Como ainda vivemos o legado colonial de desigualdade, racismo e violência, é natural que o discurso sobre o desenvolvimento seja tão forte no Brasil. Líderes políticos e empresários justificam suas ações em nome desse ideal. Quando não falam em desenvolvimento, falam em progresso.
Algumas coisas sempre aparecem nos discursos, como a criação de empregos e a ideia de que a economia tem que crescer (geralmente sinônimo de o PIB tem que crescer) para que finalmente alcancemos o tão sonhado desenvolvimento. Curiosamente, quando chegarmos lá, teremos que dobrar a meta: mais empregos, mais valor, e para isso, mais crescimento do PIB. Algumas outras métricas usadas pelo capitalismo e os economistas liberais são os índices da bolsa de valores e a quantidade de investidores estrangeiros aplicando seu dinheiro no Brasil. Em qualquer dessas métricas o que vale é seguir crescendo, como se em uma soma absoluta. Se o PIB cresce porque reconstruímos após uma enchente é bom, mesmo que o povo tenha sofrido. Se investidores estrangeiros chegam no país porque desfazemos nosso licenciamento ambiental, melhor ainda.

Há certamente uma equivalência padrão e forçada entre os interesses capitalistas e o que seria desenvolvimento e progresso. Dentro dessa lógica, o que é bom para o capital é bom para o povo.
Na versão mais “verde” do desenvolvimento sustentável, o que é bom para o capital também pode até ser bom para a natureza em algum grau, desde que não sacrifiquemos o capital para cuidar de um bioma ou manter o rio que sustenta comunidades ribeirinhas limpo e saudável. Há de se negociar e quem dá os termos da negociação são justamente aqueles políticos, juízes e até figuras técnicas que trabalham diretamente com as empresas e empreendimentos interessados em extrair recursos, dominar a provisão de serviços, construir infraestrutura e estabelecer mercados. Se há confluência suficiente entre políticos eleitos e os empresários, sua decisão raramente pode ser revertida.
Em nome do desenvolvimento, limitar participação popular
No caso de grandes projetos propostos em nome do desenvolvimento, audiências públicas, outras consultas e processos de licenciamento – o que sobrou deles – não são realizados com poder de veto ou para promover mudanças radicais ao que é apresentado.
Na história da jovem e frágil democracia liberal na maioria da América Latina e do Caribe, essas atividades que deveriam garantir efetivamente a participação popular e ser os pilares do desejo de governar com o povo raramente recebem o apoio e atenção necessários para que o debate inclua perguntas como “que desenvolvimento é esse?” ou “é desenvolvimento para quem?”. E mesmo quando previstas em lei, movimentos sociais e povos atingidos organizados apontam que os ritos de consulta não são seguidos adequadamente.
Essa falta não é acidental. Quando não se permite questionar o modelo de desenvolvimento e suas falhas históricas em entregar o que foi prometido para todos, sem exclusão e sem gerar novas zonas de sacrifício, é muito mais fácil seguir manipulando a opinião pública sobre o que é e o que não é necessário para o bem comum da população. É possível até mesmo vender esquemas danosos e banhados a corrupção como planos de salvação para o país, qualquer que seja o setor.
A consequência é uma democracia frágil, sob governos de esquerda ou de direita, que prioriza interesses privados primeiro, depois tenta alinhá-los com o público, para continuar insistindo em lógica de produção econômica que produz desigualdade na sua raiz. Isso porque quando o estado consegue arrecadar recursos para abastecer políticas públicas voltadas ao combate da desigualdade e da miséria, essas políticas já nascem amarradas e reféns de ceder cada vez mais para o capital privado, que nos é vendido como grande criador de empregos e como excelente gestor da economia.
Contudo, se assim fosse, não estaríamos vivendo no Brasil de 2026 dois grandes exemplos das falhas estruturais do capitalismo em proteger o povo, gerar empregos dignos, garantir melhorias de vida em geral e avançar em termos de sustentabilidade. Embora pareçam casos distintos, ambos envolvem negligência da classe política ou participação ativa em abrir caminhos públicos, e até investir fundos públicos, para facilitar o acúmulo de capital por grandes corporações. Estou falando da expansão do agronegócio através de ferrovias e hidrovias e das relações suspeitas de corrupção que envolvem até Daniel Vorcaro do Banco Master.

