Análise: Flávio Bolsonaro quer fazer das PM's sua base armada nas ruas

O candidato da polícia militar

Análise: Flávio Bolsonaro quer fazer das PM's sua base armada nas ruas

Cartas Marcadas

Parte 34

Cartas Marcadas é uma newsletter semanal que investiga a ascensão da extrema direita, as ameaças à democracia e os bastidores do poder em Brasília.


Na semana passada, assisti às duas horas de entrevista do senador Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal, o PL, do Rio de Janeiro, ao podcast Inteligência Ltda. com um objetivo que tem se repetido nas edições deste ano da newsletter: esmiuçar um dos personagens que devem protagonizar as eleições presidenciais.

Para que você não precise gastar as mesmas duas horas que eu, resolvi transformar a edição de hoje em uma análise. Porque, sim, ouvi de Flávio muita coisa repetida, histórias antigas e algumas fake news. Mas também escutei algo que vale uma reflexão.

Trata-se do fato de que, mais do que herdeiro de Jair Bolsonaro, Flávio também é algo distinto: se o pai foi a voz (ou, segundo alguns, a marionete) das Forças Armadas, seu filho mais velho é o candidato de um grupo específico: as polícias militares.


Essa divisão de papéis apareceu de forma explícita quando Flávio fez uma longa digressão para contar o início de sua trajetória no podcast. “Meu pai sempre teve como deputado um público muito focado de militares das Forças Armadas, principalmente inativos e pensionistas”.

Em seguida, delimitou seu próprio campo. “Eu foquei muito a minha atuação nos militares estaduais, por isso a minha militância, o meu trabalho muito voltado para polícia, bombeiro, agente penitenciário… É um público que eu foquei em complementar meu pai”. E concluiu: “Meu pai defendia os militares federais, eu defendia os militares estaduais”.

Isso é importante porque não se trata de uma divisão de eleitorado, já que Flávio entrou na política como deputado estadual para fazer dobradinha com o pai e, assim, receber exatamente os mesmos votos que Jair. Isso importa porque é uma divisão de cultura política.

Se Jair Bolsonaro construiu sua base histórica entre integrantes das Forças Armadas, Flávio ocupou o espaço das polícias militares, bombeiros e agentes penitenciários — categorias inseridas no cotidiano urbano e marcadas por uma lógica de confronto direto.

Essa identificação apareceu de forma reiterada ao longo da entrevista. “Sempre defendi e sempre vou defender policial. Tenho admiração pelos policiais. São caras que dão a vida pela gente (…)Eu já subi morro para participar de reconstituição de operações policiais… Esse tipo de político que diz defender direitos humanos ia para prejudicar os policiais”.

A defesa das milícias

Mas foi quando falou sobre milícias e policiais acusados de crimes que o discurso de Flávio revelou sua dimensão mais controversa. Em dado momento da entrevista, ele teve que explicar por que relativizava denúncias e colocava em dúvida enquadramentos mais amplos do fenômeno na época da Comissão Parlamentar de Inquérito, a CPI, das Milícias no Rio de Janeiro, em 2008, na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, a Alerj.

“Qualquer prédio que tinha dois, três policiais morando era milícia… Se tinha uma rua onde moram 10 policiais e eles não deixavam ter uma boca de fumo na porta da casa deles, chamavam de milícia… Nesse cenário, a gente defendia a legitimidade dos policiais”.

Uma justificativa parecida surgiu no caso de Adriano da Nóbrega, ex-capitão do Batalhão de Operações Policiais Especiais, o Bope, apontado como um dos líderes da milícia Escritório do Crime. Na entrevista, Flávio afirma: “Eu o conheci dentro do Bope, dando instrução de tiro para mim… Era uma referência, exímio atirador, super respeitado dentro da polícia”.

O histórico dessa relação é conhecido. Adriano foi homenageado por Flávio com a Medalha Tiradentes, uma das mais altas honrarias da Alerj, quando já respondia a acusações criminais.

Depois, a mãe e a ex-esposa do miliciano foram empregadas no gabinete do então deputado estadual — ambas citadas em investigações sobre o esquema de rachadinha envolvendo Fabrício Queiroz.

Na entrevista, Flávio justifica: “Fiz uma homenagem para ele e entreguei dentro do batalhão especial prisional para publicamente manifestar: ‘Ó, tô aqui defendendo um policial injustiçado’”. E acrescenta: “Eu conheci a família dele porque tinha movimento de esposas de policiais militares que defendiam esses familiares…”

‘Vai ser neutralizado’

O padrão se repete em sua visão sobre o uso da violência. Ao comentar uma operação com apreensão de mais de 100 fuzis em novembro do ano passado, no Rio de Janeiro, afirmou: “Para mim, foi uma operação que tinha que ter mais umas 200 dessas aí para começar a dar jeito”. E sintetizou: “Se enfrentar a polícia vai ser neutralizado, tem que ser mesmo. O marginal que for pego vai ser preso e não vai sair, mas se enfrentar a polícia vai ser neutralizado”.

Mas é importante evitar uma leitura simplista do que estou dizendo aqui. Não se trata de afirmar que Jair Bolsonaro não tinha relação ou apoio entre policiais militares. Pelo contrário: eles foram peça central na tentativa de golpe em 8 de janeiro de 2022, e a adesão bolsonarista dentro dessas corporações é massiva.

Em reportagem que publiquei no Intercept Brasil em 7 de fevereiro de 2024, mostrei como integrantes da cúpula da PM do Distrito Federal articularam um conluio para escapar de punições pela tentativa de golpe, isolando um coronel e tentando transformá-lo em bode expiatório — inclusive com trocas de mensagens que evidenciam essa operação.

O que diferencia Flávio é o grau de comprometimento com esse universo — que chega a um nível difícil de relativizar. Recentemente, veio a público um bom exemplo: uma reportagem de Alice Maciel publicada em 31 de março de 2026 no ICL Notícias revelou que Flávio Bolsonaro atuou como advogado na defesa de um policial acusado de matar uma menina de 5 anos durante uma operação no Rio de Janeiro.

Não é uma reportagem que criminaliza a advocacia — qualquer acusado tem direito à defesa. Mas o episódio expõe algo mais profundo: um nível de alinhamento e comprometimento político com policiais que beira o incondicional, mesmo diante de casos extremos. Isso revela até onde Flávio está disposto a ir para sustentar essa base.

Há, portanto, uma diferença relevante entre pai e filho. Mas não necessariamente um abrandamento. Pelo contrário. O que vejo é a consolidação de um polo ainda mais conectado à base armada que atua diretamente nas ruas, nas operações e nas periferias.

Com as PMs no centro do seu projeto político, Flávio vê na segurança pública não só uma bandeira eleitoral, mas uma ferramenta para esticar os limites institucionais — a partir de uma atuação cada vez mais violenta das polícias nas cidades brasileiras.

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