É provável que você se lembre. Durante a pandemia, uma parte relevante das decisões do governo do então presidente Jair Bolsonaro não passava pelos canais formais do Ministério da Saúde. Não era registrada em agendas oficiais, não era comunicada publicamente e, muitas vezes, contrariava as recomendações produzidas pelo corpo técnico da pasta.
Esse arranjo, que veio a ser descrito por autoridades e pela CPI da Covid no Senado como um “gabinete paralelo”, funcionava à margem da estrutura institucional, mas com acesso direto ao centro do poder. Nos últimos dias, um episódio aparentemente corriqueiro da política partidária trouxe esse passado de volta ao presente.
No dia 25 de março, o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência da República, e o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, gravaram um vídeo celebrando a filiação e a pré-candidatura da médica Nise Yamaguchi à Câmara dos Deputados nas eleições de outubro.
A cena, registrada e divulgada como um gesto de apoio eleitoral, recoloca no debate público uma personagem que teve atuação relevante — e pouco transparente — nos bastidores do governo de Jair Bolsonaro durante o período mais crítico da crise sanitária.
A lembrança é especialmente significativa porque, em janeiro deste ano, o Ministério Público Federal, o MPF, decidiu arquivar um pedido de investigação sobre a conduta de Bolsonaro na pandemia.
No despacho, a procuradoria afirmou que as acusações apresentadas eram genéricas e não estavam acompanhadas de elementos mínimos que justificassem a abertura de um inquérito.
A decisão encerrou, no âmbito do MPF, uma frente de questionamento que dialogava diretamente com os fatos revelados ao longo de 2020 e 2021 — entre eles, a existência de um núcleo informal de aconselhamento que operava fora das estruturas oficiais. Mas tem coisas que não podemos esquecer. Vamos aos fatos.
A primeira reportagem que publiquei no Intercept Brasil, ainda como freelancer, em maio de 2021, revelou que Nise Yamaguchi frequentou o Ministério da Saúde em reuniões que não constavam em agendas públicas, mesmo quando envolviam as principais autoridades da pasta.
Os dados vieram de registros de entrada e circulação que obtive via Lei de Acesso à Informação, listando visitantes do prédio do ministério em Brasília ao longo de 2020.
De acordo com esses documentos, Nise esteve na sede da pasta em pelo menos quatro datas — em junho, julho e dezembro daquele ano. Em duas dessas ocasiões, entrou mais de uma vez no mesmo dia, nos períodos da manhã e da tarde, o que indicava reuniões prolongadas, distribuídas ao longo de várias horas.
RELEMBRE AS REPORTAGENS:
- Nise Yamaguchi e irmãos tiveram reuniões secretas com a cúpula do Ministério da Saúde
- Depoimento de Nise Yamaguchi: senadores estão aprendendo a cortar o lero-lero dos negacionistas na CPI
Em 10 de junho de 2020, por exemplo, ela acessou o prédio às 9h41 e foi encaminhada ao gabinete do ministro interino Eduardo Pazuello. Retornou às catracas às 14h50, desta vez direcionada à secretaria-executiva, então comandada pelo coronel Elcio Franco.
Nenhuma dessas reuniões aparecia nas agendas oficiais de Pazuello ou de Franco. Pela legislação brasileira, compromissos de ministros e secretários-executivos devem ser registrados e divulgados, inclusive quando se trata de despachos internos.
A ausência de qualquer menção a esses encontros indicavam que eles foram deliberadamente omitidos da publicidade exigida para cargos dessa natureza.
Os registros mostravam ainda que Nise não atuava isoladamente. Em algumas visitas, esteve acompanhada de sua irmã, a administradora de empresas Greice Naomi Yamaguchi. Em outra visita, Greice já havia estado no prédio dias antes, ao lado de outro irmão, o cirurgião plástico Charles Takahito Yamaguchi.
Essa circulação familiar dentro de áreas sensíveis da pasta coincide com um momento em que o governo federal discutia e implementava mudanças importantes na política de enfrentamento à covid-19.

Gabinete das sombras
Ao longo de 2020, o Ministério da Saúde flexibilizou regras para prescrição de medicamentos como cloroquina e hidroxicloroquina e, no início de 2021, lançou o aplicativo TrateCov, que indicava automaticamente o uso desses fármacos em casos suspeitos.
Nise Yamaguchi foi uma das principais defensoras públicas dessas estratégias. Em entrevistas, audiências e participações em comissões legislativas, sustentou o uso do chamado “tratamento precoce” e chegou a defender, em depoimento à CPI da Covid, que a ideia de imunização de rebanho sem vacinação era “pertinente”, baseada na ampla exposição da população ao vírus.
Essas posições estavam em desacordo com o consenso estabelecido por entidades científicas nacionais e internacionais, que apontavam a ineficácia desses medicamentos contra a covid-19.
A proximidade de Nise com o núcleo do governo não se restringia ao Ministério da Saúde. Documentos entregues à CPI da Covid indicaram que Nise também esteve no Palácio do Planalto em pelo menos quatro ocasiões ao longo de 2020.
A CPI reuniu depoimentos e evidências que apontavam para a existência de um grupo informal de aconselhamento ao presidente, formado por médicos, empresários e assessores, que atuava paralelamente à estrutura oficial do ministério.
O ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, que atuou na pasta até abril de 2020, afirmou aos senadores que Bolsonaro recorria a “outras fontes” de informação e utilizou o termo “assessoramento paralelo” para descrever esse processo. Autoridades como o diretor da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a Anvisa, Antonio Barra Torres, também mencionaram a atuação de um núcleo externo influenciando decisões estratégicas.
Participação de peso
Nesse arranjo, a presença frequente de Nise em reuniões não registradas com a cúpula da pasta e com o entorno presidencial tinha um peso específico. Ela não ocupava cargo formal no governo, mas tinha acesso a espaços decisórios e participava de discussões que resultavam em políticas públicas de grande impacto.
A ausência de transparência sobre esses encontros impediu a reconstrução completa do conteúdo das reuniões, mas a coincidência temporal entre sua atuação e as medidas adotadas pelo governo indica uma relação direta entre o aconselhamento informal e a condução da política sanitária.
Esse conjunto de decisões teve impacto letal. Estudos comparativos indicam que o Brasil registrou um excesso de mortalidade significativamente acima da média global durante a pandemia. O país figurou entre os que mais concentraram mortes em termos absolutos e proporcionais, ultrapassando, em diferentes momentos, a tendência internacional quando ajustada por população.
Ao final da crise sanitária, o Brasil somou mais de 700 mil mortes por covid-19 — um número que, à luz de análises epidemiológicas, não pode ser dissociado das escolhas de política pública adotadas naquele período.
De volta à cena
O vídeo recente em que a pré-candidatura de Nise Yamaguchi é celebrada por Flávio Bolsonaro traz de volta ao centro da cena política uma figura associada ao funcionamento desse circuito paralelo. Fora das sombras.
O afago de Flávio em Nise, sem nenhum constrangimento, dialoga com um padrão observado em outras experiências recentes da extrema direita. Em governos como o de Donald Trump, nos Estados Unidos, e o de Viktor Orbán, na Hungria, o segundo momento de poder tende a ser menos contido na implementação de agendas que, no primeiro ciclo, ainda encontravam freios institucionais ou resistências internas.
Procurei a médica Nise Yamaguchi pela primeira vez em 2021, à época das reportagens sobre sua atuação durante a pandemia, mas não houve retorno. Agora, novamente contatada para esta reportagem, também não respondeu aos questionamentos enviados até o fechamento deste texto.
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