Entre 2017 e 2023, o consumo elétrico de data centers aumentou em 12% por ano. Esse crescimento foi quatro vezes maior que o crescimento global da oferta de energia, alimentando uma tendência já notada por quem trabalha no setor. Chegamos à Idade da Eletricidade – como posto pela Agência Internacional de Energia (EIA).
A eletrificação se tornou a principal estratégia para a redução de emissões de gases de efeito estufa na indústria e no transporte, ao mesmo tempo em que a digitalização global, especialmente por meio da implementação e projeções sobre a Inteligência Artificial, também aumenta rapidamente a demanda por eletricidade.

Falar de uma Idade da Eletricidade pode trazer conforto para alguns, se considerarmos seu potencial para a redução da dependência global de combustíveis fósseis. O petróleo, o carvão e o gás fóssil contribuem para as mudanças climáticas e são recursos finitos. Mas a presença de mais energia renovável no mundo, principalmente solar e eólica, alimentou uma confusão sobre esse tipo de energia.
Dizer que ela é renovável não é o mesmo que considerá-la infinita ou de baixo impacto. Energia que não envolve emissões diretas de gases de efeito estufa ainda tem emissões indiretas (na extração de matéria-prima, no processo industrial, no transporte, etc.). Há também diversos outros impactos sociais e ambientais, como no uso do solo e sobre a biodiversidade, além de várias outras mazelas dos processos extrativistas.
A expansão das zonas de sacrifício
A Amazônia equatoriana, por exemplo, é alvo da extração intensa de madeira de pau-de-balsa, cujo principal destino é a China, onde é usada para a fabricação das pás de turbinas eólicas. O cobalto minerado na República Democrática do Congo é um recurso crítico para a produção global de carros elétricos. Ambos são exemplos do que chamamos de “extrativismo verde”.
Ainda que sob pretexto de fomentar tecnologias “limpas”, práticas como a mineração e a silvicultura predatória exploram a natureza de forma não-renovável, deixando um rastro trágico de alteração e contaminação de ecossistemas, superexploração do trabalho local e até trabalho escravo. O “extrativismo verde” também reforça uma troca econômica e ecológica desigual: países do Sul Global exportam matéria-prima barata, mas ficam excluídos da tecnologia final, mais cara.
Há vários planos de política industrial dita “verde” propostos no Sul Global que visam corrigir essa última parte. Como economista, trabalho com a área há alguns anos e o que mais ouço é que chegou a vez de industrializar em casa, porque isso garantirá nossa transição energética e nosso caminho de inovação. Tecnicamente, no mais puro sentido econômico da vantagem comparativa, do aumento de produtividade e do controle de uma cadeia de suprimentos, está correto. Mas o desprezo pela realidade dos limites planetários fez dois problemas se instalarem nessa discussão.
O primeiro deles é a normalização de novas zonas de sacrifício, incluindo as “verdes” – regiões que o poder econômico e político julgam que podem ser destruídas e descartadas para promover o “progresso”. Quem vive em uma zona de sacrifício, velha ou nova, escuta frequentemente que deve aceitar impactos em nome do desenvolvimento. Processos de consulta e avaliação costumam ser atropelados, injustos, e ainda que alguns ajustes sejam feitos, o direito de a população afetada dizer não, de vetar determinado empreendimento, é raramente garantido.
‘Quando ignoramos limites planetários e deixamos que as corporações determinem os rumos da indústria, da pesquisa e da tecnologia, também fica fácil dizer que a IA é inevitável’
No Brasil, isso já é a realidade de qualquer morador de zona de mineração e, agora, com a busca por posicionar o país como provedor de terras raras, tanto a esquerda (desenvolvimentistas) como a direita (entreguistas ao imperialismo) contam a mesma história: esses minérios são estratégicos e, de uma forma ou de outra, com ajustes ou sem ajustes, com a criação de uma indústria brasileira ou a mera exportação bruta, “a extração é inevitável”.
O segundo problema é a adesão acrítica à Idade da Eletricidade num contexto de expansão da digitalização que já mal considera o impacto de novas tecnologias no mundo do trabalho, que dirá em termos ambientais e comunitários. O uso de eletricidade, solo e água para fins de digitalização não é questionado na escala devida.
O que se prega é que, se há inovação, deve-se abrir caminho, afinal, é importante para a economia, para o desenvolvimento e para o futuro. Esse tipo de discurso tem favorecido a mística em torno de uma bolha de IA, capturando investimento em grau nunca antes visto – basta ver a captação de U$85 bilhões em investimento pelo Google na maior oferta de ações na história.
Para atingir as metas de expansão de IA, demandam mais data centers e mais recursos, sem refletir se tudo isso é realmente necessário. Quando ignoramos limites planetários e deixamos que as corporações determinem os rumos da indústria, da pesquisa e da tecnologia, também fica fácil dizer que a IA é inevitável e, portanto, qualquer zona de sacrifício atrelada à sua expansão é aceitável.
