Fabiana Moraes

Pai mata os filhos, mas imprensa condena a mãe

Ao transformar duplo homicídio em narrativa de traição conjugal, jornalismo repete lógica de culpar mulher e reforça violência midiática contra uma vítima.

Pai mata os filhos, mas imprensa condena a mãe

O jornalismo que preza em amolar facas se esmerou no terrível caso de infanticídio/filicídio e machismo que ocupou o debate nacional nas últimas semanas, quando o secretário de governo da prefeitura de Itumbiara, Goiás, Thales Naves Alves Machado, alvejou e matou os próprios filhos. Em seguida, ele atirou contra si e morreu. Thales visava destruir uma pessoa: a empreendedora Sarah Tinoco, mãe das crianças, com quem ele estava casado há cerca de 15 anos.

O secretário conseguiu infligir uma dor inimaginável para Sarah. Mas, mesmo após as mortes que causou, Thales contou com diversos parceiros para que seu projeto continuasse firme – incluindo o jornalismo.

  • TRAGÉDIA! Secretário descobre traição da esposa, mata o filho e tira a própria vida” (Terra)
  • Secretário de Governo de Itumbiara descobre traição da esposa e atira nos filhos” (Forum)
  • O que se sabe sobre o caso do secretário que matou os dois filhos e tirou a própria vida após suposta traição da esposa” (Portal PE 10)
  • Informações preliminares são de que ele cometeu o crime depois de descobrir traição da mulher, mãe das crianças” (Revista Oeste)
  • Em carta, secretário revela motivo de atirar em filhos e se matar; leia íntegra” (Metrópoles)
  • Suposta carta de Thales Machado sugere que traição da esposa teria motivado crime brutal” (ND +)

Esses registros de títulos, legendas e trechos de matérias são alguns dos exemplos que demonstram o quanto a mãe dos meninos teria sido, de acordo com parte da imprensa, quase literalmente o gatilho que causou a morte das crianças e do marido. A “traição” é colocada como a motivadora da tragédia, e não o machismo, o narcisismo e a perversidade de alguém que teve a coragem de balear duas crianças para ferir a mãe delas.

É claro que Sarah foi julgada e defenestrada no espaço público, fosse nas redes sociais ou no próprio enterro do filho: não dava para ser diferente tendo em vista um Brasil que ocupa o 5º lugar no ranking de violência contra mulheres no mundo, segundo dados da Organização das Nações Unidas, a ONU.

Em um perfil de fofoca no Instagram, @rollling_blues comentou: “se consola com o amante”. Em outra página, @arrozcomleite escreveu nos comentários (mantive os erros de digitação, mas dá para entender): “parabens a teste homem, nos deus exemplo de como agir”. Somente dois exemplos do mar de ódio, misoginia, moralismo e hipocrisia dirigido para a mãe. 

Mas atentem para algo: não é exagero dizer que esse caldo grosso de ódio social enfrentado por Sarah e todas as mulheres – mesmo aquelas que se conectam a um papel de subserviência e também culpam a mãe das crianças – é nutrido também por um jornalismo que, apesar de divulgar tantas matérias criticando a violência contra as mulheres, as enquadra como culpadas ou pelo menos coautoras das próprias tragédias. 

Pior: muitas vezes essa misoginia vem embalada com um sensacionalismo assustador – “olha, a  gente vai ajudar a destruir mais um pouquinho a tua vida, mas vai render muito clique e engajamento”. O caso do portal Terra se enquadra nessa seara. Além do título irresponsável, observem que o conteúdo foi publicado na sessão “Entretê”, dedicada, isso mesmo, ao entretenimento. 

O duplo homicídio de duas crianças está associado à editoria “Diversão/Gente/Mais Novela”. O Terra trata um caso terrível como se estivesse no terreno da ficção e, ao mesmo tempo, joga para o colo de Sarah Tinoco a responsabilidade pelo crime que o marido dela cometeu.

É interessante observar como essa perspectiva, embebida de misoginia estrutural, atravessa veículos com linhas editoriais distintas. À esquerda e à direita, a mesma engrenagem narrativa: deslocar o foco do autor do crime para o comportamento da mulher.

Na revista Fórum, o título foi direto ao ponto – mas ao ponto errado: “Secretário de Governo de Itumbiara descobre traição da esposa e atira nos filhos”. A estrutura sintática é reveladora. Descobre. Traição. Esposa. E então, quase como consequência lógica, atira nos filhos. A oração estabelece uma cadeia causal que não é apenas informativa; ela organiza o sentido do acontecimento. O assassinato aparece como desdobramento de um fato conjugal, não como expressão de violência masculina extrema.

A Revista Oeste, por sua vez, optou por reforçar “informações preliminares” de que ele teria cometido o crime após descobrir a traição da mulher. O advérbio de cautela não impede a consolidação da narrativa. Pelo contrário: ajuda a espalhá-la com verniz de prudência. Publica-se primeiro, problematiza-se depois – se for o caso. Nesse intervalo, a imagem da mulher já foi marcada.

Não se trata de ideologia partidária. Trata-se de uma cultura jornalística que ainda opera a partir do mesmo eixo: quando um homem mata, busca-se o que a mulher fez. 

