Até meados do ano passado, diplomatas e analistas em Brasília sustentavam uma avaliação relativamente consensual: a aproximação entre os presidentes Lula e Donald Trump indicava que os Estados Unidos provavelmente evitariam qualquer gesto que pudesse ser interpretado como interferência nas eleições presidenciais brasileiras de 2026.
Essa leitura começou a ruir rapidamente nos primeiros meses deste ano. Em janeiro, uma operação militar norte-americana invadiu a Venezuela e capturou o presidente Nicolás Maduro, levado para os Estados Unidos sob acusações de narcoterrorismo.
Na virada de fevereiro para março, Washington passou a atuar diretamente, ao lado de Israel, em operações militares contra o Irã — um conflito que já deixou milhares de mortos e levou Trump a exigir a “rendição incondicional” do regime iraniano.
Há uma evidente escalada da política externa americana: menos contenção, mais intervenção. Foi nesse contexto que a Casa Branca tomou uma decisão que reverberou imediatamente em Brasília: a escolha do ideólogo trumpista Darren Beattie, secretário assistente interino de estado para assuntos educacionais e culturais, para supervisionar a política dos Estados Unidos em relação ao Brasil.
A nomeação foi celebrada por aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro e ocorreu no momento em que pesquisas eleitorais indicam crescimento de seu filho, o senador Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal, o PL, do Rio de Janeiro, na disputa presidencial.
Dias depois, o que parecia apenas mais uma nomeação controversa se transformou em crise diplomática. Beattie planejava viajar ao Brasil com uma agenda oficialmente descrita como técnica — participação em evento sobre terras raras.
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Nos bastidores, no entanto, começou a costurar outro objetivo: visitar Jair Bolsonaro na prisão, em Brasília, onde o ex-presidente cumpre pena de 27 anos por tentativa de golpe de estado.
A visita chegou a ser inicialmente autorizada pelo Supremo Tribunal Federal, o STF, mas a decisão foi revertida após questionamentos do Ministério das Relações Exteriores. Autoridades brasileiras apontaram que Beattie não havia solicitado reuniões com o governo nem informado formalmente o encontro com Bolsonaro, o que levantou suspeitas de que a viagem poderia configurar ingerência em assuntos internos do país.
A capivara e os sinais de Washington
Desde que o nome de Darren Beattie entrou no debate público brasileiro, muito já se disse sobre ele: sua participação em evento ligado a supremacistas brancos, suas declarações questionando — sem provas — a integridade do sistema eleitoral brasileiro e sua inserção em redes ideológicas da extrema direita global.
Ainda assim, um episódio passou despercebido no meio do ruído. À primeira vista, pode parecer apenas uma bravata ou uma piada de mau gosto. Mas é justamente esse episódio — um post aparentemente banal envolvendo uma capivara — que talvez ofereça a pista mais clara sobre os possíveis objetivos da visita de Beattie ao Brasil.
No dia 26 de fevereiro, um vídeo viral de uma página do X (antigo Twitter) chamada “Capybaras_Daily” mostrou uma capivara sendo retirada de um supermercado brasileiro em um carrinho de compras. O conteúdo foi compartilhado no dia seguinte por Sarah B. Rogers, subsecretária de Estado dos Estados Unidos para Diplomacia Pública.
Poderia ser apenas uma autoridade americana em momento de descontração compartilhando um meme em sua conta oficial. Mas não foi apenas isso.
Ao republicar o vídeo, Rogers escreveu: “More Brazil content like this coming soon under @DarrenJBeattie” (em português: “Mais conteúdo do Brasil como esse em breve sob @DarrenJBeattie”).
Não é trivial que uma autoridade responsável pela diplomacia pública americana associe, ainda que com um meme, a atuação de um enviado do governo dos EUA a uma imagem de remoção forçada de um animal de um espaço público.
O verbo implícito ali — remover — não é neutro. No limite, abre espaço para interpretações mais duras. Quem, afinal, poderia ser “removido” no Brasil sob uma lógica como essa?
De um lado, figuras centrais do atual governo, como o próprio Lula, cuja política externa tem buscado autonomia em relação a Washington e aproximação com países do Sul Global. De outro, o ministro Alexandre de Moraes, do STF, que se tornou um dos principais alvos da direita global por sua atuação contra redes de desinformação e por decisões que impactam diretamente plataformas e aliados do trumpismo.
E há ainda o próprio Jair Bolsonaro — cuja prisão e inelegibilidade são vistas por setores da extrema direita internacional como resultado de perseguição política e que, paradoxalmente, também poderia ser interpretado como peça a ser “resgatada” ou reposicionada em um tabuleiro mais amplo.
Não há evidência concreta de qualquer operação nesse sentido. Mas o ponto central não é a literalidade da mensagem, e sim o tipo de imaginação política que ela revela.
É verdade que, se houvesse, de fato, um plano concreto para remover algum personagem político brasileiro do país, não seria anunciado de forma explícita em uma rede social.
Ainda assim, o uso desse tipo de linguagem, ainda que em tom jocoso, não é irrelevante — especialmente quando parte de uma autoridade encarregada justamente de moldar percepções e narrativas no exterior.
Falei sobre o episódio com uma fonte do Itamaraty. Ela me disse o seguinte: em diplomacia, o que se diz importa, mas o que se sugere ou insinua acaba sendo ainda mais revelador.
Seguiremos acompanhando de perto os próximos movimentos — porque, se há algo que esse episódio sugere, ainda que de forma indireta, é que os sinais mais importantes nem sempre vêm nos canais oficiais, mas nos gestos aparentemente banais.
Em um cenário cada vez mais instável, talvez valha prestar atenção não só ao que é dito de forma explícita, mas também ao que circula nas entrelinhas.
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