Na manhã de sábado, os Estados Unidos e Israel realizaram intensos ataques aéreos contra o Irã, matando o Líder Supremo Ali Khamenei, que governava a República Islâmica desde 1989.
Segundo a Agência de Notícias dos Ativistas dos Direitos Humanos, os ataques mataram pelo menos 333 civis de 18 províncias do Irã, em pelo menos 59 incidentes. Em resposta o Irã lançou uma saraivada de ataques com mísseis e drones contra alvos estadunidenses e israelenses, militares e civis, em toda a região.
O Intercept dos EUA entrevistou Ryan Costello, diretor de políticas do Conselho Nacional Iraniano-Americano, para entender o que levou o ataque contra o Irã, o que se sabe até agora, e como a situação pode se desenrolar ao longos dos próximos dias e semanas.
A entrevista foi editada para fins de clareza e extensão.
O que vimos hoje no Irã e no restante da região?
Trump colocou os EUA em uma grande guerra de mudança de regime contra o Irã, e pelo que sabemos até agora, parece que centenas de iranianos foram mortos, e quase cem mortes aconteceram em uma escola de meninas.
Não sabemos exatamente por que aquela escola foi bombardeada, se é um caso de falha de inteligência ou de artilharia, ou alguma outra coisa. Mas essas estão entre as primeiras baixas da guerra, o que de fato destaca o que está em jogo aqui, em termos de vida ou morte, à medida que a guerra se desenrola.
É uma perda tão trágica, que não teria acontecido se Trump não tivesse tomado a decisão de entrar em guerra. Então, independentemente de qual tenha sido o motivo, se uma falha de inteligência, artilharia, ou o que for, essas meninas não voltarão mais. E isso ressalta o que está em jogo em uma guerra, e por que tantas pessoas tentam impedir que as guerras comecem.
O governo iraniano confirmou a morte do Líder Supremo Ali Hosseini Khamenei. O que sua morte significa para o Irã e para a posição do país na região?
Khamenei esteve à frente da República Islâmica por décadas, e foi uma parte enorme de cada decisão importante que o Irã tomou ao longo desse período. Mesmo antes de se tornar oficialmente o líder supremo, ele foi presidente, e um assessor importante do primeiro Líder Supremo, [Ruhollah] Khomeini. Então, ele é um dos revolucionários originais da República Islâmica. De muitas formas, o Irã não estaria onde está hoje sem ele, para o bem e para o mal. Muitos acham que ele refreou o progresso no país. Ele foi responsável por grandes violações aos direitos humanos, e basicamente comprou briga com os Estados Unidos e colocou o país em uma armadilha importante.
Só houve uma sucessão de líder supremo até hoje, quando Khamenei sucedeu Khomeini, em 1989. Então, faz muito tempo, mas existem processos previstos. Existe um órgão inteiro cujo único trabalho é basicamente esperar sentado para escolher o próximo Líder Supremo. Chama-se Assembleia dos Especialistas, e é composta por figuras de grande senioridade no sistema iraniano. Não se sabe ao certo se eles fariam isso imediatamente ou daqui a algum tempo, mas em algum momento eles se reunirão e avaliarão quem será o próximo líder supremo.
[Nota do editor: Após a publicação deste artigo, autoridades iranianas anunciaram que um conselho de juristas de alto escalão governará no lugar de Khamenei até que um novo líder seja escolhido.]
O fato de que isso está acontecendo durante um período de guerra deixa muitas perguntas no ar, mas veremos, ao fim, o que o sistema será capaz de criar. Khamenei parece ter preparado a sucessão dentro da República Islâmica, e já vinha orientando vários tomadores de decisão a indicarem assessores e terem um plano de operações para que os eventos pudessem continuar e o sistema pudesse seguir em frente, mesmo nas circunstâncias de sua morte.
O fato de que ele foi morto em um ataque, em vez de morrer de causas naturais, fará diferença na forma como a sucessão deve se desenrolar, ou na escolha de quem o sucederá?
