Plano de Trump é dominação da América Latina

Trump mira na América Latina e os ataques estão só começando

Estratégia de segurança nacional dos EUA revela planos de Trump: retomar domínio da região com força militar e aliados de extrema direita.

Plano de Trump é dominação da América Latina

Enquanto o governo Trump continua a bombardear o Irã, um alto funcionário do Pentágono revelou que as guerras dos EUA no hemisfério ocidental também estão se expandindo, e revelou a existência de um projeto chamado “Operação Extermínio Total“.

Os ataques contra os cartéis de drogas latino-americanos são “só o começo”, segundo afirmou à Comissão de Serviços Armados da Câmara dos EUA o subsecretário interino de guerra para defesa nacional e questões de segurança das Américas, Joseph Humire.

Humire sinalizou que estão em vista muitos outros ataques contra a América Latina. Os comentários foram feitos no dia seguinte a mais uma insinuação do presidente Donald Trump sobre a possível anexação de Cuba aos Estados Unidos. “Acredito que serei a honra de – terei a honra de tomar Cuba”, disse Trump, na semana passada. “Se eu libertá-la, ou tomá-la, acho que posso fazer o que quiser com ela.”

Humire anunciou que o Departamento de Guerra apoiou “ações cinéticas contra alvos de cartéis ao longo da fronteira entre Colômbia e Equador” – o que é jargão do Pentágono para se referir aos ataques de 3 de março contra “organizações classificadas como terroristas”, que o Intercept dos EUA já noticiou. “O esforço conjunto, denominado ‘Operação Extermínio Total’, é o início de uma ofensiva militar do Equador contra organizações criminosas transnacionais com o apoio dos EUA”, ele afirmou.

A campanha dos EUA e do Equador já resvalou na Colômbia, depois que uma plantação foi atingida por “efeito ricochete” em 3 de março, o que deixou uma bomba não detonada de 230kg na região da fronteira colombiana. Em resposta a um pedido de comentários, o Comando Sul (SOUTHCOM), das forças armadas dos EUA, encaminhou ao Intercept um comunicado do Ministério da Defesa do Equador na rede X, confirmando que a bomba caiu na Colômbia.

Humire se referiu aos ataques como “ataques terrestres conjuntos”, e afirmou que os EUA estavam fornecendo ao Equador “recursos que eles não teriam de outra forma”. Desde então, os EUA já realizaram pelo menos mais um ataque em parceria com o Equador. “Sim – como o @POTUS [presidente dos EUA] afirmou – também estamos bombardeando Narco Terroristas (sic) em terra”, escreveu na rede X em 6 de março o autodenominado secretário da Guerra, Pete Hegseth, anunciando o novo ataque. Dias depois, em um relatório dos poderes de guerra que anunciou a entrada das forças armadas dos EUA em “hostilidades” naquele país, a Casa Branca informou ao Congresso sobre “ação militar praticada em 6 de março de 2026 contra instalações de narcoterroristas afiliados com uma organização classificada como terrorista”. 

Os ataques no Equador também integram e ampliam a Operação Lança do Sul: a campanha ilegal de ataques das forças armadas dos EUA contra barcos no Mar do Caribe no no leste do Oceano Pacífico. Os EUA realizaram 46 ataques desde setembro de 2025, destruindo 48 embarcações e matando quase 160 civis. O ataque mais recente, em 19 de março, no Pacífico, matou mais duas pessoas e deixou um sobrevivente. O governo Trump afirma que suas vítimas são integrantes de pelo menos um dos 24 ou mais cartéis e facções criminosas com as quais afirma estar em guerra, mas que se recusa a nomear.

‘Nos precipitarmos na guerra pelos caprichos de um homem é o exato oposto do que a Constituição exige.’

“Esse governo mal fala do direito constitucional ou internacional que rege o uso da força. Mas essas regras existem por um motivo”, diz Rebecca Ingber, ex-advogada do Departamento de Estado dos EUA, atualmente professora na faculdade de direito Cardozo Law School, em Nova York. “Nos precipitarmos na guerra pelos caprichos de um homem é o exato oposto do que a Constituição exige.”

O general Francis Donovan, comandante do SOUTHCOM, disse aos parlamentares na semana passada que “os ataques aos barcos não são a solução”, mas sinalizou a possibilidade de uma campanha ainda maior. “O que estamos buscando agora pode ser uma extensão da Lança do Sul, mas realmente um processo de campanha contra os cartéis, que coloque total atrito sistêmico em toda essa rede”, disse ele aos integrantes da Comissão de Serviços Armados do Senado dos EUA. “Acho que esses ataques cinéticos [aos barcos] são apenas uma pequena parte disso.”

