No reality show Poderosas do Cerrado, a empresária Thaily Semensato exibe uma vida de luxo no Centro-Oeste ao lado do marido, Laion Yanagu. Mas, na vida real, eles querem esconder que a Polícia Federal os investigou por contrabando de bebidas alcoólicas do Paraguai e apontou que o patrimônio do casal cresceu de forma rápida e suspeita.
Thaily e Laion são donos da Casa da Bebida, empresa que se apresenta como a maior loja virtual de destilados do Brasil. O casal começou o negócio no Paraná, mas transferiu a sede da firma para Goiânia, onde tem uma vida de luxo que foi exibida em detalhes no reality show da Globoplay.
Logo no primeiro capítulo, Thaily confidencia que a maior loucura que já fez foi comprar uma bolsa da Chanel por “uns R$ 92 mil”. Já Laion lançou um livro em outubro de 2024 para contar sua história, compartilhar sua filosofia da vida e sua “visão de mundo disruptiva”, com “muita fé e vontade de vencer”.
O que eles não contam é que a Polícia Federal os investigou por suspeita de comandar um esquema de contrabando de bebidas alcoólicas e crimes fiscais. O inquérito da PF do Paraná, que começou ainda em 2020 e tem mais de 3 mil páginas, inclui registros de mensagens de WhatsApp do próprio casal.

O celular de Thaily foi apreendido pela PF em fevereiro de 2023. Em conversas encontradas no aparelho, segundo a investigação, há registros de que a empresária negociou mercadorias com os clientes sem nota fiscal ou com valor menor do que o preço das vendas efetivadas e interagiu com clientes que reclamaram alegando supostas falsificações de bebidas e rótulos sem lacre de importação ou com lacre falso.

Em uma das mensagens, Laion admite, em conversa com um amigo em setembro de 2022, que começou sua carreira com bebidas adquiridas ilegalmente no Paraguai e na Argentina – e, por isso, evitava divulgar seu negócio para “não chamar a atenção”, enfatizando que se mudou para Goiânia para “legalizar”.

Ele ainda diz que despachava as bebidas de Jandaia do Sul, no Paraná, onde a fiscalização seria menos rigorosa do que outras cidades mais próximas da fronteira. A Polícia Federal do Paraná avaliou na investigação que Laion estaria sonegando aproximadamente 45% de impostos devidos.

Documentos da Receita Federal também mostram que, entre 2016 e 2019, bebidas contrabandeadas vinculadas ao casal de empresários foram apreendidas oito vezes no Espírito Santo, Rio Grande do Sul e Paraná – algumas nas proximidades da fronteira com o Paraguai. Em uma delas, dentro de um veículo retido, havia um mapa com uma rota para desviar de postos de fiscalização, segundo a PF.
“Há claros indícios de prática criminosa”, destacou a procuradora Maria Emília Corrêa da Costa, do Ministério Público Federal da 4ª Região, órgão responsável pelos inquéritos federais da região Sul do Brasil, em outubro de 2024.
Procurado pelo Intercept, Laion disse via WhatsApp que a investigação contra si foi arquivada por falta de provas – e que ficou comprovado que ele não cometeu crime. Tentamos contato com Thaily, mas não houve retorno até a publicação da reportagem. O espaço segue aberto.
Em nota (leia a íntegra), a defesa de Laion informou que ele não vai se manifestar sobre “narrativas especulativas e fatos já superados pelo Judiciário”. “A autoridade judicial, inclusive, em sua decisão determinou a restituição de bens indevidamente apreendidos durante a investigação, reforçando a inexistência de elementos que sustentassem qualquer persecução penal”, pontuou a advogada Adriana Correia de Miranda.
Arquivado em sete dias
Apesar dos registros e dos “claros indícios” citados pelo MPF, a investigação da Polícia Federal do Paraná acabou arquivada a toque de caixa em setembro de 2025 – poucos dias depois de o inquérito ter sido transferido para o Ministério Público Federal da 1ª Região, em Goiás. A decisão foi tomada pelo Juízo Federal da Subseção Judiciária de Aparecida de Goiânia, cidade onde fica o atual centro de distribuição da Casa da Bebida.
Essa transferência do inquérito, chamada de “declínio de competência”, foi resultado da mudança da sede da empresa do casal para Aparecida de Goiânia, ocorrida em 2022.
Após o inquérito chegar ao MPF da 1ª Região, bastaram sete dias corridos para que Divino Donizette da Silva, procurador do MPF de Goiás, decidisse pelo arquivamento da investigação. Para ele, “nenhuma diligência logrou resultado capaz de comprovar as irregularidades inicialmente noticiadas”.
Sobre as conversas nos celulares apreendidos pela PF, por exemplo, Silva cita que houve reclamações de clientes por venda sem nota fiscal, mas não aponta isso como indicativo de sonegação fiscal e contrabando.
O procurador ainda afirmou que a realização de mais diligências “implicaria o emprego de esforços, tempo e recursos do Estado, atarefando a Polícia Federal, o Ministério Público Federal e a Justiça Federal, já sobrecarregados, sem a obtenção de resultados práticos efetivos”.