Falso desenvolvimento sustentável
Em nome do desenvolvimento, o estado brasileiro permite a destruição de ecossistemas delicados para facilitar o escoamento de mercadorias que, em sua produção, também destroem ecossistemas. É visível que no caso de hidrovias projetadas para aumentar a exportação de commodities do agronegócio e da mineração, qualquer grupo que se oponha é tratado como inimigo do Brasil. Por isso mesmo Helder Barbalho, governador do Pará pelo MDB, se irritou tanto em agosto passado com a mera sugestão de uma audiência pública do ICMBio. O governador, que quer expandir o escoamento de mercadorias por hidrovia, defendeu que a derrocagem do Pedral do Lourenço no Rio Tocantins era estratégica para o “crescimento sustentável” do Pará. Assim, ele “não poderia admitir” a tentativa de criação de uma área de proteção ambiental na região.
O Ministério Público Federal questionou na justiça o licenciamento da obra, principalmente por falta de consulta adequada e diálogo com as comunidades locais, que não vêem na explosão de rochas no leito do rio um exemplo de desenvolvimento. O projeto da Hidrovia Araguaia-Tocantins é do governo federal e visa aumentar o transporte de cargas e facilitar o corredor de exportação na região. Não se trata de melhorar a integração das comunidades ou mesmo de facilitar o comércio essencial dentro do Brasil e entre países vizinhos. Atualmente, mais de 100 milhões de toneladas de cargas passam pelos rios das bacias hidrográficas da Amazônia e do Tocantins-Araguaia e cerca de metade desse volume é soja e milho.
Sabendo que nós seres humanos não comemos diretamente tanta soja e milho, devemos questionar então que tipo de sistema produtivo de alimentos e de biocombustíveis estamos incentivando quando permitimos o uso de agrotóxicos e fertilizantes químicos em massa e a degradação de solos, além da negligência com o desmatamento criminoso e o “permitido”.
Será que o agronegócio está simplesmente fazendo sua parte para alimentar e abastecer o mundo, ou se trata da manipulação dos nossos sistemas alimentares e energéticos para incentivar a dependência de tanta monocultura? Estamos garantindo a soberania alimentar do povo ou estamos incentivando o consumo exagerado de carnes e ultraprocessados, além de gastos energéticos redundantes, simplesmente para manter a roda do crescimento girando?
Cargill e o estado como balcão de negócios da elite capitalista
O mesmo se aplica para o embate entre povos indígenas e o governo Lula sobre a dragagem do rio Tapajós, também vinculado a um projeto de hidrovia. O protesto indígena na Cargill em Santarém, no Pará, demonstrou como a luta de classes está viva e forte para os povos do território. Mesmo sem obter licença ambiental, o governo federal selecionou uma empresa para fazer a dragagem. Ministros de Lula prometeram consulta livre, prévia e informada – como orienta a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, a OIT – mas como ter consulta realmente prévia se o governo insiste em manter decretos e atos sobre obras na região e se tais projetos constam como estratégicos ao país?
O que interpretamos é que as decisões já foram tomadas e a consulta será apenas um rito de escuta, sem possibilidade de mudar os rumos do modelo de desenvolvimento apresentado.
Quando o assunto é a Cargill, também temos a Ferrogrão. Defensores do projeto alegam que a ferrovia irá reduzir emissões de gases de efeito estufa, pois tirará o peso do transporte rodoviário dessas commodities. Mas já sabemos que a matemática do “desenvolvimento” não funciona assim. Em termos de emissões diretas, é melhor transportar carga por trens do que por caminhões. Mas ao facilitar o escoamento dos grãos para o mercado externo, sabemos que a Ferrogrão irá ampliar a fronteira do agronegócio, o que provavelmente contribuiria 60 vezes mais em emissões indiretas do que as emissões poupadas.
