Enquanto continua lucrando bilhões com anúncios de golpistas, a Meta quer passar a impressão de que está agindo para resolver os crimes digitais que acontecem dentro de suas plataformas. A empresa vive uma grave crise reputacional relacionada à sua permissividade com golpes. Como vem enfrentando crescentes pressões regulatórias, quer se apresentar como vítima e não cúmplice.
Não por acaso, no dia 27 de fevereiro, o LinkedIn amanheceu com uma onda de postagens autocongratulatórias de funcionários da Meta anunciando um “passo importante no combate a golpes digitais” que supostamente indica “o compromisso em proteger pessoas e empresas”.
Diversas dessas postagens têm exatamente o mesmo texto, evidenciando um esforço coordenado pela liderança da big tech:



Esse esforço não se limitou às redes sociais. Houve também uma onda de notícias em veículos de comunicação, arquitetada pelo time de relações públicas da Meta, reproduzindo o discurso oficial da empresa. Folha de S.Paulo, G1, Veja, Carta Capital e Meio & Mensagem estão entre os veículos que ajudaram a fazer eco, entre outros.
Recentemente, foi revelado que cerca de 10% do faturamento global da Meta em 2024 veio justamente de propagandas falsas e golpes, o equivalente a 16 bilhões de dólares (R$ 83 bilhões). A empresa tem plena consciência disso: a descoberta se deu pelo vazamento de documentos internos, que também mostram que ela deixa o crime rolar mesmo depois de identificar suspeitos, e ignora a grande maioria das queixas de usuários.
Isso leva a graves consequências. No Brasil, diferentes pesquisas apontam que mais da metade da população foi vítima de golpes digitais em 2024, e que o problema vem crescendo de forma acelerada. Grande parte desses crimes ocorre por meio de propagandas fraudulentas em redes sociais, o que gera enormes ganhos financeiros à Meta e outras big techs.
Um subgrupo dessas propagandas fraudulentas, que tem chamado especial atenção recentemente, são aquelas que fazem uso indevido da imagem de pessoas famosas para a venda de produtos e serviços – frequentemente produzidas com ferramentas de inteligência artificial. São muitos os casos, envolvendo celebridades como Anitta, Neymar, Angélica, Gisele Bündchen e William Bonner.
Cansado de ver a Meta deixar golpistas usarem sua imagem apesar de diversas reclamações, o médico oncologista e escritor Drauzio Varella entrou na Justiça contra a empresa, aumentando significativamente seu risco jurídico e reputacional. Se Drauzio ganhar a ação, e outras celebridades decidirem fazer o mesmo, pode virar uma bola de neve.
Diante disso, o que a Meta decidiu fazer? Pouco disposta a atacar o problema na raiz, mas interessada em lavar sua imagem e também passar a legisladores e ao Judiciário a impressão de que está fazendo algo a respeito – e que, portanto, não deve ser regulada nem punida –, a empresa fez uma escolha estratégica: abriu ela mesma ações contra um grupo minúsculo de golpistas e posou de vítima.
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Não precisa ser um especialista no funcionamento de redes sociais para perceber que esse movimento da Meta é totalmente incoerente. Afinal, é a própria Meta quem aprova esses anúncios, os veicula em suas plataformas e ganha dinheiro com isso – em grande escala. Nessa história a empresa é cúmplice, não vítima.
Fica ainda pior quando se analisam os detalhes: foram abertas ações contra apenas seis pessoas físicas e jurídicas no Brasil, associadas a apenas duas operações fraudulentas – incluindo uma que usou a imagem de Drauzio Varella, caso que atingiu maior visibilidade. Isso em um país onde a Meta conta com centenas de milhares de anunciantes.
É bastante evidente que esse não é um esforço relevante ou que mereça ser levado a sério. Como o próprio Drauzio Varella já disse, “é uma migalha”, “uma gota d’água em um oceano de estelionato”. Mas é um esforço que permite construir uma narrativa de relevância e seriedade, exatamente o que a empresa fez – mobilizando seus funcionários para fazer barulho nas redes, e contando com o fato de que veículos de comunicação de peso reproduziriam essa narrativa sem fazer perguntas.
Enquanto a Meta tenta nos enganar, fica cada vez mais evidente que qualquer solução para o problema dos golpes digitais precisa partir do entendimento de que a permissividade com esses crimes é parte do modelo de negócios dela e de outras big techs, e que sua responsabilização e devida regulação são passos inevitáveis.
E a ação de Drauzio Varella contra a empresa, que evidentemente incomodou e a forçou a fazer todo esse malabarismo, nos aponta um caminho a seguir: mobilizar e ajudar mais vítimas a abrir ações no Judiciário, chamando mais atenção para o problema, e subindo o risco jurídico e reputacional da sua associação ao crime.
A empresa de Zuckerberg ainda é muito bem-sucedida em fugir da lei, mas pouco a pouco vai ficando mais difícil.
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