A escalada energética dos data centers
É importante falar de energia e eletricidade ao abordar o impacto dos data centers, porque a eletrificação ajuda a compreender vários tipos de impacto ao mesmo tempo. Entre os críticos da expansão da IA e da demanda por mais e mais armazenamento de dados, tornou-se comum falar de pegada hídrica. Isso é, sem dúvidas, muito importante, já que, embora abundante no planeta, os ciclos hídricos e a disponibilidade de água variam, estão sob estresse climático e representam uma competição constante entre seu uso para sustentar a vida no planeta e para alimentar o lucro de certos setores econômicos.
O cálculo exato de quanta água é necessária para o resfriamento de data centers, especialmente no caso de IA, cujo processamento e demanda causam mais aquecimento dos chips que outros usos, é complexo. Você já deve ter visto números por aí sobre quantos “litros de água a IA bebe” e, particularmente, considero uma simplificação perigosa do debate. É interessante comunicar impacto com analogias e tentar trazer essa informação para mais perto das pessoas. Todavia, não há um cálculo totalmente confiável que possa dizer exatamente como se dá o consumo de água pelos data centers de IA.
Esse consumo depende de variáveis e contextos diversos: dos chips usados, se o método de resfriamento faz uso direto de água ou não, do local no planeta em que o data center está localizado, da construção do edifício e da fonte de energia, além da eficiência energética do modelo de linguagem e do uso dessa IA.
Esse último fator torna a equação ainda mais complicada, pois as corporações que desenvolvem os modelos de IA podem até te contar o gasto energético por query, mas e o gasto envolvido no treinamento massivo do modelo? E tem o fato de que cada uso de IA pode envolver quantidades muito diferentes de queries. Se você pede ao Claude ou ao ChatGPT que escreva um e-mail, por exemplo, o uso e a demanda são radicalmente diferentes de pedir que produza uma imagem ou uma apresentação de slides.
Enquanto isso, as big techs estão investindo em adaptações tecnológicas para facilitar o resfriamento de seus chips de IA. Há projetos com uso de água em um sistema fechado (evitando a perda por evaporação), de inserção de microfluidos de resfriamento diretamente nos chips e até data centers debaixo d’água, como o de Shanghai Lingang. Alimentado por energia eólica, esse data center ainda é um projeto-piloto, voltado a demonstrar sua viabilidade. Todavia, como é de costume quando se trata de tecnologia e inovação, o caso serviu para alimentar argumentos de que “o futuro já está aqui”, mascarando uma realidade bastante distinta: cerca de 70% da eletricidade de data centers na China hoje é produzida por carvão, combustível fóssil de altas emissões e com grande impacto de mineração. E a maioria desses data centers são, além de tudo, terrestres.
Na contramão da narrativa propagada nas redes, a expansão de data centers deu sobrevida à indústria de mineração e ao setor de termelétricas de carvão por todo o mundo – inclusive na China, mesmo que a velocidade da expansão solar e eólica no país seja realmente impressionante.
Isso reforça o argumento de que, em vez de uma transição energética, estamos vivendo um grande movimento de adição energética, ainda que com certa diversificação. Além disso, há bastante captura energética, já que a expansão da oferta ocorre para usos e destinos já definidos. Um exemplo seria a construção de um projeto de renováveis especificamente para atender a um novo data center, quando, se as prioridades fossem outras, poderia servir para substituir uso já existente de energia a carvão.
Estima-se que, em cerca de 10 anos, teremos aumentado tanto nosso consumo energético que esse acréscimo será equivalente a uma segunda União Europeia em termos de consumo. Data centers, principalmente aqueles otimizados para o uso de IA, fazem parte dessa maior demanda por energia, o que traz implicações importantes para nosso debate sobre seus impactos, tanto globais quanto locais.
A expansão contínua de data centers tende a aumentar as zonas de sacrifício diretas, tanto pelo impacto hídrico como pela demanda energética, pelo uso do solo e até por sua interferência nos ecossistemas marinhos. Além disso, se conecta às zonas de sacrifício do extrativismo, por demandar recursos em grande escala em diferentes cadeias de extração, como de metais para chips e da sílica necessária para construir as células fotovoltaicas da energia solar do tal “data center renovável”. Isso nos ensina a importância de um olhar mais conectado sobre o crescimento de setores globais e o que eles exigem do planeta.
Zonas de sacrifício são locais, mas exigem olhar global
China e Estados Unidos dominam o mercado de data centers. Isso faz com que o papel do Brasil pareça ínfimo nessa história, mas esse argumento apenas serve a quem tenta minimizar o horizonte de impacto dos data centers em nosso país. Mesmo que representemos uma minúscula fatia do mercado global, isso não significa que os impactos locais não sejam reais.
Mas também sabemos que o Brasil está atraindo mais e mais projetos de novos data centers porque nossa matriz elétrica já é mais descarbonizada do que a média. Para esse mercado, se há problemas de oferta de água em outros países, por que não instalar essas infraestruturas no Brasil, onde as diferenças regionais e de bioma são ignoradas para alimentar uma imagem de abundância e alta disponibilidade de recursos naturais?