Humire não soube dizer quantos ataques terrestres estavam sendo realizados em quase 20 países da América Latina e do Caribe. “Não tenho o número exato”, ele respondeu, quando perguntado. Mas quando o deputado Adam Smith, do Partido Democrata de Washington, líder da minoria na Comissão de Serviços Armados da Câmara, perguntou se o Departamento de Guerra “estaria se mobilizando para muito mais ataques terrestres”, Humire respondeu: “sim, deputado”.

O gabinete do secretário da Guerra não respondeu a um pedido para esclarecer o tamanho provável desse aumento.

Humire afirmou que a campanha dos EUA e do Equador está “ditando o ritmo para as operações regionais com foco em dissuasão contra a infraestrutura dos cartéis em toda a América Latina e no Caribe”. A palavra “dissuasão” se tornou um eufemismo popular no Pentágono para o uso de ataques letais, em contraste com as iniciativas anteriores do governo dos EUA para mobilizar meios econômicos, diplomáticos e militares para convencer os adversários a abandonar um curso de ação específico. “A dissuasão tem um efeito de sinalização sobre os narcoterroristas, e aumenta os ricos de seus movimentos”, alegou Humire.

Em janeiro, os EUA atacaram a Venezuela e sequestraram o presidente do país, Nicolás Maduro. Eles agora controlam o país por meio de um governo fantoche. Os procuradores federais teriam elaborado uma denúncia criminal contra a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, ameaçando acusá-la de corrupção e lavagem de dinheiro caso se recuse a cumprir os desmandos do governo Trump. Trump também insinuou recentemente a possibilidade de transformar a Venezuela no 51º estado dos EUA.

O governo Trump estaria supostamente realizando uma operação de mudança de regime em Cuba, tentando derrubar o presidente Miguel Díaz-Canel como requisito para as negociações entre os EUA e o país insular. Dizem que as autoridades dos EUA preferem Raúl Guillermo Rodríguez Castro, neto de Raúl Castro, de 94 anos, ex-presidente cubano e irmão de Fidel, que governou Cuba de 1959 a 2008. Na semana passada, no X, Díaz-Canel mencionou os planos dos Estados Unidos para “tomar o país”, e disse que seriam recebidos com “resistência inexpugnável”.

“Estou segurando Cuba”, disse Trump recentemente, comentando que sua dispendiosa guerra de mudança de regime no Oriente Médio é a prioridade no momento. “Vamos resolver o Irã antes de Cuba.” Trump impôs um bloqueio de petróleo a Cuba em janeiro, mergulhando o país em uma crise humanitária. A rede elétrica da ilha já entrou em colapso três vezes este mês, e um dos apagões durou mais de 29 horas. Especialistas em direitos humanos da ONU repudiam o bloqueio imposto por Trump a Cuba como “uma violação grave ao direito internacional e uma séria ameaça a uma ordem internacional democrática e igualitária”.

Trump, que vem falando reiteradamente em “tomar” Cuba, é o mais recente de uma longa série de presidentes dos EUA que tentaram derrubar o governo cubano. Durante a Guerra Fria, a CIA lançou a desastrosa invasão da Baía dos Porcos, em 1961. A agência também tentou assassinar Fidel Castro pelo menos oito vezes. Os EUA também realizaram uma campanha secreta para bombardear usinas de açúcar e incendiar canaviais em Cuba, entre outros atos de sabotagem.

Após o desastre da Baía dos Porcos, o Pentágono preparou planos ultrassecretos para abrir terreno para um ataque contra a ilha. No final de 1962, o Estado-Maior Conjunto fez circular um memorando ultrassecreto intitulado “Justificativa para a intervenção militar dos EUA em Cuba”. Ele descrevia operações de bandeira falsa que poderiam ser usadas para justificar uma invasão dos EUA, como um plano para “afundar um barco cheio de refugiados cubanos (reais ou simulados)” e até encenar um incidente semelhante ao que desencadeou a guerra hispano-americana – afundar um navio próprio em águas cubanas e atribuir a culpa a Cuba. Outros planos de ações secretas dos EUA na ilha priorizavam especificamente os ataques contra a rede elétrica de Cuba.

Em resposta a uma pergunta sobre o possível envolvimento do Estado-Maior Conjunto em ações semelhantes atualmente, a porta-voz, major Annabel Monroe, encaminhou o Intercept ao Comando Sul, que por sua vez encaminhou ao Departamento de Estado, que não quis se manifestar.

Humire disse que o Departamento de Guerra “atualmente está focado em operações de dissuasão conduzidas por parceiros”, mas não descartaria ataques unilaterais dos EUA na América Latina. Segundo ele, além do Equador, os EUA firmaram acordos com outros 17 países parceiros no hemisfério ocidental, como parte da chamada Aliança das Américas contra os Cartéis. Esse órgão internacional, formalmente anunciado por Trump em sua cúpula do Escudo das Américas, no início do mês, terá como foco “operações bilaterais e multilaterais contra cartéis e organizações terroristas”.