Durante a COP30, a Cargill recebeu um “selo de sustentabilidade” do Ministérios de Portos e Aeroporto. O raciocínio do ministro Silvio Costa Filho é que sustentabilidade significaria promover “desenvolvimento com equilíbrio ambiental, social e econômico“. Parece bonito no papel, mas na realidade capitalista, as empresas campeãs do desenvolvimento sustentável estão na raiz da extrema concentração de renda, se beneficiam da absurda desigualdade fundiária no Brasil, pioram contextos de violência contra comunidades nos campos e florestas, e emitem muitos gases de efeito estufa através do seu modo produtivo.
A Cargill é a maior empresa privada dos Estados Unidos e está envolvida em negócios ao redor do mundo. Como não tem acionistas públicos, seu grau de transparência é ainda mais baixo do que se espera de uma corporação. Embora tenhamos estudos e relatórios excelentes que documentam a destruição da Cargill no Brasil, a empresa tem acesso privilegiado aos políticos brasileiros. Mesmo sob suspeita de ter adquirido terrenos no país de forma ilegal e outras denúncias de corrupção, a Cargill tem permissão livre para atuar no Brasil, com faturamento acima de 100 bilhões de reais.
Lobby com discurso de desenvolvimento atuando em favor da corrupção
Para questionarmos esse tipo de desenvolvimento, temos que prestar muita atenção aos esquemas de corrupção que escandalizam o Brasil. Existe uma ideia equivocada de que a corrupção é um problema de políticos apenas, como se o dinheiro corrupto não circulasse entre mãos públicas e privadas justamente para garantir os ganhos dos empresários. Se um político embolsar valor X, pode ter certeza que os empresários ao seu redor embolsaram ao menos o dobro em acordos, contratos, privilégios e acesso a mercados e recursos.
Há quem imagine que quando um pastor rico, ligado a um banqueiro bilionário, faz doações gigantescas para candidatos específicos, essa prática não se relaciona com o estereótipo padrão da corrupção onde o deputado é pego em flagrante com as calças cheias de dinheiro vivo. Todavia, em um sistema em que há tantos penduricalhos na política e onde parlamentares estão cada vez mais livres para acessar o orçamento público e destinar emendas sem prestação adequada de contas, precisamos desconfiar seriamente de como deputados e deputadas fazem uso dessas ferramentas.
Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro e pastor da igreja Lagoinha em Belo Horizonte, figurou entre os maiores doadores para campanhas em 2022 e apoiou com R$ 2 milhões a candidatura de Tarcísio de Freitas ao governo de São Paulo. Para a campanha de Jair Bolsonaro, a doação foi de R$ 3 milhões. Enquanto poderíamos supor que se trata de mero alinhamento entre ultraconservadores, defensores do fundamentalismo religioso e seus retrocessos no Brasil, é importante lembrar que muitos pastores ricos são também empresários. Zettel, no caso, fundou a Moriah Asset, uma empresa de investimentos de private equity (que investe em empresas privadas que não são negociadas no mercado de ações), e foi diretor da Super Empreendimentos – a mesma empresa que administra imóveis de alto valor de Vorcaro, inclusive o apartamento de R$ 4,3 milhões na Faria Lima doado para a influenciadora Karolina Trainotti. Zettel também doou um apartamento milionário em São Paulo na mesma época, no valor de 2,6 milhões, à nutricionista Gabriela Amaral Rocha.
