O carro de Abu Mohammed estava quebrado, parado havia um ano na garagem de sua casa no subúrbio sul de Beirute. Na madrugada do dia 2 de março, quando as bombas israelenses começaram a ser lançadas contra seu bairro, a reação do libanês de 85 anos foi pegar alguns pertences pessoais e correr para tentar ligar o veículo – que funcionou. Contando com a sorte, conseguiu fugir junto a vizinhos para a Praça dos Mártires, na região central da capital libanesa, tornando-se um entre os mais de 1 milhão deslocados à força por Israel desde a intensificação dos ataques ao Líbano.
Desde aquele dia até 29 de março, já são ao menos 1.247 mortos (entre eles, 124 crianças) e 3.680 feridos pelos ataques de Israel ao Líbano, segundo os dados do Ministério da Saúde Pública libanês e do Fundo das Nações Unidas para a Infância, o Unicef. Os deslocados – expulsos principalmente do sul do Líbano, do subúrbio de Beirute e do Vale do Bekaa, a leste – hoje vivem entre alojamentos improvisados, casas de familiares ou nas ruas de Beirute, como Abu Mohammed. Além desses, há ainda mais de 150 mil pessoas isoladas no sul, depois que ataques israelenses destruíram pontes que ligavam a área ao restante do país.
Anexação e limpeza étnica
Além dos bombardeios sistemáticos, do deslocamento forçado em massa e da destruição de infraestrutura civil, Israel amplia a demolição de casas nos vilarejos libaneses mais próximos à fronteira (o que já vinha realizando antes da atual escalada) e intensifica a invasão por terra também no sul do Líbano. Como se não bastassem todas as evidências factuais, o governo do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, tem falado abertamente, nos últimos dias, sobre o objetivo de invadir e anexar o sul do Líbano.
Netanyahu declarou a intenção de ampliar o que chama de “zona tampão” na região. O ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, afirmou que realizará a tarefa “usando o modelo de Beit Hanoun e Rafah”, em referência à destruição completa das áreas residenciais feita por Israel nas fronteiras da Faixa de Gaza. Para completar, Bezalel Smotrich, ministro das Finanças israelense, afirmou na sequência que a “nova fronteira de Israel deveria ser o Rio Litani”, curso de água localizado em território libanês a 30 quilômetros da atual fronteira.
Ainda assim, a atual fase da agressão israelense ao Líbano vem sendo majoritariamente tratada com recortes factuais, enquadrada como um “conflito” entre Israel e Hezbollah, grupo paramilitar e partido político libanês aliado do Irã. Nesses termos, o conflito teria sido iniciado com o lançamento de foguetes pelo Hezbollah em 2 de março contra o norte de Israel, o que teria “arrastado” o Líbano para a guerra mais ampla, iniciada em 28 de fevereiro, de Estados Unidos e Israel contra o país persa.
Mesmo do ponto de vista puramente factual, há um equívoco jornalístico elementar nesse enquadramento. Ele deixa de fora elementos de interesse público que contextualizam a informação: entre novembro de 2024 e fevereiro deste ano, quando estava em vigor o cessar-fogo assinado entre Israel e Líbano, 370 pessoas foram mortas por ataques israelenses em território libanês. O acordo foi violado por Israel mais de 10 mil vezes, segundo dados da missão de paz da Organização das Nações Unidas, a ONU, e do governo libanês.
Não havia, portanto, como “arrastar” o Líbano para uma guerra se o país não estava em paz. Além disso, o enquadramento frequentemente omite que, em 28 de fevereiro, Israel e Estados Unidos atacaram o Irã violando o direito internacional, de acordo com especialistas das próprias Nações Unidas, sem que houvesse ameaça iminente e com as negociações sobre o programa nuclear do Irã em andamento.
Quando se tenta falar em mortes, explosões e perdas “dos dois lados”, em tom de equivalência, não é apenas a gritante desproporção numérica que é ignorada. É, principalmente, o que ela revela. Se há no Líbano até agora mais de 1.200 mortes em menos de um mês, sendo mais de cem crianças, contra cerca de 20 em Israel, é porque o Líbano está sob ameaça de ocupação e anexação por meio de um processo baseado em confinamento de civis e limpeza étnica, sobretudo das populações libanesas xiitas que habitam as regiões que Israel pretende usurpar.
