Com as atenções voltadas para o eixo Estados Unidos-Israel, Irã e Golfo Pérsico, a mídia internacional tem chamado o conflito de primeira guerra de inteligência artificial, a IA. Enquanto o Brasil observa com certa distância o que se desenrola no Oriente Médio, a guerra não tem fronteiras quando se trata das infraestruturas de inteligência artificial.
O confronto que vemos hoje no Oriente Médio não é só entre estados. No cerne da violência que se desencadeia na região estão as empresas que detêm dados, informação, conhecimento e infraestruturas cruciais para a guerra contemporânea. Na linha de frente estão as big techs — aqui incluem-se também empresas de inteligência artificial — fornecendo tecnologias e infraestruturas e fazendo da guerra um palco de demonstração de eficiência, produtividade e acuracidade.
Por muito tempo, alguns especialistas de relações internacionais ignoraram o papel das grandes corporações na política internacional. Para estes, o mundo digital não caberia na dinâmica geopolítica, já que o Estado é o principal ator na disputa de poderes. Tal visão é um tanto conservadora e desatualizada.
Estados e tecnologia sempre andaram juntos — sendo codependentes e compartilhando interesses mútuos. Basta lembrar do papel da IBM na Alemanha nazista durante a Segunda Guerra Mundial. Já nos anos 1950, a Agência de Projetos de Pesquisa Avançada, Arpa, na sigla em inglês, do Departamento de Defesa dos Estados Unidos desempenhou um papel crucial no financiamento de pesquisas e altos investimentos em empresas privadas de tecnologia para o desenvolvimento da precursora da internet (Arpanet) durante a Guerra Fria.
Big techs e governos: relação de longa data
A relação entre Vale do Silício, Pentágono e o Departamento de Segurança dos Estados Unidos vem de longa data. Os EUA têm mantido contratos bilionários desde 2004 com as big techs. As big techs fornecem armazenamento em nuvem, planos de serviços como Google Workspace, visores de realidade aumentada e drones como a parceria Anduril e Microsoft, além de sistemas de operações em tanques.
Só em 2024, Anthropic, Google, OpenAI e xAI receberam 200 milhões de dólares do Departamento de Defesa para projetos de IA. Até o meio de 2025 mais de 20 mil militares já utilizavam ferramentas de IA como o Maven Smart System da Palantir para auxiliar com alvos, rastrear logística e fornecer resumos de inteligência militar em conflitos. Em junho de 2025, executivos de Meta, Palantir, OpenAI e Thinking Machines Lab foram promovidos a tenentes-coronéis da reserva do Exército dos Estados Unidos, fazendo parte de uma unidade militar chamada Destacamento 201, também conhecida como Corpo Executivo de Inovação. Embora a medida tenha sido subestimada por muitos, ela demonstra não só um simbolismo digno de propaganda de guerra, mas também uma conexão direta entre governo e o setor privado de tecnologia.
Protagonismo das big techs
No ataque dos Estados Unidos e Israel ao Irã, observamos o campo de batalha algorítmico, no qual as big techs assumem um protagonismo como nunca visto antes. O modelo Claude, de propriedade da Anthropic, tornou-se crucial para a identificação de alvos e prioridades, simular cenários de batalha, analisar imagens de satélite e detectar ameaças cibernéticas. Porém o Claude não opera sozinho.
Desde 2017, a Palantir é a principal empresa por trás do Projeto Maven, uma iniciativa do Departamento de Defesa dos Estados Unidos voltada para o uso de IA em contextos de guerra, conduzida pelo Time Multifuncional de Guerra Algorítmica [Algorithmic Warfare Cross-Functional Team, ou AWCFT, na sigla em inglês].
Nesse contexto, o Sistema Inteligente Maven (Maven Smart System), alimentado pelo Claude, gera análise a partir de dados classificados de satélites, sistemas de vigilância e outras fontes de inteligência como também sugere alvos, emite coordenadas e fornece direcionamento e priorização de alvos em tempo real. Por fim, os dados rodam na Amazon Web Services, aAWS.
Com a ajuda dessas ferramentas, os Estados Unidos dizem ter atingido mil alvos no Irã nas primeiras 24 horas da guerra. Em 100 horas de guerra, mais alvos foram atingidos do que nos primeiros seis meses do conflitocontra o Estado Islâmico.
Em busca por rapidez, escala e economia humana, a guerra alimentada por dados e algoritmos não é isenta de erros, alucinações, falta de transparência e vácuos regulatórios — e, como sempre, civis são “danos colaterais” nessa batalha.
No dia 28 de fevereiro ao menos 175 pessoas, muitas delas crianças, foram mortas quando uma escola feminina iraniana foi bombardeada. Enquanto os Estados Unidos nega participação nesse ataque, existem indícios de que Oficiais do Comando Central dos Estados Unidos usaram dados desatualizados para definir as coordenadas do alvo.
Irã tem como alvo as infraestruturas de IAs
Se de um lado os Estados Unidos e Israel utilizam uma estratégia público-privada de ataque, de outro o Irã faz da infraestrutura de IA o seu alvo prioritário.