Acho que há uma preocupação de que, enfim, se um líder está sendo escolhido durante a guerra, acabará sendo alguém mais dogmático, com uma rigidez ideológica? Ou será alguém mais pragmático, que pode tentar atuar para acabar com a crise? Não saberemos até que a pessoa seja escolhida e comece a tomar certas decisões.
Trump deixou claro que o objetivo desta operação é a mudança de regime, e convocou o povo do Irã a tomar o poder, e as forças de segurança a agirem no sentido de uma transição. O que estamos realmente vendo neste momento, e o que podemos esperar dos próximos dias e semanas?
Parece que eles querem fazer uma mudança de regime, mas uma espécie de mudança de regime à distância, em que eles não colocam tropas em solo, e encorajam as pessoas no local a se insurgirem e derrubarem o governo por eles.
Uma situação que vem à mente é o que aconteceu em 1991, quando George H. W. Bush só chegou até o ponto de expulsar os iraquianos do Kwait, e depois encorajou os iraquianos a se rebelarem. Dezenas de milhares de pessoas foram massacradas pelo regime de Saddam Hussein após essa convocação à insurgência. Acho que há um paralelo histórico claro com a postura de Trump em relação ao Irã até agora, em que muitos iranianos já foram mortos após serem encorajados por Trump a se insurgirem.
Mesmo após os ataques, é preciso presumir que pelo menos alguns elementos do governo do Irã manterão o monopólio do uso da força – ou seja, terão armas, que o povo não tem. Se tudo isso vai levar a uma situação em que de alguma forma a democracia escorra das bombas, veremos. Não me parece um cenário especialmente provável.
A [Guarda Revolucionária Islâmica] continua sendo o ator mais forte do país, tanto em termos de recursos militares, quanto de organização. Obviamente, ela absorveu muito do impacto dos primeiros ataques dos EUA, mas acho que é de longe o ator mais poderoso dentro do sistema. Então, essencialmente, se os teocratas do sistema iraniano forem afastados, a Guarda Revolucionária ficará responsável por grande parte da resposta e da defesa do Irã, e na melhor situação para ocupar qualquer lacuna política ou de governo que possa surgir.
Com base no que aconteceu neste fim de semana, o que podemos adivinhar sobre a lógica do governo Trump de praticar esses ataques? Que objetivo eles queriam atingir?
Acho que provavelmente muitas pessoas nos EUA foram pegas de surpresa por isso. Mas quem lê as notícias acompanhou a maior concentração de forças militares no Oriente Médio desde a Guerra do Iraque. Pareciam sinais de que ou haveria um acordo, ou uma guerra.
É muito parecido com o que aconteceu em junho, quando as negociações diplomáticas aparentemente foram uma farsa. Tudo indica que Trump tenha sido convencido por Benjamin Netanyahu a atacar o Irã meses atrás, possivelmente antes dos protestos e tudo mais.
Essencialmente, eles se empolgaram com a operação contra Maduro. Eles pensaram: bom, aqui está um adversário fraco, e nunca teremos um oportunidade melhor para atacar. Não sei se eles sequer chegaram a cogitar a opção diplomática. É muito provável que isso fosse uma farsa para tentar convencer os iranianos de que poderiam chegar a um acordo.
Você mencionou o sequestro do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, pelos EUA. Naquele caso, o governo Trump rapidamente substituiu Maduro por um governo subserviente. O governo Trump tem interesse em sucessores específicos no Irã?
Há muitos relatos de que os ataques teriam atingido críticos do regime, como Mir Hussain Mousavi, líder do Movimento Verde. Sua casa, onde ele está praticamente em prisão domiciliar há 15 anos, foi alvo de alguns dos ataques iniciais. Essa aparente disposição para atingir líderes políticos do passado que tenham se desentendido com o atual governo parece indicar que estariam tentando eliminar pessoas com potencial para conduzir uma transição democrática, e se manterem figuras nacionalistas. Não sei se eles já escolheram alguém, ou se não se importam, mas se formos olhar para o padrão dos ataques, imagino que eles tenham alguém em mente que seria favorável aos interesses dos EUA e de Israel.