O Portal PE 10 entra nessa engrenagem ao reunir “o que se sabe” sobre o caso e, no desenvolvimento, reiterar a suposta traição como chave explicativa. A fórmula do “o que se sabe” costuma dar a impressão de levantamento técnico, quase neutro. Mas o recorte do que se escolhe saber é político. Se a ênfase recai na vida íntima da sobrevivente – e não na trajetória de controle, violência ou possíveis sinais anteriores do agressor –, o enquadramento está dado.

E então chegamos ao ND +, cujos textos merecem muita atenção. Aqui, o problema deixa de ser pontual e se torna sistemático. A publicação integral da carta deixada pelo agressor – cuja função evidente é manipular a memória do crime – oferece a ele a última palavra. O assassino passa a narrar o próprio ato. E o jornalismo, ao reproduzir sem mediação crítica consistente, torna-se veículo póstumo de sua versão.

LEIA TAMBÉM:

Mais: matérias que apresentam a mulher como personagem de curiosidade pública – “mãe e empreendedora”, “saiba quem é”, “vizinhos revelam como era a rotina” – ampliam a exposição da vítima sobrevivente num momento de vulnerabilidade extrema. A vida privada vira ativo noticioso. Seus negócios, sua rotina, sua imagem com um novo namorado. Tudo convertido em conteúdo-clique-engajamento.

Em entretenimento. Novela. Ficção.

Não menos revelador é o papel do Metrópoles. Ao publicar sob a chamada “Em carta, secretário revela motivo de atirar em filhos e se matar; leia íntegra” o jornal incorpora e amplifica a narrativa do agressor sem o contextualizar criticamente.

A carta, cujo teor evidencia mecanismos íntimos de manipulação afetiva e justificativa subjetiva, é oferecida quase como explicação completa dos eventos. A reprodução literal de um documento produzido por alguém que acabou de tirar duas vidas e a própria vida – sem contraponto analítico robusto – é, na melhor das hipóteses, um atalho jornalístico; na pior, uma colaboração indireta com a narrativa do criminoso.

É isso que chamo, baseada neste texto, de jornalismo amolador de facas. Não é o veículo que aperta o gatilho. Mas é ele que prepara o terreno simbólico onde certos gatilhos encontram justificativa social. Ao insistir na “traição” como elemento central, a cobertura não apenas informa: ela sugere compreensão, quase explicação. E toda explicação mal enquadrada pode soar como atenuante.

‘A misoginia contemporânea raramente se apresenta de forma explícita’.

Vale pontuar que a imprensa nacional graúda entrou na mira da Justiça por conta da cobertura no caso Sarah: a Defensoria Pública de Goiás moveu ação civil pública contra Globo, CNN Brasil, Record e SBT exigindo indenização de R$ 1 milhão por danos morais coletivos, não só a ela, mas ainda ao estado, acusando as emissoras de incitarem linchamento virtual contra a mãe das duas crianças assassinadas. 

Segundo a Defensoria Pública, a tragédia foi amplificada nas redes sociais após as emissoras divulgarem um vídeo em que Sarah aparece beijando outro homem. A exposição, como se sabe, resultou em ataques virtuais massivos e ofensas durante o enterro dos filhos, exigindo escolta policial para protegê-la.

A misoginia contemporânea raramente se apresenta de forma explícita. Ela opera por ênfase, por escolha vocabular, por hierarquização de fatos. Como uma pessoa muito sábia escreveu nas redes, uma mulher feliz incomoda mais do que um assassino de crianças — não porque as redações declarem isso, mas porque, na prática, dedicam mais energia a examinar a conduta dela do que a estrutura de poder e violência que permitiu a ele agir. É irresponsável e é perverso.

Quando o jornalismo transforma um duplo homicídio infantil em narrativa de traição conjugal, ele vira corresponsável pelos números assombrosos de violência que acompanhamos diariamente. Ele ajuda a perpetuar a lógica que coloca mulheres no banco dos réus mesmo quando são as que ficam vivas — e devastadas. Essa sequência de matérias configura um padrão sistemático de violência midiática contra a vítima sobrevivente.

É isso o que essa imprensa chama de democracia?

DOE FAÇA PARTE

Intercept Brasil existe para produzir jornalismo sem rabo preso que você não encontra em nenhum outro lugar.

Enfrentamos as pessoas e empresas mais poderosas do Brasil porque não aceitamos nenhum centavo delas.

Dependemos de nossos leitores para financiar nossas investigações. E, com o seu apoio, expusemos conspirações, fraudes, assassinatos e mentiras.

Neste ano eleitoral, precisamos colocar o maior número possível de repórteres nas ruas para revelar tudo o que os poderosos querem esconder de você.

Mas não podemos fazer isso sozinhos. Precisamos de 300 novos apoiadores mensais até o final do mês para financiar nossos planos editoriais. Podemos contar com seu apoio hoje?

DOE AGORA

Inscreva-se na newsletter para continuar lendo. É grátis!

Este não é um acesso pago e a adesão é gratuita

Já se inscreveu? Confirme seu endereço de e-mail para continuar lendo

Você possui 1 artigo para ler sem se cadastrar