Perguntaram a Humire se algum dos 18 países estava preocupado com questões de soberania em relação à possibilidade de que os EUA realizem ataques em seu território. “Os integrantes da aliança assinaram especificamente uma declaração conjunta de segurança, mencionando que querem esse apoio e a maioria deles está procurando por isso”, ele respondeu. Mas a declaração enxuta que eles assinaram é espantosamente vaga, e oferece poucos elementos substanciais sobre o tema.

Humire indicou que os EUA haviam se valido da diplomacia das canhoneiras na Venezuela para ameaçar Cuba e ajudar a “obter conformidade na Nicarágua”, além de “conduzir o Caribe a uma direção favorável aos interesses estadunidenses”.

Vazamentos oficiais recentes sobre a possível apresentação de denúncia pelos EUA contra o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, por tráfico de drogas – a justificativa oficial para o sequestro de Maduro, e supostamente o meio usado para manter na linha sua sucessora, Rodríguez – dão a entender que os Estados Unidos podem empregar essa tática para serem favorecidos, ou como pretexto para uma ação militar. (Petro nega qualquer vínculo com o tráfico de drogas.)

“Parece que a cabeça de Petro está a prêmio”, disse ao Intercept um ex-funcionário de alto escalão da defesa, que falou sob condição de anonimato em razão de seu atual emprego. A fonte diz que vazamentos sobre a possível denúncia de Petro, somados ao ataque conjunto entre EUA e Equador, que causou tensões na fronteira entre os países, parecem indicar cada vez mais uma campanha coordenada para semar “discórdia”, e talvez, conflito. Em janeiro, questionado sobre a possibilidade de atacar a Colômbia, Trump respondeu: “parece bom para mim”.

Os ataques dos EUA na fronteira entre Colômbia e Equador aconteceram logo na sequência da criação de uma presença permanente do FBI no Equador, unindo-se a agentes da Agência Antidrogas e ao Departamento de Segurança Nacional. Logo antes dos ataques, Donovan viajou para Quito, capital do Equador, para se reunir com o presidente, Daniel Noboa, e oficiais equatorianos de defesa de alto escalão. 

Em agosto do ano passado, o tenente-coronel Phillip Vaughn – comandante de uma Força-Tarefa Expedicionária que supervisionava Operações Especiais da Força Aérea no Caribe e na América do Sul – coordenou encontros para aumentar a “interoperabilidade entre as forças dos EUA e do Equador” para “combater agentes ilícitos atuando na fronteira norte do Equador” com a Colômbia, incluindo “planejamento de cenários operacionais, execução de procedimentos de apoio aéreo aproximado” e “tópicos diversos sobre o apoio ao Controle Aéreo da Linha de Frente”, o que se relaciona com a definição de alvos e os ataques aéreos.

A mobilização dos Estados Unidos no hemisfério ocidental faz parte do que Trump e outros vêm chamando de “Doutrina Donroe“, uma corruptela da Doutrina Monroe, de 1823. Enquanto a política do presidente estadunidense James Monroe tentava supostamente impedir que a Europa colonizasse e interferisse no hemisfério ocidental, Trump vem usando sua variante como uma licença para que os Estados Unidos façam exatamente isso.

A Estratégia de Segurança Nacional, divulgada no final do ano passado, decreta o “Corolário Trump” à Doutrina Monroe, uma “potente restauração do poder e das prioridades americanas”, fundado no “reajuste de nossa presença militar global para enfrentar ameaças urgentes em nosso hemisfério”. Humire definiu o “perímetro de segurança imediato dos Estados Unidos” como “do Alasca à Groenlândia no Ártico ao Golfo da América e Canal do Panamá e países vizinhos”. Trump também já ameaçou anexar a Groenlândia (e possivelmente a Islândia), transformar o Canadá em um estado, e realizar ataques militares no México. Humire detalhou ainda os esforços para pressionar o Panamá a cortar os laços com a China para garantir acesso ao canal, de propriedade do Panamá, mas que mesmo assim ele chamou de “ativo nacional” dos EUA.

Durante o segundo mandato, além de suas guerras no hemisfério ocidental, Trump também lançou ataques contra o Irã, o Iraque, a Nigéria, a Somália, a Síria e o Iêmen – na maioria, locais de conflito dos EUA durante a guerra ao terror.

Smith, o líder da minoria na Comissão de Serviços Armados da Câmara, disse a Humire que as guerras de Trump nas Américas também pareciam estar se transformando em um novo “conflito eterno”, sem objetivo claro, nem “ponto de chegada”. Questionado sobre o “nível de realização” que seria necessário para “interromper a ação cinética”, Humire respondeu com um jorro de palavras sobre segurança de fronteira, terrorismo e cartéis. Quando Smith interrompeu para esclarecer se os ataques aos barcos continuariam intocados, Humire respondeu, confusamente: “não, correto”.

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