Por dentro da briga de Malafaia e Damares: candidatura de Flávio Bolsonaro e afago à Michelle divide evangélicos

Por dentro da briga de Malafaia e Damares: candidatura de Flávio Bolsonaro e afago à Michelle divide evangélicos

Discussão pública de lideranças religiosas expõe o racha profundo dos bolsonaristas sobre a candidatura presidencial deste ano.

Por dentro da briga de Malafaia e Damares: candidatura de Flávio Bolsonaro e afago à Michelle divide evangélicos

O que levou a pastora e senadora damares alves, do Republicanos do Distrito Federal, a causar um rebuliço no meio evangélico e na direita decidindo denunciar igrejas evangélicas e pastores por envolvimento no esquema de fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social, o INSS? 

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Damares, aliada de primeira hora de Jair Bolsonaro e uma das principais líderes pentecostais e neopentecostais do país identificadas com o bolsonarismo, surpreendeu os aliados ao fazer tais declarações ao SBT News. As falas da senadora provocaram um ataque furioso do pastor bolsonarista Silas Malafaia, líder da Igreja Assembleia de Deus Vitória em Cristo, que a chamou de “leviana, linguaruda, cínica e mentirosa” e “indigna de ter o voto dos evangélicos”.

“Eu não acusei nenhuma igreja. Agora, se algum pastor cometeu algum erro, vai pagar, como também presidente de sindicato e presidente da associação. Ninguém vai passar a mão na cabeça”, disse Damares Alves ao Intercept Brasil.

Na avaliação de colegas de partido e religiosos, que falaram reservadamente ao Intercept, a ex-ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos está se afastando da família Bolsonaro. Mas Damares, eleita senadora em 2022 pelo partido ligado à Igreja Universal do Reino de Deus, nega. “Não me afastei da família. Minha relação com eles ultrapassa a política. Eu tenho carinho por eles, pois conheço o capitão desde 1998 quando fui trabalhar na Câmara”. 

O contexto é a disputa à presidência neste ano: enquanto Flávio Bolsonaro anunciou sua pré-candidatura, Damares, segundo relatos de pastores e políticos do Republicanos, gostaria de ver Michelle Bolsonaro, de quem é muito próxima, como uma alternativa para concorrer ao Planalto. Neste cenário estão duas opções: como cabeça de chapa ou, então, como candidata à vice de Tarcísio de Freitas, do Republicanos, atual governador de São Paulo e também cotado para a disputa. 

‘O Silas Malafaia sabe disso e quer interferir nesse processo. Assim, atacou a Damares, que é ligada à Michelle’.

Michelle, que não manifestou nenhum apoio público à Flávio, tem dado sinais favoráveis a Tarcísio: compartilhou um vídeo em que o governador de São Paulo atacou o PT e também curtiu um comentário da esposa dele, Cristiane, em que ela afirmava que o Brasil precisava de “um novo CEO, meu marido”, em alusão a uma possível candidatura dele à Presidência. 

Ao Intercept, Damares Alves negou ser contra a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro. “Vamos seguir firmes apoiando o Flávio. Eu vou apoiar a decisão e escolha do capitão. E a Michelle não está resistente à candidatura dele”, garantiu. 

Mas a atitude de Michelle gerou protestos do blogueiro bolsonarista Allan dos Santos, que cobrou publicações da ex-primeira-dama em apoio a Flávio Bolsonaro, lembrando que ele é o pré-candidato à presidência do grupo bolsonarista. 

O próprio Bolsonaro e seus filhos, segundo religiosos evangélicos, não concordam com a empreitada de Michelle e Tarcísio à Presidência. “De jeito nenhum. Não confiam nela. O Silas Malafaia sabe disso e quer interferir nesse processo. Assim, atacou a Damares, que é ligada à Michelle. Malafaia também não gostou da indicação de Flávio como candidato, e gostaria de ser ele próprio o nome apoiado por Bolsonaro ou então que Bolsonaro desse a ele o direito de escolher o nome da direita e extrema direita”, diz o pastor evangélico Caio Fábio, do movimento Caminho da Graça, que já foi próximo de Malafaia e hoje é um crítico do líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo. 

A movimentação política de Michelle causa incômodo na família Bolsonaro. Mas o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, a vê com bom potencial eleitoral e seria o seu maior incentivador. Michelle e Damares também estão juntas atualmente em uma missão: são as duas principais apoiadoras da candidatura da amiga Celina Leão, do PP, atual vice governadora do Distrito Federal, para a disputa ao governo local em outubro.

