Grokipédia de Elon Musk promove teorias da conspiração.

‘Grokipédia’ de Elon Musk promove teorias da conspiração

O bilionário das big techs Elon Musk, dono do X e da Tesla, criou sua enciclopédia gerada por IA para concorrer com a Wikipédia.

Grokipédia de Elon Musk promove teorias da conspiração.

No final de outubro, Elon Musk lançou uma alternativa à Wikipédia, com verbetes escritos por seu chatbot de IA, o Grok. Ao contrário da antecessora que serviu de inspiração e já completa um quarto de século, Musk determinou que a Grokipédia deveria remover o lado “woke” da Wikipédia, que ele já descreveu como “uma extensão da propaganda da mídia tradicional”. Mas enquanto Musk considera que a Grokipédia de Musk está livre de propaganda, ela parece ter uma certa propensão à bajulação de direita.

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Pegando o verbete sobre Adolf Hitler na Grokipédia. Até o início deste mês, o verbete dizia: “Adolf Hitler, nascido na Áustria, foi o Führer da Alemanha entre 1933 e 1945”. Essa frase foi editada para “Adolf Hitler, nascido na Áustria, foi um político e ditador alemão”, mas o Grok ainda se refere a Hitler por esse honorífico em um parágrafo posterior, onde se lê que Hitler atuou como “Führer und Reichskanzler de agosto de 1934 até seu suicídio, em 1945”. A NBC News também apontou que a página sobre Hitler chegava a 13 mil palavras antes da primeira menção ao Holocausto.

Não é a primeira vez que o Grok elogia Hitler. No começo do ano, usuários do X publicaram capturas de tela do chatbot de IA dizendo que o líder nazista poderia ajudar a combater o “ódio contra os brancos”, ecoando as declarações de seu criador sobre as acusações já desmascaradas de um “genocídio branco” na África do Sul. (Quando confrontado sobre a transformação do Grok em “MechaHitler” no começo do ano, ele disse que usuários “manipularam” o chatbot para elogiar o líder nazista.)

Uma versão anterior da página da Grokipédia sobre Hitler. A versão atual só menciona mais o Holocausto depois de milhares de palavras no verbete. Captura de tela: Tekendra Parmar

A Grokipédia não é exatamente um Stormfront, o site neonazista conhecido por despejar preconceito e negar o Holocausto, mas ela cita o blog supremacista pelo menos 42 vezes, segundo dados recém-publicados do pesquisador Hal Trieman. O que a Wikipédia alternativa gerada por IA faz é promover sutilmente as narrativas da extrema direita, imitando a autoridade da Wikipédia enquanto reformula posições extremistas, lança suspeitas sobre instituições democrática, e faz sobressaírem fontes marginais ou conspiratórias.

LK Seilling, pesquisador de IA no Instituto Weizenbaum, descreve a Grokipédia como “camuflagem de desinformação”.

“Todo mundo conhece a Wikipédia. Eles são uma autoridade epistêmica, se quiser chamar assim. [Musk] quer se atrelar exatamente a essa autoridade epistêmica para fundamentar sua pauta política”, diz.

É importante prestar atenção na forma como o Grok estrutura algumas questões-chave.

Vejamos, por exemplo, o post da Grokipédia sobre o Alternativa para a Alemanha, ou AfD, o partido de extrema-direita que Elon Musk elogiou repetidamente no período que antecedeu as eleições na Alemanha, no começo do ano. O Grok traz uma seção inteira sobre “Caracterização na Mídia e Suposto Viés”, que serve para repetir as alegações de longa data do AfD de que a mídia é tendencioso e os prejudica. (O partidohttps://www.dw.com/en/afd-leaders-and-their-most-offensive-remarks/g-37651099 repete constantemente um discurso islamofóbico e contra os imigrantes, e suas lideranças já encorajaram o país a parar de pedir desculpas pelo passado nazista. O AfD também já promoveu teorias da conspiração como a “Grande Substituição”, uma das favoritas dos nacionalistas brancos.)

“Os principais veículos de comunicaçãoda Alemanha, incluindo emissoras públicas, como ARD e ZDF, vem consistentemente caracterizando o Alternativa para a Alemanha (AfD) como um partido extremista ou de extrema direita”, escreve o Grok. “Essa caracterização geralmente destaca a investigação do AfD pelo Gabinete Federal de Proteção da Constituição (BfV), que em 2021 classificou a ala jovem do partido como extremista e colocou o partido de forma geral sob observação por tendências extremistas de direita em 2025, enquanto minimiza conquistas políticas e vitórias eleitorais nos estados do leste.”

O Gabinete Federal de Proteção da Constituição foi criado após a Segunda Guerra Mundial para garantir que nenhum líder alemão tente derrubar novamente a constituição do país. Mas a Grokipédia sutilmente lança dúvidas sobre a legitimidade da instituição, argumentando que ela “minimiza” as conquistas do AfD.