Que tipo de recado EUA e Israel dão aos demais atores do cenário mundial ao realizar um ataque enquanto há negociações em curso? E o que isso comunica para as outras grandes potências?
Isso diz a qualquer potencial adversário dos EUA: consiga armas nucleares. Tergiversar não serve de estratégia, e abandonar seu programa, como [Muammar] Gaddafi fez, também não serve. A única estratégia bem-sucedida é a de Kim Jong Un, que é conseguir armas nucleares. Ele é o único déspota do chamado “eixo do mal” que ainda resiste.
Aparentemente, o sistema internacional neste momento se tornou um faroeste. É só a lei do mais forte. Essa também é a mensagem que chega a outras potências mundiais, como Rússia e China, que podem ter seus próprios planos em relação a países menores e mais fracos. Se os EUA determinam que vale a lei do mais forte, eles dizem “OK, se é assim que vocês querem, vamos fazer valer nossos próprios interesses também”.
Houve uma agitação considerável no Irã este último mês, com imensos protestos contra o governo e uma repressão violenta que matou milhares de pessoas. Diante dessa oposição ao governo, qual você espera que seja a reação aos ataques dentro do Irã?
Os iranianos estão presos há muito tempo entre o autoritarismo do seu próprio governo e o militarismo das potências estrangeiras, e esse é um exemplo muito claro desse fenômeno. Houve essa repressão terrível do governo iraniano em janeiro, e depois um grande ataque militar dos Estados Unidos, com 40 dias de diferença entre uma coisa e outra.
Acho que há no Irã um contingente cada vez maior de pessoas favoráveis à intervenção militar. Não sei o quanto isso é disseminado, mas é algo que observadores imparciais vêm observando ao longo dos anos. Certamente uma maioria significativa da população não gosta da República Islâmica, e preferiria acabar com ela. Mas quando chegamos à questão de quem apoia o uso de forças militares, e do quanto essa posição é prevalente, eu não acredito que seja a maioria da população. E ainda que fosse, esse apoio se dissolveria rapidamente quando as bombas começarem a cair. Acho que muitas das pessoas que foram às ruas e participaram das manifestações estavam lá por motivos de política interna, e também se oporiam a um bombardeio do país pelos EUA.
O que podemos esperar dos próximos dias e semanas?
Trump aparentemente pensa que isso vai acabar em algumas semanas. Não sei dizer se é uma expectativa realista. Eu apostaria em mais do que isso, pelo menos em termos das reverberações desse incidente, que serão imensas. Acho que elas provavelmente serão medidas em anos, não em semanas.
Sob o risco de entrar no reino da especulação arriscada, sinto que o governo iraniano terá uma postura mais ideológica, e que, se forem eliminados os escalões superiores do governo, as pessoas que vão ocupar esses papéis ainda estarão mergulhadas em boa parte da ideologia da Revolução Islâmica e da oposição à hegemonia dos EUA, após presenciarem tantos confrontos com os países ocidentais, e especialmente com os Estados Unidos.
Portanto, é possível que eles reproduzam a situação da Venezuela até certo ponto. Mas a minha suposição é que as pessoas que vão ocupar as lacunas serão mais da estirpe de Khamenei, e possivelmente terão menos restrições, principalmente quanto ao programa nuclear. Sabe-se lá em que ponto estará o programa nuclear quando tudo tiver sido concluído, mas acho que praticamente nada impedirá as lideranças iranianas de irem atrás das armas nucleares, se restar qualquer vestígio do atual governo.
Atualização:
Uma nota do editor foi incluída depois que as autoridades iranianas anunciaram que um conselho de juristas irá governar até que um novo líder seja escolhido.
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