O arquivamento foi homologado pela Justiça Federal em 8 de setembro. Apesar disso, o inquérito ainda pode ser reaberto – por decisão do próprio Ministério Público Federal ou caso a Polícia Federal faça uma representação indicando a existência de provas novas.
Em nota, o MPF de Goiás informou que a análise do processo seguiu protocolos internos de eficiência e que a razão foi “estritamente jurídica e processual: falta de indícios suficientes de materialidade delitiva” – e reiterou que não houve apreensão de mercadorias descaminhadas no estado de Goiás, após a transferência da empresa.
Em outro trecho, o MPF de Goiás pontuou que a transferência da sede da empresa não é suficiente para mudar de jurisdição e que o crime de descaminho (nome jurídico para contrabando) deve ser investigado no local da apreensão das mercadorias. “Sem a apreensão ficam prejudicadas tanto a materialidade (existência do crime) quanto a possibilidade de realização de perícia, com o fim de demonstrar a origem estrangeira da mercadoria.”
Sobre a sonegação, o MPF disse que não houve o “lançamento definitivo tributário”, que é a última etapa da fiscalização de impostos, após recursos e processo administrativo. “Assim, havendo o lançamento, retomam-se as investigações, com a reabertura ou a instauração de novo inquérito policial”, ressaltou na nota.
Por fim, a procuradoria destacou que as investigações sobre contrabando podem ser reabertas caso surjam notícias de novas provas. Questionada sobre isso, a Polícia Federal do Paraná não respondeu até a publicação desta reportagem.
Logística suspeita
Durante a investigação no Paraná, a PF tentou ouvir Thaily e Laion em agosto de 2023, meses após cumprimento de mandados de busca e apreensão em endereços do casal, mas ambos não quiseram depor e alegaram seu direito constitucional de ficar em silêncio.
No entanto, o delegado federal que chefiava o inquérito, Jonathan Klock, de Maringá no Paraná, registrou o depoimento do comerciante Elio Donizete Ferreira, flagrado em 2018 com 35 garrafas de uísque, tequila e licor contrabandeadas do Paraguai que seriam para a empresa de Laion e Thaily.
Quando a mercadoria foi apreendida pela Receita Federal, Elio disse que não poderia revelar a pessoa que havia encomendado as bebidas alcoólicas. No entanto, diante do delegado da PF, em agosto de 2023, afirmou que as bebidas foram encomendadas por Laion e Thaily com o objetivo de serem servidas em um evento de caridade. A encomenda foi coletada em lojas de Salto Del Guairá, no Paraguai.
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Um dia depois do depoimento, o advogado de Elio enviou um ofício para o delegado dizendo que o cliente havia se confundido. “Pela simplicidade do requerente, em estar diante da autoridade Polícia Federal, se confundiu em seu depoimento dizendo algo que efetivamente não quis dizer”, escreveu o advogado Laércio Rodrigues. O delegado Jonathan Klock morreu em abril de 2024 durante um tratamento contra leucemia.
Anos antes disso, em janeiro de 2016, durante a Operação Parajás da Receita Federal, o irmão de Laion, Denis Yanagu, foi flagrado com bebidas alcoólicas contrabandeadas do Paraguai. Ele usava estradas de terra para desviar da fiscalização. O dono do veículo que levava as bebidas, um Zafira Elite, era Laion Yanagu.
Na ocasião, Laion disse que emprestou seu carro para o Denis, mas que o irmão dirigiu até Salto Del Guairá sem o seu consentimento. Após a análise de mensagens de celular, a Polícia Federal concluiu que os registros indicavam que Laion usava Elio Donizete e Denis Yanagu para trazer bebidas do Paraguai para o Brasil.
O Intercept tentou contato com Elio e Denis, irmão de Laion, mas não obteve retorno até a publicação desta reportagem. O espaço segue aberto.
Ainda nas mensagens investigadas pela PF, Laion chegou a dar mais detalhes sobre sua operação comercial em uma conversa com um amigo por WhatsApp, inclusive relatando que as apreensões feitas pela fiscalização não afetam seu negócio.
“As vezes direto o Correio faz batidas… apreende mercadorias mas é assim, também é pouca… as vezes por ano eu perdia todo envio do dia… mas era pouco assim… a porcentagem era muito baixa de perca pelo tanto que você envia…”, escreveu o empresário em uma das conversas, segundo a investigação da PF.
Evolução patrimonial chama atenção
Relatório da Polícia Federal de março de 2023 analisou que a comercialização de bebida estrangeira sem pagamento de imposto pela entrada no país provocou uma “rápida evolução patrimonial” do casal, “incompatível, em tese, com o ramo de atividade exercida de modo legal”.