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Ainda que os data centers consigam, no futuro, superar sua necessidade direta de água, com a adoção de outros modelos de resfriamento, essas novas tecnologias podem aumentar ainda mais o gasto elétrico, por estarem em constante expansão; ou seja, acabamos economizando um recurso aumentando o uso de outro, por não reconhecer limites ao crescimento. Mesmo que os data centers consumam energia em países mais descarbonizados, diminuindo o impacto em emissões, a perspectiva de expansão constante dessas estruturas traz outras consequências negativas.
Enquanto isso, os debates sobre o uso de nossos recursos para fins realmente prioritários são desvirtuados. Atualmente, o Brasil vive um cenário de excesso de oferta de energia, no qual o Operador Nacional do Sistema Elétrico tem determinado cortes de geração em horários de baixa demanda para evitar uma sobrecarga das redes. A indústria digital alega que está ajudando a resolver esse problema, ao mesmo tempo em que avisa que precisará de ainda mais energia no futuro. O setor opera ao redor do mundo com características de bolha, exigindo reinvestimento constante para alimentar sua busca infinita por capital.
Nesse contexto, o papel do Brasil é fornecer recursos. O país “vai sendo empurrado a entrar na corrida da IA, só que não como um grande player, mas como um provedor de matéria-prima, território, água, energia e dados, próprios da lógica do colonialismo de dados”, resume o relatório Não somos quintal de data centers, publicado pelo Instituto Brasileiro de Defesa de Consumidores, o Idec.
Faz-se necessário um bom debate sobre soberania digital no Brasil. Esse projeto deve sim incluir uma política justa e bem planejada de data centers no país, mas visando nossos usos prioritários, nossa segurança de dados e a redução da dependência das big techs no nosso cotidiano. A expansão dos data centers que vemos hoje, porém, não se submete a essa visão.
Para piorar, a questão ecológica é reduzida à “visão de túnel de carbono”, retórica que alega ser melhor colocar um data center no Brasil do que em um país com mais emissões. O impacto hídrico não é levado a sério, muito menos a relação entre o crescimento dos data centers e a demanda por mais minerais críticos. Necessários para eletrificar setores hoje dependentes do petróleo, jazidas de metais como o lítio e o cobre vão sendo consumidas pela digitalização crescente.
‘Uma transição energética justa e radical exigirá muitos recursos para a implementação de renováveis. Por mais que a desejemos, não podemos ser levianos com seus impactos’
Uma transição energética justa e radical exigirá muitos recursos para a implementação de renováveis. Por mais que a desejemos, não podemos ser levianos com seus impactos socioecológicos nem esquecer que há outros limites planetários além da questão das emissões. A mudança climática é uma crise catalisadora de outras crises, mas examiná-la de maneira isolada pode favorecer processos devastadores em outras partes do planeta, isso quando não causa novos problemas políticos também. A falta de um olhar global pavimenta o caminho para novos colonialismos mesmo quando moldamos o debate sobre indústria e desenvolvimento nacional em termos anti-imperialistas.
É muito importante articular a discussão sobre as novas zonas de sacrifício criadas pela instalação de data centers, em que recursos como água e energia são entregues de bandeja ao setor digital, com propostas que abordem a soberania digital a partir de uma perspectiva ecológica – o que eu chamo de “soberania ecológica”. Isso permitiria expandir nossas considerações, conectando, por exemplo, as resistências locais à captura de recursos naturais ao debate sobre o uso, a necessidade e os potenciais das tecnologias.
Sabemos que a extração de recursos não precisa ocorrer dentro das métricas do extrativismo, mas não há interesse político e econômico na sociedade capitalista – nem mesmo entre muitos atores de esquerda e socialistas – em promover um modelo de extração pós-extrativista. A própria digitalização poderia ser feita de forma muito mais responsável social e ecologicamente, mas isso exigiria uma visão mais crítica sobre as tecnologias que queremos e aquelas que deveríamos restringir.
Essa reflexão forneceria ferramentas para que trabalhadores consigam resistir coletivamente à imposição do uso de tecnologias que prejudicam sua vida – da pressão produtivista à adesão obrigatória no ambiente de trabalho –, deixando um impacto cognitivo e psicológico. Também representaria um primeiro passo para eliminar usos supérfluos e recreativos da tecnologia que, além de terem implicações éticas preocupantes, são um grande desperdício de recursos.
A forma como os data centers e a IA têm sido implementados recorre a mitos sobre desenvolvimento e futuro para justificar toda e qualquer captura de recursos, sejam eles naturais ou de dados. Entender isso nos ajuda a expandir o debate. Não há respostas simples para questões determinantes, mas não podemos fingir que as perguntas não existem ou que as críticas não são válidas.
Quando conectamos os pontos, percebemos que precisamos fazer a transição energética, reduzindo as emissões de carbono e o uso de combustíveis fósseis, mas também escolher melhor quais usos de energia são realmente importantes para a vida no planeta e para como nós, seres humanos, queremos viver e produzir.
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