Segundo Selling, que é alemão, a Grokipédia está tentando minar a autoridade das instituições alemãs criadas para evitar outro Hitler. “Ela transita entre as narrativas que esses próprios partidos estão espalhando”, diz Selling. “Se olharmos de perto o argumento deles também é meio merda. Só porque [o AfD] chega a 15% nas pesquisas, não significa que eles tenham mérito.”

Isso fica especialmente claro na forma como a Grokipédia lida com o genocídio em Gaza.

De forma bem semelhante à do verbete sobre o AfD, a página tem uma longa seção dedicada aos “vieses” da ONU e de ONGs como Anistia Internacional e Human Rights Watch, que o Grok acusa de enfatizarem ” as ações de Israel e minimizarem as violações do Hamas”. Particularmente, a Grokipédia repete acusações infundadas de Israel, de que a Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina, UNRWA, havia sido infiltrada por agentes do Hamas, e as páginas sobre o conflito Israel-Hamas dependem profundamente de hiperlinks de grupos de ativismo pró-Israel, como UN Watch e NGO Watch.

“Uma investigação interna da ONU confirmou que nove empregados da UNRWA ‘podem ter estado envolvidos’ no ataque liderado pelo Hamas, o que levou à sua demissão, enquanto a inteligência israelense identificou a participação de pelo menos 12 funcionários da UNRWA, inclusive na tomada de reféns e na logística”, escreve o Grok. Embora a ONU tenha demitido nove funcionários depois das acusações de Israel que eles estariam envolvidos no ataque de 7 de outubro, a organização também confirmou que não conseguiu “validar de forma independente as informações usadas por Israel para fundamentar as acusações”.

Vale ressaltar que Netanyahu e as forças de defesa de Israel, IDF, fizeram uma série de acusações falsas após o ataque de 7 de outubro, inclusive que o Hamas teria decapitado 40 crianças, e que os insurgentes do Hamas teriam usado violência sexual durante os ataques.

Como a própria UNRWA observou, as acusações infundadas feitas contra seus funcionários colocaram as vidas de todos eles em risco. Segundo a ONU, 1 em cada 50 funcionários da UNRWA em Gaza foi morto durante o conflito, o maior número de mortos em qualquer conflito na história das Nações Unidas.

Se o objetivo das plataformas tecnológicas é fragmentar a realidade pela radicalização dos algoritmos, o Grok está reconstruindo a realidade para os extremistas redpill. Isso significa não apenas questionar a integridade das fontes de autoridade tradicionais, como o Gabinete Federal de Proteção da Constituição da Alemanha, ou a ONU, mas também apresentar um conjunto alternativo de autoridades.

Na página do Grok que trata de teorias da conspiração ligadas ao massacre de 2012 na escola Sandy Hook Elementary School, vários parágrafos são dedicados ao que o Grok descreve como “Anomalias Iniciais e Descrença Pública” sobre a narrativa oficial. “Meios de comunicação alternativos desempenharam um papel fundamental na disseminação de questionamentos iniciais sobre o relato oficial do massacre da escola Sandy Hook Elementary School”, escreve o Grok, fazendo referência ao site de teorias da conspiração Infowars, controlado por Alex Jones, e outros grupos de mídia. (As famílias das vítimas do massacre de Sandy Hook processaram Alex Jones em 1,5 bilhão de dólares, equivalentes a 8 bilhões de reais, por espalhar alegações falsas sobre o ataque a tiros na escola).

O verbete do chatbot prossegue: “essa viralização reflete a desconfiança disseminada entre o público em relação às explicações oficiais após o 11 de setembro, permitindo a acumulação de base de questionamentos que os veículos tradicionais ignoraram ou desprezaram”. Segundo os dados de Triedman, a Grokipédia citou o Infowars como fonte pelo menos 30 vezes.

Trata-se de uma máquina de propaganda de baixo esforço, e sua displicência a torna especialmente preocupante.

Projetos de mídia conservadores e governos de direita adotam uma prática de revisionismo histórico de longa data, mas no caso da Grokipédia, algo parece especialmente precário.

“As mídias de estilo enciclopédico consomem um volume enorme de trabalho. A Wikipédia requer enormes estruturas humanas de governança, todas visíveis e auditáveis”, explica Seiling. “Musk não tem exércitos de pessoas redigindo os verbetes. O que ele tem é uma tonelada de GPUs”, a tecnologia que sustenta o processamento da IA.

Muito da autoridade da Wikipédia decorre de sua transparência e da natureza auditável do trabalho feito pela comunidade. A Grokipédia nunca vai concorrer com a Wikipédia – da mesma forma que as redes Truth Social e Gab não concorrem de fato com suas equivalentes do mainstream. Mas isso não a torna menos perigosa. Trata-se de uma máquina de propaganda de baixo esforço, e sua displicência a torna especialmente preocupante. Ninguém precisa mais de um quadro de burocratas da Fundação Heritage para reescrever os livros de história; basta uma tonelada de poder de processamento para ajudar a higienizar a ideologia por meio da estética ou da objetividade. Em decorrência disso, Musk e sua criação não estão apenas esvaziando o debate e correndo a capacidade de pensamento crítico dos usuários – eles estão sabotando a própria ideia de que vivemos em algum tipo de realidade consensual.

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