Levantamento patrimonial feito pelos investigadores mostra o aumento de bens do casal entre os anos de 2018 e 2022: um apartamento de R$ 1,9 milhão em uma área nobre de Goiânia; duas motos aquáticas; um apartamento na cidade de Porto Rico, no Paraná, comprado por R$ 373 mil e que recebeu melhorias, sendo avaliado em R$ 642,2 mil e, posteriormente, vendido; e carros de luxo como uma BMW X4 de R$ 369,9 mil e uma BMW X1 de 337,9 mil.
Durante a investigação, a Polícia Federal do Paraná analisou a contabilidade da empresa e comparou as bebidas declaradas com os envios das mercadorias aos clientes. Para os investigadores, o gasto com os Correios é bem superior ao total declarado de vendas, o que levanta a suspeita de sonegação.
Além disso, mensagens trocadas pelo empresário com contadores mostram a utilização de estratégias contábeis para a empresa não ter lucro e pagar menos impostos, o que incluía a emissão de notas fiscais e o uso de informações em sua declaração do imposto de renda.
Laion foi candidato a vereador de Goiânia pelo PL em 2024, quando declarou ter R$ 1,2 milhão em bens. Ele obteve 708 votos e não foi eleito.

Clientes reclamavam
Mensagens no celular de Thaily obtidas pela PF revelam a reclamação de clientes por suspeita de falsificação e pela falta de registro de importação de bebidas alcoólicas vendidas.
No final de 2021, conforme a investigação, Thaily cuidava pessoalmente das reclamações sobre os produtos da Casa da Bebida. Parte das contestações chegaram por meio do influencer Tierri Whisky, especialista no ramo de destilados, que divulgava a empresa de Laion e Thaily.
“Muita gente relatou que comprou com vocês e recebeu a nota metade do preço… sonegação de imposto na maior cara de pau”, disse o influencer em áudio enviado diretamente para a empresária em 17 de setembro de 2021.

Em outras conversas, Tierri relata que clientes estavam reclamando de produtos aparentemente falsificados ou sem procedência e alerta que a loja pode ficar “queimada” se mais gente ficasse sabendo da situação. Na resposta, Thaily negou a possibilidade de o produto ser falsificado, mas alegou que poderia ter problemas com importadora.
Em mensagens por WhatsApp, Laion relatou para amigos que alguns clientes devolviam os produtos por falta da declaração de importação mas que eram poucos. “Não vai dar 10% de devolução”, disse em uma das mensagens.
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