‘É a receita perfeita para que a expansão colonial de Israel, sempre justificada como “defensiva”, possa avançar sem que seja percebida como tal’.
O roteiro é exatamente o mesmo aplicado no genocídio em Gaza: deslocamento forçado em massa de civis; demolição de casas; destruição de infraestrutura civil; privação de acesso à água como arma de guerra; ataques direcionados a profissionais de saúde; ataques direcionados à imprensa; justificativa de “combate ao terrorismo” e punição coletiva à população, que é expulsa de seus territórios ou fisicamente eliminada.
Mesmo com tantas evidências, o principal debate público sobre o que acontece no Líbano hoje está interditado – e escondido sob uma cortina de fumaça que tenta cinicamente equiparar ocupação ilegal, anexação de território e limpeza étnica com os sons de sirenes soando e a corrida a bunkers em Israel. É a receita perfeita para que a expansão colonial de Israel, sempre justificada como “defensiva”, possa avançar sem que seja percebida como tal.
‘Desde 1948’
Abu Mohammed falou ao Intercept Brasil entre centenas de barracas, agora aglomeradas em um descampado de cimento próximo à Baía de Zaitunay, valorizada área de Beirute. Depois de uma semana na Praça dos Mártires, foi para lá que os desalojados foram removidos. Hoje, são cerca de 600 pessoas que passam os dias, ainda frios e chuvosos, ao relento e sem acesso à água ou banheiros. A comida é distribuída diariamente por ONGs cadastradas pelo governo libanês, que também entregam cobertores e colchonetes às pessoas desalojadas.
Ele contou que não é a primeira vez que é deslocado à força. Em setembro de 2024, também precisou sair às pressas de casa sob bombardeios israelenses. Meses depois, quando retornou, a encontrou destruída. Reparou a casa – “foi como construir uma nova” – e agora, pouco mais de um ano depois, teve que deixá-la novamente.
“É assim desde 1948”, diz, em referência ao ano da criação do estado de Israel. Abu Mohammed não fala apenas baseado em registros históricos, mas com a propriedade de uma testemunha ocular. Nascido em 1941, viu ainda criança as ondas de refugiados palestinos chegarem ao Líbano após a Nakba – catástrofe, em árabe, termo utilizado pelos palestinos para denominar o conjunto de massacres, expulsões e deslocamentos forçados que deram origem a Israel –, depois a chegada dos refugiados de 1967, quando Israel ampliou a ocupação ilegal no território palestino, além das invasões de Israel ao Líbano em 1978, em 1982 (que resultou em uma ocupação que durou até os anos 2000) e em 2006, entre outras.
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O bairro onde vive, Burj al-Barajneh, abriga um dos maiores campos de refugiados do Líbano, criado precisamente em 1948 para abrigar palestinos expulsos na fundação de Israel, e atacado em 1982, durante a invasão israelense ao Líbano no contexto da guerra civil. É um dos bairros que compõem a região do Dahieh, o subúrbio sul da capital libanesa, que registra uma média de seis bombardeios diários por Israel desde a intensificação dos ataques em 2 de março, e para o qual uma ordem de evacuação em massa foi emitida por Israel. A região, com cerca de 700 mil habitantes, é uma das mais densamente povoadas do Líbano.
Há um nome para isso: a “doutrina Dahieh”, descrita por Gadi Eisenkot, ex-oficial das forças armadas de Israel. Punição coletiva por definição, o método consiste em destruir em larga escala casas e todo tipo de infraestrutura civil nas áreas que concentram as bases sociais de governos ou lideranças “hostis” a Israel. Espera-se que, com o máximo de sofrimento infligido, a população se rebele contra os grupos políticos visados e os pressione por rendição.
Mas Abu Mohammed, um filho de Dahieh, tem outra teoria. Sentado em uma cadeira de plástico ao lado do carro que salvou sua vida, aponta para um grupo de pombos que sobrevoam o acampamento. “A gente pode espantá-los quantas vezes quiser. Eles voam e voltam para cá, porque essa é a casa deles. É o mesmo conosco, no Líbano. Não importa quantas vezes nos expulsem, nós voltaremos. Essa é a nossa terra”, compara.
Tradução: Narjess al-Dirani
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