas.
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A contradição ficou ainda mais explícita para os católicos conservadores quando, logo após condenarem os ataques de Trump ao papa, o deputado federal católico Eros Biondini e a deputada estadual Chiara Biondini foram visitar presos do golpe do 8 de Janeiro e passaram a tratá-los publicamente como “presos políticos”, defendendo a falsa anistia por “dosimetria humanitária”. Este gesto reconecta o conservadorismo católico bolsonarista ao mesmo repertório político que se viu nos Estados Unidos depois da invasão do Capitólio em 6 de Janeiro de 2021: a reinterpretação de uma ação golpista como “perseguição a patriotas e cristãos”. Cabe à nós perguntar, quando a autoridade do papa entra em choque com a extrema direita transnacional, com quem esses setores se alinham de fato: com Leão XIV ou com o trumpismo tropical?

A Frente Parlamentar Católica lançou uma nota sobre os ataques de Trump ao Papa. O texto condena o “ataque desrespeitoso” de Trump, afirma que o papa é referência “espiritual e moral” para milhões de católicos e reafirma apoio ao seu pontificado, destacando a paz, justiça e dignidade humana. Mas a Frente Parlamentar Católica seleciona quais partes do catolicismo quer representar. A Igreja só serve para os católicos conservadores quando pode falar de aborto, sexualidade e reprodução. Mas, quando a Igreja Católica fala de bombas, fronteiras, refugiados, desigualdade e crianças mortas em guerra, vira um problema e é “woke”. Foi isso que Francisco enfrentou e é isso que Leão XIV está enfrentando agora. Por isso a surpresa dos católicos conservadores agora soa cínica. A questão é: estes católicos extremistas vão continuar se vinculando ao discurso bélico de líderes autoritários ou vão seguir os valores da Doutrina Social da Igreja Católica e os ensinamentos do Papa Leão XIV? A escolha está posta e neste caso, os dois lados são inconciliáveis.
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