Parece até apenas mais um caso de negócios espúrios da burguesia brasileira e seu falso moralismo, onde pregam uma coisa aos domingos, mas agem ao contrário nos outros dias. Porém, vale a pena olhar mais a fundo e investigar outros tipos de interesses privados. Em 2024, a Super Empreendimentos comprou um empreendimento de energia eólica da Salina Amarra Negra no Rio Grande do Norte e fez parte do pagamento também com um imóvel de luxo em São Paulo. A Salina Amarra Negra era uma empresa na produção de sal que migrou para o setor de energia renovável, reforçando um modelo de negócios já comum no Brasil, onde grandes latifúndios dão espaço a parques eólicos que reforçam a venda da energia como mercadoria e normalizam comunidades locais como zonas de sacrifício. Os mais de 8 mil hectares de propriedade faziam parte dos negócios da família de Fábio Faria, ex-deputado federal e ex-ministro das Comunicações do governo Bolsonaro. De acordo com matéria de Hamilton Ferrari, Faria foi para a BTG Pactual após o governo, e “aceitou o negócio pelo imóvel de R$ 50 milhões” que foi, no fim das negociações, comprado pelo empreendedor João Camargo, fundador e presidente do conselho de administração da Esfera Brasil.
Privatizar para “combater a corrupção” e continuar lucrando
A Esfera Brasil se promove como um think tank voltado a aproximar empresários e políticos, e que “promove diálogos entre os setores público e privado em prol do desenvolvimento do país.” A primeira parte parece ter funcionado bem, já que se trata em realidade de um grande grupo de lobistas. Foi em um evento da Esfera Brasil que Vorcaro conheceu Faria e depois o apresentou a Zettel. Já a segunda parte, sobre o famigerado desenvolvimento, deixa obviamente a desejar.
Vemos aqui o exemplo vivo do que a classe empresária chama de desenvolvimento: é o uso de iniciativas em setores que são sim estratégicos para o país, como provisão de energia, saneamento básico, transporte público, além de infraestrutura e indústria essenciais para enriquecer mais ainda. Como a métrica de desenvolvimento centrada no aumento do PIB e no desempenho da bolsa é torta, ela permite que a especulação, lavagem de dinheiro e a concentração de riqueza se justifiquem, desde que seja para atender a esses setores.
Aqueles que defendem a participação privilegiada de empresários na política brasileira, junto à primazia de sua propriedade privada, estão cada vez mais envolvidos no discurso do desenvolvimento nacional, porque isso abre portas e oportunidades de ouro. É por isso que o escritório de Antonio Rueda, presidente da União Brasil, defende a empresa Cedro Participações, investigada por explorar minério de ferro em terreno em Mariana, Minas Gerais, de forma irregular. Tanto Rueda quanto o empresário por trás da Cedro, Lucas Kallas, frequentam a Esfera Brasil; para piorar, Kallas foi indicado pelo ministro de Minas e Energia para o Conselho de Desenvolvimento Econômico Sustentável da Presidência da República.
Se parece que todos os piores empresários do Brasil, envolvidos em escândalos e negócios suspeitos, se conhecem e andam muito confortáveis em Brasília é porque é isso mesmo. É lógico, então, que não nos surpreendemos que o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, que tentou “salvar” Vorcaro e o Banco Master causando um rombo no BRB, também participa da Esfera Brasil.
Agravando a situação, quando essas relações e falhas explodem, ainda há aqueles que agem como abutres, buscando privatizar o que resta do estado. Foi por conta das falcatruas do Master e a proteção de Ibaneis que o BRB chegou a esse ponto, mas num país em que políticos e empresários se juntam para explorar e sucatear o patrimônio brasileiro, nada mais normal que sugerirem que a única saída para o BRB será o controle privado.
Vemos que a ideia de desenvolvimento e de economia saudável está presa ao crescimento do capital e até quando pintam algo de sustentável isso não passa de pequenos ajustes mais amigáveis ao meio ambiente. A lógica segue de apropriação e de concentração de propriedade, desde latifúndios a apartamentos de luxo, desde concessões de exploração à influência de fundos financeiros nas decisões do estado. E se algo falha por conta desse tipo de atuação, não se preocupe, o raio privatizador já espera.
Essas histórias nos contam que, enquanto discursos sobre o desenvolvimento forem usados para esconder seu intuito real, o aumento da participação de empresas privadas na nossa economia, com acesso a nossos recursos, e com poder sobre nossos povos, não teremos a menor chance de construir parâmetros reais e justos sobre melhoria de vida no Brasil.
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