No dia 1º de março, o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã atacou três instalações da Amazon Web Services nos Emirados Árabes Unidos e no Bahrein. De acordo com pronunciamento oficial, o ataque ocorreu “para identificar o papel dessas instalações no apoio às atividades militares e de inteligência do inimigo”.
O ataque resultou na interrupção de serviços na região, com milhões de pessoas sem poder fazer pagamentos e acessar suas contas bancárias. Em 11 de março, a Guarda Revolucionária emitiu um comunicado ampliando o escopo das ameaças. Na lista de alvos estão centros econômicos e bancos ligados aos Estados Unidos e a Israel na região, além de escritórios e infraestruturas de empresas como Google, Microsoft, Palantir, IBM, Nvidia e Oracle em Israel e nos países do Golfo.
Há algum tempo, os países do Golfo e os Estados Unidos vivem uma aliança na fronteira de IA. Na corrida tecnológica entre China e Estados Unidos, países como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Qatar não apenas fornecem energia abundante e barata necessária para alimentar data centers de inteligência artificial — instalações que abrigam servidores interconectados e formam a base das operações de IA — como também têm a capacidade de fornecer talentos para o desenvolvimento dessas tecnologias.
Em maio de 2025, Donald Trump anunciou mais de 200 bilhões de dólares em acordos comerciais com os Emirados Árabes Unidos, elevando o total de investimentos na região do Golfo para mais de 2 trilhões de dólares, incluindo acordos anteriores. No centro dessas negociações estão OpenAI, Oracle, Nvidia e Cisco Systems. Intitulado Stargate UAE, o acordo entre Emirados Árabes Unidos e os Estados Unidos tem como objetivo construir o maior campus de inteligência artificial fora dos Estados Unidos. De acordo com a OpenAI, o projeto pretende criar um polo de 5 gigawatts capaz de fornecer capacidades de IA em tempo real para metade da população mundial. Até o final de 2026 a previsão é que chegue a 200 megawatts.
Impacto global
Ataques à infraestrutura não são novidade. Em um mundo interligado e regrado por algoritmos e dados, os data centers tornaram-se alvos prioritários de guerra. Isso se deve tanto ao baixo custo dessas operações como ao efeito em cascata que pode causar. Um ataque a esses sistemas pode rapidamente desestabilizar operações civis e militares em larga escala e ter um impacto global.
Não é possível dizer que estes data centers da Amazon estavam sendo utilizados para a ação militar no Irã. Assim, é preciso avaliar a licitude de ataques nesses alvos. Objetos civis, como é o caso de muitos data centers, não poderiam estar sujeitos a tais ataques. Porém, a política de Donald Trump tem seguido a Armadilha de Tucídides: “Os fortes fazem o que podem, e os fracos sofrem o que devem.” Ou seja, se os Estados Unidos e Israel não seguem as regras internacionais, não é de se esperar que outros também seguirão.
LEIA TAMBÉM:
- Entrevista: Como a IA abre caminho para o tecnofascismo
- A crise dos EUA é uma oportunidade para combater as big techs
- ENTREVISTA: ‘A indústria de IA não se importa com nada além de si mesma’
O desenrolar da guerra tem gerado incertezas para o capital estrangeiro quanto aos seus investimentos em IA na região. Existem de fato elementos de preocupação. Para quem está longe da região é preciso perguntar: qual o efeito dominó que isso pode desencadear?
Primeiro, há uma dependência tecnológica e regional dessas empresas em uma região vulnerável a conflitos. Ou seja, se metade da população mundial que utiliza uma tecnologia estadunidense tem seus dados em data centers na região, quais são os riscos econômicos, sociais e políticos em caso de ataque a uma dessas infraestruturas? Em um mundo tão interconectado, a dependência tecnológica se torna ainda mais crítica — especialmente em meio à guerra.
Segundo, no caso do Brasil, se a estratégia de data centers muda na região, como o país é afetado? A abundância de energia limpa e renovável torna o Brasil um polo estratégico para empresas de tecnologia que buscam expandir suas infraestruturas. O país desponta como referência regional e tem uma posição relevante. Porém, a instalação de data centers é uma política pública sem foco na soberania digital e nacional. A guerra atual deixa claro que os riscos dessa expansão não são apenas ambientais. Com ela vêm também conflitos geopolíticos, múltiplos interesses políticos e econômicos e as tensões que inevitavelmente emergem com esses eventos.
DOE FAÇA PARTE
Intercept Brasil existe para produzir jornalismo sem rabo preso que você não encontra em nenhum outro lugar.
Enfrentamos as pessoas e empresas mais poderosas do Brasil porque não aceitamos nenhum centavo delas.
Dependemos de nossos leitores para financiar nossas investigações. E, com o seu apoio, expusemos conspirações, fraudes, assassinatos e mentiras.
Neste ano eleitoral, precisamos colocar o maior número possível de repórteres nas ruas para revelar tudo o que os poderosos querem esconder de você.
Mas não podemos fazer isso sozinhos. Precisamos de 300 novos apoiadores mensais até o final do mês para financiar nossos planos editoriais. Podemos contar com seu apoio hoje?