O escândalo do INSS respinga nas igrejas evangélicas

Na entrevista ao SBT que motivou a reação furiosa de Malafaia, Damares Alves confirmou nomes de igrejas citadas nas investigações como a  Adoração Church e Assembleia de Deus Ministério Renovo, entre outras, além de figuras como André Valadão e Fabiano Zettel, da Igreja Batista da Lagoinha. 

Zettel havia sido preso na manhã da quarta-feira, 14, pela Polícia Federal quando tentava embarcar para Dubai em um voo no Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo. Acabou liberado mais tarde.

Outros três pastores completaram a relação da senadora: Cesar Belucci, da Sete Church; Péricles Albino Gonçalves, da Campo de Anatote; e André Fernandes, ex-Lagoinha e agora líder da igreja Celeiro – Casa de Oração.   

Damares disse ainda lamentar ter de fazer a denúncia contra colegas religiosos. “É algo que me machuca muito. Estamos identificando grandes igrejas e grandes líderes evangélicos. E os pastores orientam: não falem, não digam, não investiguem porque os fiéis vão ficar muito tristes. Mas grandes igrejas estão sendo apontadas”, havia afirmado. 

 O pastor Silas Malafaia, então, reagiu, na sequência: “Ou a senhora dá os nomes ou a senhora é uma leviana linguaruda. Dê o nome de quem são os líderes que pediram para a senhora calar a boca”, esbravejou três dias depois das falas de Damares.

Não foi uma boa ideia de Malafaia, que patrocinou atos em favor de uma sonhada anistia a Bolsonaro nos últimos meses, cobrar publicamente a senadora. Logo em seguida, ela citou os nomes.

Segundo Damares, foram citadas na CPI por suposto envolvimento nas  fraudes as igrejas Adoração Church, Assembleia de Deus Ministério Renovo, Ministério Deus é Fiel Church e Igreja Evangélica Campo de Anatote, todas alvos de pedidos de quebras de sigilo pela CPMI do INSS.

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Na avaliação de pessoas próximas à senadora, Damares realmente teria se surpreendido com o volume de denúncias envolvendo colegas religiosos. 

Ao Intercept, a senadora disse que apenas relatou nomes citados na CPI. “Uma igreja, por exemplo [a Campo de Anatote], publicou uma nota e eles têm muita razão de estarem tristes e bravos. Eles disseram que foram citados na CPMI porque um investigado comprou uma casa que a igreja vendeu e era um único imóvel que essa igreja tinha. Estava vendendo, alguém foi lá e comprou. Quando quebrou o sigilo dessa pessoa, viram que ela comprou uma casa da igreja. Então, a citação foi isso”.

Damares é integrante da Igreja Batista da Lagoinha. Agora, ela enfrentará problemas internamente por ter citado os nomes dos pastores André Valadão e Fabiano Zettel, de sua igreja. “Eu amo a minha igreja. Quando o André começou a ser citado, eu fiz uma defesa dele. Eu disse que a citação foi apenas para arranhar a imagem do nosso pastor”, explicou.

A Lagoinha é concorrente do pastor Malafaia. O líder da Assembleia Vitória em Cristo tornou-se um crítico da igreja da família Valadão, segundo relatos de colegas evangélicos, ao ver ela crescer e ganhar fiéis nos últimos anos.

Para o colega pastor Caio Fábio, Malafaia também partiu para o ataque a Damares por concluir que “roupa suja” deve “ser lavada em casa”. A senadora, na avaliação dele, deveria tentar resolver o problema internamente, entre seus pares, e não citar colegas religiosos e do mesmo campo político.

“O Malafaia se sentiu atacado e respondeu, criticando Damares, porque quando se fala de grandes líderes evangélicos ele já acha que podem estar falando dele. E ele também passa a ser cobrado, pela mídia, pela população. Ele também se acha um porta-voz dos evangélicos, como se estivesse na praça do Vaticano evangélico. E num caso como esse, de denúncias no seu próprio campo, avalia que o correto é ficar quieto, para não causar problemas”, afirma o ex-líder presbiteriano. 

“Ele esbravejou contra a Damares, contra tudo e contra todos, em nome de defender a reputação evangélica”, completa.

“O movimento desses segmentos é sempre na tentativa de abafar denúncias, para evitar o escândalo. Tem a ver com essa mentalidade evangélica de ‘amanhã sou eu’”, comenta o pastor Sergio Dusilek, da Igreja Batista de Marapendi, no Rio de Janeiro, ex-presidente da Convenção Batista Carioca. “A cisão no seio do bolsonarismo também está por trás de toda essa celeuma”.

Colegas de Damares no Republicanos também avaliaram que ela não teria como “segurar” ou tentar esconder nomes de igrejas e pastores citados na CPI. A senadora, segundo eles, foi cobrada por colegas parlamentares para emitir um posicionamento público.

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